Ensaio
Por que falamos Oh quando estamos impressionados?
Oh, que delícia de vômito; que exótico!
Quero partir de Darwin para tratar de um assunto curioso (o título já adiantou um pouco). Para aqueles que não sabem nada sobre Darwin, aqui vai uma informação básica antes de prosseguirmos. Em 1831, aos 22 anos, Darwin embarcou em uma viagem marítima em um navio chamado Beagle. A viagem durou 5 anos até dar a volta na Terra, parando em várias ilhas, arquipélagos e países (incluso duas passagens pelo Brasil, a primeira em 1832 e a segunda em 1836). Foi durante a viagem que ele teve a intuição sobre a seleção natural para explicar o motivo pelo qual uma espécie pode se tornar outra. O tema da evolução das espécies, no entanto, não tem nada a ver com o que quero tratar.
Feito esse pequeno introito, gostaria de destacar uma passagem do livro A expressão das emoções no homem e nos animais (1872), em que Darwin, tratando sobre o tema da abertura de boca durante as expressões de espanto, comenta um acontecimento da viagem do Beagle. Segue o trecho, abaixo:
Um dos sons mais comuns é um ‘oh’ profundo; e isso seria, segundo Helmholtz, a consequência natural da abertura moderada da boca e da protrusão dos lábios. Em uma noite tranquila numa pequena enseada do Taiti, alguns foguetes foram lançados do Beagle, para divertir os nativos; e a cada lançamento fazia-se um silêncio absoluto, mas que era invariavelmente seguido de um profundo oh, ressoando por toda a baía.
Toda a viagem de Darwin foi relatada por ele, naquilo que chamou de Diário do Beagle. Em 25 de novembro de 1835 ele descreveu algo que não estava em A expressão das emoções no homem e nos animais, mas trata de um episódio muito semelhante. Existe uma chance de os episódios serem os mesmos, mas contados a partir de rememorações distintas. No Diário, Darwin fala sobre a rainha do Taiti (Pomare IV), que foi até as margens da ilha para encontrar-se com os tripulantes do Beagle. Nessa ocasião, fala-se novamente sobre foguetes:
A rainha é uma desajeitada mulher gorda, desprovida de qualquer beleza, graciosidade ou dignidade em seus modos. Parece ter somente um atributo nobre; isto é, uma absoluta imobilidade de expressão sob quaisquer circunstâncias. Os rojões e as canções dos marujos pareceram ser o que mais a divertiu.
Como você, caro leitor, deve ter um espírito malandro, deve estar pensando que Darwin colocou a rainha do Taiti entre aquilo que posteriormente chamou de “nativos”. É possível, sim, mas não é o que quero apontar aqui. Em todo caso, é importante destacar que entre os intelectuais do século XIX, Darwin foi um dos maiores nomes a se colocar contra os abusos da escravidão; então, por mais que existam preconceitos de época, é difícil imaginar que ele quisesse — mesmo que sem querer, dado que no trecho de As expressões citado, a memória da rainha do Taiti já havia ocorrido há muito tempo — chamá-la de “nativa” num sentido depreciativo. Mas, para não fazer papel de bom moço, advogado de Darwin, posso dizer que também faltou nobreza nele. Ao chamar a rainha de gorda e caracterizá-la como desprovida de beleza, ele jogou muito sujo. Que tamanha indecência, Sr. Charles!
O fato é que Darwin esteve muito ocupado em tentar entender várias das nossas expressões faciais. Ele encontrou nisso uma oportunidade de mostrar que várias delas já podiam ser visíveis em nossos ancestrais em comum, os símios. Não tenho a mínima intenção de explicar isso aqui e nem convencer leitores sobre a veracidade da evolução das espécies (esse barco já passou e está bem avançado). Quero, na verdade, propor algumas explicações sobre por que abrimos a boca e dizemos Oh, diante de situações que nos deixam impressionados ou que nos espantam; seja o espanto positivo (por vermos alguém fazer algo muito difícil), ou um espanto negativo (por vermos um acidente repentino ou presenciarmos uma tragédia).
Em primeiro lugar, cabe dizer que me parece que esse Oh é sempre uma consequência de um susto; em outras palavras, consequência de um acontecimento inesperado, que quebra algum padrão de normalidade. Por exemplo, você nunca espera que um homem vestido de terno vá, de repente, dar uma cambalhota e, logo em seguida, tirar um coelho da cartola, especialmente se ele estiver apenas andando em uma rua movimentada e não em um circo ou em um teatro. Do mesmo modo, você ficará impressionado se ver alguém saltando de uma ponte e tirando a própria vida. São coisas que não acontecem toda hora; que quebram a normalidade banal da vida que, em geral, segue apenas uma rotina entediante e lamurienta.
Certo. Considere que você tomou um susto e subitamente soltou um Oh. Sua testa franziu, sua sobrancelha ergueu e uma mosca quase entrou direto na sua goela. Essa expressão parece ser uma tentativa inconsciente de absorver um acontecimento impressionante. Abrimos a boca como se quiséssemos engolir o mundo e, junto desse engolir simbólico, poderíamos engolir também o próprio ocorrido impressionante que temos diante de nós. Parece-me uma ideia plausível.
Por vezes, o Oh é acompanhado de um passinho para trás e uma jogadinha de corpo tentando se afastar da situação; daí a coisa complica porque é como se disséssemos “Oh (eu não sou capaz de engolir tanto… por isso, dou um passinho para trás!). Junto com o Oh, também pode sair um arzinho seco da boca. De novo, insisto na ideia apresentada. O ar sai da boca em uma tentativa do organismo se esvaziar daquilo que tem dentro de si para que possa caber o que está prestes a simbólicamente absorver (ou seja, o acontecimento marcante que estamos presenciando). Não raro, também se diz Oh não… Justamente um Oh não (eu não sou capaz de engolir tanto!).
A nossa relação com a comida também é simbólica. Poucas coisas fazemos mais do que comer, dormir e copular. Nesse sentido, parece-me que grande parte das expressões que envolvem movimentos bucais estão relacionados com ideias de alimentação. Por exemplo, na expressão de nojo, em que retorcemos a boca, temos justamente o oposto da expressão de espanto. Nós retorcemos a boca para dizermos para o mundo que “isso não é comestível”. Junto com essa expressão de nojo, também o som “ããrrr…”, que significa “cruzes! tire isso de perto de mim, pois do contrário, serei capaz de vomitar”. Não por acaso, quando vomitamos, o que se ouve é uma ampliação radical e animalesca desse “ããrr”, onde a expressão de nojo, não podendo mais conter a boca, dá espaço para que o estômago entre em cena e tire dele tudo o que havia engolido.
Cabe dizer que o Oh não é universal no espanto. O próprio Darwin aponta que algumas tribos indígenas manifestam espanto com gemidos e alguns dizem “rái-rái!”. Nem me atrevo a entrar nessa esfera cheia de nuances da antropologia. Mas de qualquer forma, como sou um pequeno filósofo e gosto de falar atrocidades e coisas exóticas, aqui vai uma bem forte (talvez até te arranque um Oh delicioso)…
Parece-me que o vômito é uma coisa muito filosófica! Dizem os sábios que aqueles ressentidos e mãos de vaca — que não gastam seu dinheiro por nada! — trancam os dentes para vomitar. Santa imagem essa, porque é exatamente o que sinto diante da vida: como alguém trancando os dentes para não deixar o vômito sair; uma ânsia que vem do estômago… Oh, que delícia de vômito; que exótico!
__________
Referências bibliográficas
DARWIN, C. A expressão das emoções no homem e nos animais. Prefácio de Konrad Lorenz. Trad. Leon de Souza Lobo Garcia. São Paulo: Compahia das Letras, 2009
DARWIN, C. O diário do Beagle. Trad. Caetano Waldrigues Galindo. Posfácio: Fernando Fernandez. Revisão e notas: Marcio Renato Guimarães. Curitiba: Editora UFPR, 2006