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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Artigo

Um kamikaze em Brasília: a psitopatía, uma doença das convicções

Convicções devem ser sempre derrubadas e questionadas.

Um kamikaze em Brasília: a psitopatía, uma doença das convicções

Há algum tempo que venho chamando atenção para o conceito de liberdade intelectual (ou falta de liberdade intelectual) e em como ele pode ter uma aplicabilidade interessante na política. A minha reflexão começou na ocasião da elaboração da minha dissertação, intitulada A liberdade intelectual em Schopenhauer, agora publicada como livro (2024). Também já tive a oportunidade de alertar como esse conceito pode ser pensado na política quando compus um artigo para relacionar o referido conceito com o clássico caso Eichmann (2024), exposto pela filósofa alemã, Hannah Arendt.

As minhas ideias estão muito além daquilo que foi exposto por Schopenhauer. O que ele chamou de “liberdade intelectual” é aquilo que nas leis de todas as Constituições se referem às ocorrências de crimes em que o culpado não estava agindo consoante uma vontade sã e que, por isso, ele se torna criminalmente inimputável (embora continue responsável pelas suas ações). O tema não é novo e todo bom advogado criminal o considera como uma ótima alternativa de defesa para aplicar em seus clientes mais perversos e malignos. Aristóteles já tinha exposto de maneira indireta essa ideia, tal como o próprio Schopenhauer mostra e como eu mesmo investiguei nas outras ocasiões mencionadas. Depois de Aristóteles, já vários outros juristas e filósofos deram um pouco de atenção ao tema. O meu intuito neste texto é aplicar a ideia de falta de liberdade intelectual nas reproduções ideológicas e nos movimentos sociais.

Trata-se, portanto, de uma tentativa de alerta sobre como nossa sociedade está doente e cega. “Doente” e “cega”, aqui, não são meras colocações rebuscadas de linguagem, mas uso tais palavras de modo literal. Poder-se-ia dizer, como complemento, doentes e cegas do pensamento. O episódio ocorrido no dia treze de novembro de dois mil e vinte e quatro, em que um bolsonarista vestido de coringa tirou a própria vida, explodindo-se na Praça dos Três Poderes em Brasília, é um bom exemplo de falta de liberdade intelectual, nos moldes que eu proponho. É também, em decorrência desse episódio, que me disponho a tratar novamente sobre esse tema, agora, tentando trazer novas dimensões que justifiquem nossa ampla e crescente cegueira social.

Os sentimentos de cólera e de vingança me serão particularmente interessantes. “O sentimento de cólera é tanto mais incômodo”, diz o grande filósofo Barão de Holbach, “quanto mais se tem dificuldade para impedi-lo de se manifestar; assim, o vingativo é o carrasco de si mesmo, ao mesmo tempo que ele espreita as oportunidades de fazer que os outros experimentem a sua crueldade” (2014, p. 431). A experiência mostra que os radicais da política brasileira parecem demonstrar um forte sentimento de vingança, não raro, contra inimigos imaginários e nascidos da fantasia: é o crescimento da cólera por si mesma que justifica isso. Certamente todo homem que valoriza a política é perturbado por injustiças. Todos que estão em sã consciência entendem mui claramente que é um ato virtuoso criticar a corrupção, as injúrias e as intransigências dos políticos, independente de quem eles sejam. Para se ter a consciência sã, no entanto, é exigido um grau mínimo de pensamento crítico. Por outro lado, quando a consciência malsã é elogiada e publicamente vangloriada, estamos diante de uma população imbecilizada. Uma população imbecilizada significa que há um número consideravelmente preocupante de pessoas em um dado território que não atinge o referido grau mínimo de pensamento crítico. Um homem que explode a si mesmo atesta claramente sua insanidade: ele com certeza não estava livre intelectualmente. “Os homens que morrem pelas próprias mãos”, diz o argelino Albert Camus (2017, p. 24), “seguem até o fim a inclinação do seu sentimento”. Seguir até o fim as inclinações dos próprios sentimentos significa deixar uma grande paixão tomar conta da razão. Devemos nos lembrar que o estopim e o ato motivador do suicida kamikaze de Brasília não foram somente de índole política, mas também religiosa, dado que o tal indivíduo também era cristão.

Não há nenhuma dúvida de que a religião seja o primeiro ponto em favor da ignorância e da desconstrução de uma mente crítica. A religião é o delírio do povo. Desde a tenra infância, se retira das crianças a oportunidade de pensar por conta própria e empurram sobre elas todo tipo de superstição: um homem de carne e osso que pode nascer de uma virgem, andar sobre as águas, transformar água em vinho e ressuscitar; anjos que existem e expiam todas as ações; a existência de uma justiça condenatória esperando para julgar os atos após a morte, etc. Esse, portanto, é o primeiro passo para corromper e criar o terreno fértil para mentiras mais profundas, mais vivas e mais atuais. Que o Brasil seja, ao mesmo tempo um dos países mais religiosos do mundo e que ocupe um dos graus mais baixos no índice de educação, trata-se de uma prova cabal para se refletir sobre a dimensão do problema da falta de pensamento crítico. O brasileiro, sem dúvida, é suscetível a ideias fantasiosas em nome de uma suposta virtude que nunca se vê e nunca se alcança. “Deus é brasileiro”, uma máxima amplamente difundida e significa exatamente o seguinte: “nós brasileiros somos muito aptos a acreditarmos em mentiras”. E você verá por aí as pessoas reproduzindo essa máxima com alegria e com um forte sentimento de empatia. O primeiro passo para retirar o pensamento crítico das pessoas é fazê-las dar risada da própria ignorância.

Este texto, por exemplo, só será lido por uma parcela pequena de pessoas esclarecidas, donde tais ideias possuem um eco positivo. No entanto, tente explicar para a sua tia Clementina ou para o seu tio Carlos que todo o pensamento religioso que lhe foi transmitido durante toda a vida não passa de mera ficção e você terá problemas graves. Será acusado de imoral, intransigente e de ateu depravado. Disse tudo isso apenas para trazer à luz uma obviedade: no Brasil, a ignorância é bem-vista e respeitada, enquanto dizer o óbvio, o real e ter o mínimo de senso crítico é algo condenatório e reprovável.

Uma cólera legítima, refere-se àquilo que Cícero chamou de ódio cívico. Significa que eu tenho o direito, o dever e até mesmo é esperado de mim, que maldiga e condene todos os políticos que roubam; no entanto, este ódio cívico exige crítica. É preciso reservar o benefício da dúvida antes de se condenar alguém publicamente (mesmo que seja apenas em uma roda de amigos). Estando, porém, provado o crime ou a falha de uma pessoa pública, então estamos validados a condená-la. A expressão usada para aqueles que não agem assim é dizermos que “se está passando pano para fulano ou sicrano”. “Passar pano” significa perdoar uma injustiça, no entanto, para se manter fiel ao mínimo de grau de pensamento crítico, é preciso compreender que injustiças não podem nunca ser perdoadas, exceto se o agente que cometeu a ação injusta pague publicamente.

Reunimos então esses dois elementos anteriormente descritos: a mente fantasiosa e a capacidade de perdoar injustiças. É de tanto fantasiar e perdoar que o homem se enche de orgulho; ele se vê como um ser que crê conseguir ver e se relacionar de uma maneira única e especial com o mundo transcendente. Mas, em relação às injustiças cometidas por aqueles que ele ama, prefere esquecê-las e jogá-las para debaixo do tapete. O seu senso de justiça é corrompido e captado por motivações ideológicas. Ele se sente o senhor da lei, acima de tudo e de todos. Ter um Deus acima de si garante que ele exale um pouco de humildade, assim, quando alguém o acusa por alguma pequena falha ou intransigência, ele dá de ombros e aponta para o alto, buscando justificar suas falhas em Deus. Após perder o senso de justiça, perde-se o senso de Deus. Encontra no divino apenas a violência, a maldade e a capacidade de perdão. Ele olha para si e pensa: “posso fazer tudo, pois Deus poderá sempre me perdoar”.

Essas são, portanto, as motivações do homem com um temperamento intelectual comprometido e pronto para agir contra toda a sociedade e contra tudo que lhe surja pelo caminho. Ele troca o bom senso e a confiança na natureza, na sociedade e nas pessoas pela confiança em Deus e na sua capacidade de perdoar. Embebedado por esse sentimento, para ele divino, sente-se assim encorajado para destruir o mundo e moldá-lo em conformidade com os seus desejos mais profundos, obscuros e fantasiosos. Ódio político, brigas e disputas calorosas são indícios de falta de liberdade intelectual.

Na ocasião em que tratei a liberdade intelectual no caso Eichmann eu disse que Eichmann deixava sua própria individualidade em troca de agir como uma engrenagem do regime nazista, disse também que “qualquer outro fanático político poderia fazer o mesmo, ainda que não chegue até as máximas consequências do holocausto” (2024, p. 57). Uma ideologia radical é um impedimento intelectual. A ideologia radical dá sentido para a vida de um indivíduo que não foi devidamente treinado para ter um grau mínimo de pensamento crítico. É nesse sentido que se pode dizer que alguém que age a partir de radicalismos políticos age sem liberdade intelectual. Essa pessoa, evidentemente, deve ser responsabilizada pelas suas ações quando elas causam danos a terceiros, porém, devemos tirar um pouco nosso olhar julgador e também tentarmos vê-las como vítimas.

O que é o brasileiro médio? Um ser que confunde pobreza com humildade; um ser que valoriza a canalhice, a idiotice e as coisas toscas; um ser moralmente rígido e intelectualmente deficiente. A culpa do brasileiro médio ser assim é do próprio brasileiro médio? Por mais que seja sedutor respondermos que sim, a resposta é que não. Séculos de abuso moral, físico e intelectual são os responsáveis por termos uma população tão suscetível a pensamentos canalhas. Você pode até pensar que estou sendo muito ingênuo em considerar um kamikaze como uma vítima da sociedade, mas te convido a refletir um pouco mais. Se quisermos formar um povo que tenha ideias mais modestas e razoáveis, teremos que ser capazes de negociar e entender como doentes aqueles que agem com radicalismo. Suas ações podem e devem ser freadas, julgadas e estancadas, mas trato aqui, mais do seu psicologismo do que de suas ações. O brasileiro médio está desamparado e forjando convicções falsas sobre o mundo. Isso cria seres não livres e capazes de matar ou morrer por suas convicções.

Em certo sentido, isso mostra o quanto a filosofia falhou. Se os ideais de virtude e sabedoria dos gregos tivessem realmente conseguido conquistar espaço no mundo, toda a nossa cultura teria tido uma formação diferente; seríamos mais robustos, mais sofisticados e menos toscos.

Pense bem e calcule tudo o que precisa fazer um homem para chegar até o ponto de se explodir. Ele com certeza desrespeita o próprio corpo, não valoriza sua existência e enxerga a si mesmo como um missionário. Ele é solipsista, pois é ele mesmo que determina o valor e a importância de sua missão: a vingança de todo o mal, o ataque contra todos aqueles que o levaram a ser quem é. No fundo, ele queria apenas ser visto, amado e valorizado: foi a ideologia que parcialmente deu isso a ele. A ideologia reúne os reprimidos e os fortalece para encararem suas crises mais nefastas e difíceis. A ideologia é a nova igreja; o novo antro da ignorância, pois ela não é mais apenas um entre vários domínios e áreas da vida, mas dá a tônica de todas as ações e relações que um indivíduo pode ter; incluso aí, sua própria liberdade de pensar: ele só pode pensar em acordo com os limites estabelecidos pela sua ideologia (dos quais, vale dizer, nem sempre ele tem consciência — a ideia de “pobres de direita”, de Jessé Souza, é um bom exemplo aqui). Um pobre de direita não está com seu pensamento corrompido, mas apenas ignorante em relação à sua classe social. Alguém se mostra com pensamento não livre quando deixa de agir pelo seu próprio bem em prol daquilo que firmou em si mesmo como convicção política. Essa convicção veio de fora, estabeleceu-se nele e ele apenas teve de aceitar por meio de pequenas doses diárias. É como o vício em nicotina, álcool ou jogos. Há, portanto, um vício novo. O vício ideológico. Podemos chamá-lo de doença política ou pistopatía (πιστοπαθία), a doença das convicções[1]. Tal como o álcool pode levar alguém até à sarjeta ou o vício em jogos pode afastar alguém do bom relacionamento com a sua família, a pistopatía também leva até inimizades, ações egoístas, sentimento de repulsão por convicções opostas e sentimento de vingança e guerrilha. Teríamos um ganho se psicólogos, psicanalistas, médicos e farmacêuticos pudessem nos ajudar, mostrando como essa doença funciona em um sentido clínico.

Infelizmente, não consigo ver o futuro com bons olhos nem tampouco creio que as discussões das ciências humanas sejam capazes de frear as animosidades e vícios dos seres humanos. Nós, das ciências humanas, falamos só para nós mesmos e tornamos os conceitos claros e plausíveis apenas para nós mesmos; escrevemos e discutimos apenas em nome do nosso orgulho e vaidade. A cada palavra que falamos, um pistopata estapeou sua esposa, um pistopata matou o seu filho ou explodiu a si mesmo na Praça dos Três Poderes. Será possível, pois, tratar tal fenômeno como doença, como eu aqui proponho? O futuro irá dizer. Enquanto isso, desespero-me em enxergar meus compatriotas se matarem, não por um ódio gratuito, mas por uma clara doença das convicções.

Como anunciar a cobra e depois sair correndo não parece ser uma boa prática, sugiro uma cura. Convicções devem ser sempre derrubadas e questionadas. Por exemplo, a nossa própria garantia de sanidade mental é uma convicção que raramente questionamos. Estamos realmente com a mente sã? É o que devemos nos perguntar eventualmente. Se percebermos que estamos cheios de ódio, inveja, mal-estar, rancor, sentimento de vingança e malogrando o mundo político, então podemos confirmar que não estamos nada bem. Uma pessoa com a mente sã não está preocupada em excesso com a política: ela sabe e tem uma maleável e saudável convicção de que a vida é introspectiva e depende muito mais de si do que dos outros. Que a política pode mudar vidas para melhor, não há a menor dúvida, mas esperar que a vida só poderá melhorar com a interferência da política é outra história. A política é apenas uma dentre as tantas áreas da vida. Quem coloca muitas fichas na política é alguém que cultivou uma falsa esperança. A política é apenas um meio para alcançar a felicidade; tudo que se diz, para além disso, pode, talvez, ser uma opinião exagerada. Quando é que a política se tornou um objeto de ódio e rancor? Se você entendeu tudo que eu aqui disse, responderá comigo: quando ela se tornou uma doença.

Referências bibliográficas

ALVES, Antonio. A liberdade intelectual em Schopenhauer. São Paulo: Editora Dialética, 2024.

ALVES, Antonio. “A liberdade intelectual em Schopenhauer: a perspectiva do caso Eichmann”. Revista Diaphonía, V. 10, nº 1, 2024

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 9ª Ed. Prefácio: Manuel da Costa Pinto. Tradução: Ari Roitman e Paulina Watch. Rio de Janeiro: BestBolso, 2017.

HOLBACH, Barão de. A moral universal ou os deveres do homem fundamentos na sua natureza. Tradução de Regina Schöpke e Mauro Baladi. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano (Livro I). Em: Nietzsche (Coleção Os Pensadores). São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.


[1] Tenho em mente a junção das palavras psitis (πίστις - fé, confiança, convicção) e pathos ou patheia (πάθεια – sofrimento ou doença). Diz com muito acerto Nietzsche: “Não é o combate das opiniões que tornou a história tão violenta, mas o combate das crenças nas opiniões, isto é, das convicções” (§ 630, 1996, p. 97). Isso significa dizer que é a intensidade que as pessoas utilizam suas crenças que as colocam em risco (quanto mais intensa uma crença, mais ela tende a se tornar uma convicção). A minha opinião é que tanto mais fanáticas serão as convicções políticas de alguém quanto menos livre intelectualmente ela for e quanto menos pensamento crítico ela tiver. Todas as convicções limitam a saúde do intelecto em alguma medida, por conseguinte, quanto mais instruídos são os povos, mais moderados se mostram em relação à guerra. Apenas o radicalismo dos realmente injustiçados tem algum valor (com certeza não era esse o caso do Kamikaze de Brasília).

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