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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

O prisioneiro e sua chave

Todo dia, todo instante e toda a vida é composta por enganos e autoenganos

M. C. Escher - Hand with Reflecting Sphere, 1935
M. C. Escher - Hand with Reflecting Sphere, 1935

Considere um prisioneiro. Mas ele não está inteiramente preso. Ao contrário, está em posse da chave do seu próprio cárcere. Considere um ser humano, pois ele se encontra nessa mesma posição a partir do fato de que sempre pode dar cabo de sua própria vida, compreendendo o suicídio como uma solução final de autossuficiência. A morte do Diogenes de Sinope é um bom exemplo para ilustrar: ele teria trancado a sua respiração até o sufocamento. Toda condição atual que carregar um devir de condição futura é uma analogia ao cárcere. Assim, a doença é a prisão da saúde; a saúde, a prisão da doença. A vida, a prisão da morte, a morte, talvez a prisão da vida. O hoje é a prisão do amanhã e o amanhã aprisionará o hoje na consciência e na memória.
Voltemos ao prisioneiro no cárcere. Considere o mito de Platão e suponha que o prisioneiro liberto não queira dar passo nenhum em direção à entrada da caverna: agora ele sabe que esteve preso por muito tempo, sabe que tudo que conhece é falso e fruto da mentira, mas ele não quer o novo, não quer superar sua condição. Ao contrário, ele se compadece pelas sombras, valoriza tudo que elas representaram para sua vida e encontra todo o sentido nelas. Nós, com olhar livre e profundo, diremos para aquele que sai da caverna: agora, não há mais sombras, mas o engano persiste. E então, voltaremos nosso olhar para o nosso prisioneiro, com todo amor e sutileza e lhe diremos: você não se engana tanto assim, o engano da prisão e da caverna não é tão diferente do engano que há lá fora.
Ele nos olhará com uma curiosidade imensa e perguntará o que há lá fora. Seu coração necessitado do novo estará pronto para sair, mas nós lhe diremos: não há nada demais lá fora, irá se arrepender, continue preferindo as sombras e conservando essa grande curiosidade de sair, essa fúria em querer a liberdade, mas nunca a alcançar de fato, verá que há nisso mais valor e mais inspiração. Entraremos em uma discussão forte com o prisioneiro, pois ele não aceitará continuar ali, dado que já não está mais preso por correntes. Tentando convencê-lo, iremos lá fora e voltaremos com flores, frutas e alguns animaizinhos bem mansos. Veja, são essas coisas que encontrará lá fora, mas insisto que permaneça aqui. Então ele vislumbrará a flor, que antes conhecia apenas como sombra; comerá o fruto e sentirá o seu sabor adocicado; fará carinho nos animais e se deleitará com seus rostinhos de prazer. Depois, ele estará realmente convencido de que lá fora há uma vida realmente melhor do que no fundo da caverna. O medo que tinha, será superado de uma vez por todas e não poderemos mais contra argumentar. Levantando-se em um impulso e sem mais querer nos ouvir, ele dá o primeiro passo rumo à entrada da caverna. Com ar de superação e elevação, nos dá as costas e continua seguindo; vê a fogueira que havia atrás de si e então subitamente uma centelha de lucidez e inteligência lhe abate, então ele nos pergunta: por que trouxe os animais, o fruto e as flores? Mas nós não lhe responderemos. Ele insistira: Por que ao mesmo tempo que me quer me convencer a ficar, me deu motivos para querer sair? Então lhe diremos: ao sair por aquela entrada, encontrará uma nova prisão. E ele não entenderá. Lhe diremos mais uma vez: há apenas uma maneira de sair pelo lugar certo. Enfim, tendo captado de fato sua atenção, lhes mostraremos um segundo caminho: lhe apresentaremos o martelo e a talhadeira. Diremos: vê as sombras, prisioneiro? Às mataremos pela exaustão. Te mostrarei outra saída. Nela não encontremos fogo, mas escuridão; não encontraremos animais bonitinhos, mas serpentes, larvas, besouros, sanguessugas, aranhas e escorpiões: você será picado, prisioneiro, seu sangue será chupado, as serpentes lhe enrolarão as pernas e o coração, você quase encontrará a morte antes de vislumbrar a liberdade.
Ele, naturalmente se assustará e não entendendo, tentará se afastar. Diremos mais uma vez: há o caminho fácil, que é o que escolhes, há o difícil, que é o que te apresento. Ainda sentindo uma ponta de medo do sol que chega pela entrada da caverna, ele nos dá ouvido mais uma vez. Entregamos-lhe o martelo e a talhadeira e lhe ensinamos: vê as sombras na parede? Pois, comece a destruí-las; agora descobriremos o que há por traz da parede. Por dias, trabalharemos junto com o prisioneiro e nós abriremos um buraco tão profundo ao fundo da caverna que cada vez mais o fogo que havia atrás de nós se tornará distante, ao ponto que encontraremos a verdadeira escuridão: onde estão as sombras? Nos perguntará o prisioneiro. Diremos a ele: nós as matamos e agora podemos recomeçar; nós seremos, a partir de agora, prisioneiro, os nossos criadores; nós continuaremos cavando, até encontrar uma luz nova, uma entrada nova, um fogo novo: do outro lado havia uma luz mórbida, prisioneiro, acredite, acredite, nunca quis te enganar.
Por amor, por persistência e por valorizar todo o caminho percorrido, o prisioneiro continuou acreditando em nós, mas ainda se lembrando de como o outro caminho teria sido muito mais fácil; a está altura já estaria desfrutando de animais, frutos, flores e todo o resto que lá fora havia, mas que ele ainda não conhecia… Além do mais, nem as sombras agora ele tinha. Envolto nesses pensamentos duros, as pedras se tornaram terra; surgiu então uma minhoca. Mostramos a minhoca para o prisioneiro, com muita admiração: vê, prisioneiro, vê! É a primeira coisa que encontramos e a partir daqui a luz começará a reaparecer em nossa jornada, em forma de animal; a vida se apresenta para nós, sim! Vê, prisioneiro, não é um bicho manso como o cachorrinho que te mostrei lá atrás, mas um bichinho escroto. Nós lá fora a chamamos de minhoca. Perceba quão real ela é, o quanto se debate, o quanto quer a vida. Para onde a minhoca vai, prisioneiro? O que ela quer encontrar aqui embaixo? Quais são suas sombras, seus ideais e seu objetivo? Pense nisso, prisioneiro, pense nisso. Mais adiante, encontramos escorpiões que tentaram nos picar; continuamos escavando a terra e preparando o nosso caminho; desviamos dos inimigos, refletíamos sobre eles e limpávamos a terra que nos impregnavam nas pernas. Dizíamos constantemente ao prisioneiro: estamos quase chegando, estamos quase chegando! Onde? Ele nos perguntava. Dizíamos: não sei, mas isso não importa, prisioneiro, não importa, você ainda não entendeu, persista, prisioneiro, persista; cave, prisioneiro, cave!
Exausto, com o passar de anos de aflição em meio a bichos e terra o prisioneiro perdeu toda a esperança. Lamentou-se tristemente por ter confiado em nós e totalmente seguro afirmou que voltaria todo o caminho percorrido. Não lhe apresentamos nenhum contramotivo e o deixamos partir. Faça como quiser, prisioneiro, dizemos. Nem bem o prisioneiro virou as costas, cavamos apenas por mais alguns instantes e encontramos a saída.
Era o prisioneiro que nos aprisionava e era nós que aprisionávamos o prisioneiro. A primeira coisa que ele encontrou foi a mentira; a primeira coisa que encontramos foi a verdade: ele viu Deus, então seus olhos foram cegados pelo sol. Nós vimos o Macaco e nossos olhos foram abertos e nosso espírito, abençoado por uma vida introspectiva. Na entrada da caverna, o prisioneiro encontrou um mundo limitado pela cultura; no fundo da caverna, nós encontramos a oportunidade de recomeçar. O mundo aplaudiu o prisioneiro e lhe encheu de glórias por ter tido a coragem de se libertar; nós, ao contrário, fomos tapeados pelo macaco que sem cessar nos ensinou lições difíceis: olhar sempre para frente, continuar o caminho e jamais esperar a glória. O macaco nos disse: continue escavando os mundos internos, há sempre uma sombra que o martelo e a talhadeira precisam destruir. Uma intuição nos tomou conta e lembramos do prisioneiro: ele ainda está preso, e precisará retornar a caverna para começar tudo de novo; ele precisará renascer, pois não conhece a verdadeira liberdade; ele vê muito o que está fora, mas não encontrou sentido interno ainda. E então, por fim, tiraremos a trave de nossos olhos e diremos: mas e nós, encontramos o nosso sentido interno? Voltemos a escavar… Cada vez mais fundo, mais firme e buscando mais sentido, potência e vida; aprisionados ao macaco. Perceberemos, portanto, que todo dia, todo instante e toda a vida é composta por enganos e autoenganos; tentaremos superar isso, por meio da destruição de sombras e inspiração, mas sempre restará uma prisão nova, algo a ser destruído. Nosso consolo é ter consciência de nossa prisão; portanto, nós é que somos o prisioneiro com sua chave e nisso veremos nossa centelha de liberdade.

Trecho do livro: Das chagas e carniças (a ser publicado).