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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

Escolas sem celular em 2025 e a morte de David Lynch

Nossos jovens estão totalmente distantes de si mesmos, ou como talvez diriam os entusiastas da meditação, distantes de sua própria consciência observante.

Escolas sem celular em 2025 e a morte de David Lynch

O presidente Lula sancionou recentemente a lei n.º 15.100 que restringe o uso de celulares nas escolas públicas e privadas. A lei tem por objetivo “salvaguardar a saúde mental, física e psíquica das crianças e adolescentes” e ela considera “todos os espaços escolares nos quais são desenvolvidas atividades pedagógicas sob a orientação de profissionais de educação”, permitindo o uso apenas para fins que garantam a acessibilidade, a inclusão, que atenda às condições de saúde dos estudantes e que defenda seus direitos fundamentais. A lei ainda traz uma importante recomendação, que é também o ponto que especialmente quero tratar aqui, na sequência do texto. Leia-se: “as escolas deverão elaborar estratégias para tratar do tema do sofrimento psíquico e da saúde mental dos estudantes da educação básica, informando-lhes sobre os riscos, os sinais e a prevenção do sofrimento psíquico de crianças e adolescentes, incluindo o uso imoderado dos aparelhos”.

Na última semana, outra notícia também povoou os jornais: foi a morte de David Lynch, famoso cineasta estadunidense, especialmente conhecido no Brasil pelo filme Veludo Azul e pela série Twin Peaks. Foram, inclusive, resgatadas notícias antigas de uma visita que o Sr. Lynch fez ao Brasil em 2008, ocasião em que palestrou a respeito do seu livro que havia sido recentemente lançado, intitulado Em águas profundas: criatividade e meditação. Eduardo Lima, redator da revista Super Interessante, informou em 16 de janeiro, que Lynch “levava o negócio [da meditação] tão a sério que veio para o Brasil para tentar convencer o presidente Lula a implementar a meditação transcendental nas escolas […] A ideia do diretor é que a meditação ajuda a pescar peixes em águas profundas, e as melhores ideias saíam das profundezas da consciência”.

Os entusiastas da superstição podem fazer a ligação dos fatos acima mencionados e concluírem que duas notícias que não possuem nenhuma relação, na verdade, podem ter tudo a ver. Talvez aquele detalhe específico da lei sancionada por Lula que diz que “as escolas deverão elaborar estratégias para tratar o sofrimento psíquico…”, já tenha uma resposta, dada 17 anos atrás, por David Lynch — não sendo, por isso, coincidência ou acaso que a lei tenha sido sancionada na mesma semana da morte do cineasta.

Galhofas à parte, falemos seriamente agora. O extremo oposto de uma mente completamente ativa e perturbada, seja por telas ou por paixões funestas, seria certamente a calmaria, a quietude e a utilização da consciência para observar a si mesmo. Realmente parece que a meditação poderia ser um passo para o avanço da educação no Brasil. É certo que parece uma solução um tanto quanto excêntrica, mas eu, enquanto profissional da Filosofia, preciso sugerir soluções e propor ligações que fujam do óbvio (ao menos é o que gosto de pensar).

Quais são as soluções óbvias? Talvez eu devesse tê-las apresentado no começo, porém, não importa tanto assim. Pois bem, é óbvio que os professores e diretores das escolas irão, ao longo de 2025, dar suas longuíssimas palestras para os adolescentes das escolas sobre a importância da redução do tempo de tela e em como a escola deve ser um lugar de interação e convívio; é óbvio que os alunos reclamarão severamente contra a medida de lhes retirarem seu precioso celular: eles sentem abstinência por ficarem longe do aparelho por meros 2 minutos, quiçá por quatro longas horas de aula de matemática! Enfim, é óbvio que muitas confusões farão com que pais se direcionem até as escolas para conversas severas.

Então, veremos novamente a solução de David Lynch brilhar e ressoar como uma tentativa de contornar o óbvio: a meditação serve para nos prender no tempo presente, para observarmos nossas emoções, sensações e para respirarmos calmamente. Os nossos jovens da presente geração, que nasceram com o celular na mão, assistindo storys e conteúdos superficiais — lembremos da expressão que anda na moda entre os intelectuais do Dicionário Oxford, “brain rot - cérebro podre”, do incrível e inesquecível Henry David Thoureau, em Walden: a vida nos bosques —, enfim, ia dizer, nossos jovens estão totalmente distantes de si mesmos, ou como talvez diriam os entusiastas da meditação, distantes de sua própria consciência observante.

Bem, minha solução nada convencional para a lei sancionada por Lula está dada. Certamente ela não será aderida, dado que para assim proceder alguns desafios teriam de ser contornados, em especial, o fato de que os professores em geral não sabem nada sobre meditação, como então poderiam ensinar os alunos a meditar? Sendo assim, talvez devêssemos expandir a solução de Lynch para a sociedade toda: todos deveriam meditar, desde o presidente Lula até os adolescentes nas escolas, que, agora, terão suas chupetinhas tiradas de suas bocas.

Originalmente publicado na Folha de Londrina.

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