Conto
Íria, a repórter
Conto regionalista, histórico e filosófico a respeito da região noroeste do Paraná
I
O conto que se segue tem origem no final da década de 1960, tendo em seu cerne e no início, uma modesta família aqui da erma região do extremo noroeste do Paraná, localizada bem próxima das fronteiras com o Paraguai, onde jamais antes fora retratada em texto nenhum e por ninguém, mas não porque a região não tenha importância ou não mereça ser considerada, mas sim porque antes de mim, nenhum escritor ousou fazer isso. Assim, tenho o mérito do ineditismo e a feliz honra de ser o primeiro a trazer a público tão admirável e complexo paraíso, a que espero que o leitor que aqui nunca esteve possa também se admirar.
II
Havia, pois, naquela referida família, muito dever, simplicidade e alegria. Nós olharemos especialmente para os encantos de uma das filhas, uma belíssima mocinha de dezesseis anos, esforçada o quanto podia nos estudos, versada nas obrigações doméstica e tão responsável pela educação dos irmãos menores quanto sua própria mãe. Somavam-se três irmãos, todos pequenos e bem menores do que nossa personagem principal. Chamava-se Íria. Encantava especialmente pelo seu modo ingênuo e recatado de pureza e modéstia. Seu caráter bondoso se tornava aparente e refletido no brilho da pele macia e morena, nos cabelos escuros e lisinhos e também no seu olhar, que até então, pouco havia visto.
Mas como nem tudo é uma maravilha, acontecia-lhe constantemente de chorar às escondidas devido à arrogância do pai ou porque sua mãe cobrava mais agilidade com os afazeres domésticos e com os cuidados dos irmãos do que ela julgava precisar ter. Por vezes, também se entristecia por não poder visitar suas primas o tanto quanto gostaria, embora elas morassem bem próximas, especificamente, às margens do Rio Paraná, e, justamente por isso, visitá-las não significava apenas ter pares íntimos para conversar assuntos de secretos namoricos e desabafos familiares condizentes com a mesma faixa etária que ambas tinham, mas também importavam os banhos de rio, a contemplação da bela paisagem, as subidas nas árvores para fartarem-se de mangas ou jacas a depender da época, e, principalmente, para ter um tempo só para si, longe dos pequenos irmãos, do trabalho doméstico e do pai.
Naqueles tempos, chegou na região a grande novidade da energia elétrica, que até então, Íria só havia ouvido falar esporadicamente, quando de ano em ano, um de seus tios, irmão mais velho do pai, aparecia para fazer rápidas visitas a negócios. Ele vinha de Maringá, a maior cidade aqui das bandas do noroeste do Estado. O tio sempre tentava convencer a família de que Maringá era um bom destino e que sair daquele fim de mundo era uma escolha sábia. O pai de Íria, por outro lado, nunca deu ouvidos para isso, gostava do lugar e queria morrer ali.
Os fios e postes mais próximos da casa de Íria foram instalados na prefeitura e na praça central da pacata cidade de Altônia, na época, ainda um distrito membrado do município de Xambrê. Após ampliada por toda a cidade, a corrente elétrica foi chegando pouco a pouco até a região de Ouro Verde, onde Íria e a família moravam. Hoje, Ouro Verde é um distritozinho de Altônia. O lugar recebeu esse nome porque naquela época o café era o ouro do povo e porque produzia à beça. A população toda vivia disso e para isso. Costumeiramente, dizia-se que ali o grão do café se aflorava mais valente e mais rápido que em qualquer outro lugar.
Quando Íria completou dezessete anos e os seus estudos regulares na escola estavam completos, sabia pelo modo de comportamento do pai que logo seria questionada sobre casamento e pretensões amorosas. Mas a menina não queria saber disso. Tinha medo da vida matrimonial. Não acreditava no amor e já havia prometido uma centena de vezes, em segredo para si mesma, que caso um dia viesse a se casar, teria apenas um filho, quiçá nenhum.
“Por que filhos em demasia?” Questionava-se sua consciência solitária.
Não que Íria tivesse raiva ou pouco amor pelos irmãos e pela família. Ela apenas sabia que havia um mundo todo a ser explorado antes de se dedicar à responsabilidade de ser mãe. Mas para ela, a maternidade não parecia novidade, já tinha visto seus irmãos engatinharem, darem os primeiros passinhos, falarem as primeiras palavrinhas e até mesmo caírem os primeiros dentinhos de leite. Seu coração se importava muito mais com a vida não vivida do que com a repetição das coisas que já conhecia.
Foi justamente nesse período de inércia entre o fim dos estudos escolares e a tensão de um possível casamento arranjado pelo pai que se abatera na bonançosa região a feliz chegada da energia elétrica. E logo depois disso, abateu-se outra grande novidade que deu muito o que falar: um vizinho próximo, o respeitável Sr. Ricardo Mendes, conhecido de todos, pois era ele o maior produtor de café d’Ouro Verde, comprou uma televisão. Foi notícia em Altônia inteira, deu até no rádio, que até então, Íria só conhecia a pilhas. A estação de rádio que noticiou a boa nova ficava em Xambrê e o sinal se estendia para toda região.
Sobre a novidade, foram essas as palavras do radialista:
— Em Altônia o povo todo agora fala e comenta energicamente que o respeitável senhor Ricardo Mendes, homem rico e de bem, comprou caixa mágica. A televisão agora encanta as tardes da família, amigos e cidadãos. São os novos telespectadores da modernidade!
Íria ouviu o tal comunicado enquanto tentava conter o choro trevoso da irmãzinha mais nova que por motivo banal de criança birrenta a importunava incessantemente. Já o pai se encontrava bem perto do rádio enquanto fumava seu costumeiro cigarrinho de palha. Íria percebeu que o pai ouvirá as palavras do radialista sobre a televisão do Sr. Ricardo Mendes com muita indiferença. Ela achava extremamente injusto e sem sentido que tivesse de ficar o tempo todo com as crianças enquanto o pai não desgrudava os ouvidos do rádio. Para ela, o papel de paternidade do pai era inexistente, no entanto, por medo, jamais contestava qualquer atitude. Respeitava e fazia qualquer coisa que o pai pedisse, sem restrições e sem questionamentos.
É claro que lhe interessou muito as palavras do radialista sobre a nova aquisição material que tinha se assenhorado a família Mendes. Isso ficou ainda mais forte, quando nos dias seguintes, ao visitar suas primas, ouviu de uma delas (aquela que tinha um enrosco amoroso secreto por um dos filhos do Sr. Mendes) que já havia posto os olhos duas vezes na caixa mágica e que, ambas vezes, somadas, davam mais de meia hora! Empolgada, a prima dizia para Íria:
— Prima, prima! Pude ver com meus próprios olhos, ouvir com meus próprios ouvidos, uma música do Elvis Presley! Ele dança como ninguém, é lindo e tem uma voz muito forte! Da outra vez, vi cena de novela, que mostrava uma moça encantada por um rapaz. Foi lindo, prima. o que mais queria é que meu pai comprasse uma dessas também, mas parece ser muito caro!
A cada nova visita que Íria fazia a casa da prima, os relatos se intensificavam.
— Acredite! Acredite! Vi um rapaz beijando a boca de uma mocinha pela televisão!
Não tardou para que o Sr. Miguel de Soares, outro produtor de café também muito reconhecido por aqui, porém já falecido há mais de uma década, comprasse também uma televisão. Sem dúvida, agiu motivado pela inveja do sucesso e murmurinho glorioso que todo povo havia posto na família Mendes.
Com isso, crescia de modo exagerado o anseio e o desejo de Íria de poder pôr seus olhos pela primeira vez em uma televisão. Isso aconteceu no dia em que, acompanhando o pai até Altônia para fazer compras costumeiras no mercadinho, passaram em frente à casa dos Soares. Havia ali uma pequena aglomeração de gente, todos em volta da porta de entrada. Íria pôde ver a luz da televisão por entre os ombros e braços das pessoas. Foi muito rápido. Quis muito pedir para o pai se podiam parar apenas por um instante, mas teve receio e não pediu.
Na sequência, nos próximos dias, vários outros produtores de café e gente do dinheiro começaram a comprar suas tevês. A notícia não dava mais no rádio, pois se tornou corriqueira. Toda gente rica já tinha uma televisão em casa no passar de dois ou três meses. Quando o vizinho da propriedade em que a família de Íria morava comprou a sua, foi que a menina sentiu ter diante de si a melhor chance para enfim poder colocar calmamente os olhos em uma televisão, desde que conseguisse um tempo para ficar longe da labuta do cuidado dos irmãos e dos olhos do pai. Íria conhecia bem os vizinhos. Não eram ricos, mas mais progressistas que seu pai. Soube pela sua mãe que haviam comprado a televisão parcelada em vinte e quatro vezes. “Coisa linda, encaixa na estante, transmite dois canais e as cores preto e branco nunca falham”. No dia que a mãe comentou isso, soube também que até ela já havia assistido tevê:
— Estive ontem por alguns instantes na casa dos vizinhos, assisti com eles uma parte do telejornal. Vi Jânio Quadros em movimento, com meus próprios olhos!
Intimamente, Íria se irritou, pois sabia que no momento em que sua mãe estava assistindo à televisão dos vizinhos, ela estava cuidando do fogão e do almoço do pai e dos irmãos. Não deveria ser essa função, mais de sua mãe do que dela? Sabia que a resposta era positiva, mas guardou para si o seu rancor, tal como era de seu feitio e personalidade de boa moça. Sabia, no íntimo, que sua hora de assistir televisão haveria de chegar. Aliás, a essa altura de nossa história, mal sabia a mãe de Íria, que no futuro sua própria filha acabaria não somente assistindo televisão, mas se enfiando dentro dela.
E não tardou para assistir tevê. Foi logo alguns dias depois, quando acabou sendo surpreendida por uma notícia maravilhosa. Seu pai estava prestes a comprar uma televisão também. Ela teve certeza de que a mãe havia certamente realizado agrados secretos e conjugais que levaram o marido a considerar a aquisição. Para ela, no entanto, pouco importava a motivação que levou até à decisão do pai, importava mesmo que teria também uma televisão, dentro da sua própria casa.
Poucos dias depois da bela notícia, Íria viu o pai chegando com a caixa na mão. Havia comprado em Umuarama, cidade próxima de Xambrê e que na época se desenvolvia muito rapidamente e não fazia nem dez anos que tinha se desmembrado de Cruzeiro do Oeste, tornando-se independente. Instalaram a antena no telhado e o aparelho na sala, perto de onde antes ficava o rádio, que foi imediatamente movido para a cozinha e relegado cada vez mais ao esquecimento da família, pois a partir daquele momento, nunca mais se reuniram entorno dele, mas única e exclusivamente em volta da televisão.
Na primeira vez que o aparelho foi ligado na casa, em uma tarde no começo do ano de 1969, e também, a primeira vez que Íria pôde colocar seus olhos tranquilamente na tela, a TV Globo transmitia com ineditismo ao filme Deus e o diabo na terra do sol, de 1964, dirigido por Glauber Rocha. Íria ainda não era madura intelectualmente para entender as nuances e mensagens críticas que o filme representava. Ficou encantada muito mais pela magia proporcionada pela tecnologia do que pelo conteúdo do filme; mais pela eletricidade, pelo som e pela novidade do que pelas atuações de Geraldo Del Rey e Yoná Magalhães.
Para dizer a verdade, Íria não entendeu absolutamente nada do filme, mas mesmo assim, amou assisti-lo. Por outro lado, o pai entendeu um pouco da mensagem e achou-a demasiada agressiva. Logo percebeu que a televisão poderia representar, além de entretenimento, também uma forma de manobrar politicamente as convicções do povo. Tratava-se de um homem de bem, mas por ser de poucas palavras, guardou para si tudo que havia entendido sobre a televisão, da qual, mal havia começado a pagar (pois havia parcelado também em vinte quatro vezes, tal como o vizinho) e já parecia se arrepender de ter comprado.
Daí em diante, nos próximos dias, o pai chegava em casa e encontrava a criançada toda envolta da televisão. Íria e a sua mãe não falavam mais sobre outra coisa. Todas as pessoas da cidade, agora sabiam tudo sobre tudo. Estavam, literalmente, como se dizia naquele tempo, “antenadas”. Até mesmo os tão desejosos passeios que Íria fazia até a casa de suas primas perdeu um pouco do sentido. Toda hora vaga era sinônimo de hora da tevê.
O que mais gostavam de ver, tanto a mãe quanto Íria, eram as telenovelas. O romance respeitoso, o gracejo e a troca de olhares dos atores. Tudo isso encantava mãe e filha. Ambas evitavam falar sobre o assunto na frente do pai, mas bastava que ele virasse as costas e era sobre isso que conversavam com a máxima empolgação. Era muito triste para ambas, quando o pai chegava justamente na hora da novela da tarde! Tinham de desligar a tevê e fazer de conta que estavam cuidando dos deveres que as tarefas domésticas naturalmente exigem. Mas, depois, sempre se informavam com as vizinhas sobre os acontecimentos que haviam perdido.
O pai de Íria, quando chegava, tomava posse da televisão e sempre preferia assistir à TV Coroados, um canal de Londrina, inaugurado no ano de 1963, e que apresentava jornais e programas esportivos no estilo radiofônico. No julgamento dele, o canal era mais ideologicamente ameno na programação do que as atrações da Rede Globo.
Um dia ocorreu de mãe e filha, enquanto assistiam televisão e estando ambas hipnotizadas pelo romance de um gracioso casal da novela, e, quando bem no derradeiro momento do ápice em que o casal teria enfim a resolução de seu entrave que já se arrastava por dezenas de capítulos, e enfim, aconteceria um beijo romântico, chegou então, sorrateiramente na sala, o pai. Ambas estavam tão submersas mentalmente no aparelho e com corpos imóveis que nem sequer perceberam a chegada do dono da casa, que, irritou-se profundamente, menos pela cena da novela do que pela indiferença na recepção.
— Pouca-vergonha, pouca-vergonha!
Depois do marcante episódio, o pai até mesmo considerou e ameaçou vender a tevê, no entanto, ele mesmo gostava de ver os programas que tanto policiava que sua família não assistisse. Por vezes, assistia filmes sozinho, altas horas da noite, após mandar que a mãe e a filha fossem cuidar de colocar os pequenos na cama. Íria achava isso uma hipocrisia e sua consciência gritava de ódio.
A resolução da inércia de Íria não tardou. Questionou-lhe o pai, no início de 1970:
— Que pensa em fazer da vida daqui para frente? Não seria já a hora de se casar?
A mocinha se arrepiou toda, queria se enterrar em um buraco para não ter que responder. Já somava quase dezoito anos e não queria nenhum pouco saber de matrimônio.
— Penso em seguir com os estudos, papai.
— Se for de seu grado e quiser o destino, apoiarei.
Embora o pai fosse rude em tantos aspectos, o que era para Íria um terror, surpreendeu-se com a resposta. Tais palavras haviam acalmado temporariamente seu coração, ao passo que logo em seguida, começou a pensar em como poderia viabilizar os estudos.
Voltou a se dedicar aos antigos livros escolares, visando assim se preparar para o vestibular que aconteceria na capital Curitiba, ao final daquele mesmo ano. Seu pai lhe prometeu que a levaria pessoalmente, contanto que estudasse com seriedade. Foi o melhor período familiar da vida de Íria. A causa disso foi que por vezes viu o pai tomar o lugar de educador dos filhos menores de que até aquele momento ela sentia que havia excessivamente exercido.
Ela prestou o vestibular para Farmácia e passou.
Com a ajuda do pai, mudou-se com muita dificuldade para Curitiba. Dividia apartamento com outras duas estudantes e nas horas vagas, fazia bicos de babá. Foi dessa forma que pôde viabilizar, ao final de 1970, uma televisão dentro do seu próprio quarto. Foi até então, na sua vida, a máxima das alegrias.
A paixão pelas novelas, que por vezes ela privilegiava negligenciando os estudos, foi crescendo cada vez mais. Por vezes, em frente ao espelho, ensaiava uma fala de suas atrizes favoritas, das quais, ela considerava verdadeiras heroínas. Vestia-se elegantemente, sempre atenta às roupas de suas personagens favoritas, que de fato lhe influenciavam muito.
Passou-se mais um tempo e Íria foi mais longe em seus sonhos. Pensou que pudesse ela mesma estar dentro da tevê. Não como atriz de novela porque no seu íntimo (erroneamente, é verdade), considerava que uma menina do interior não tinha o perfil necessário para tal, mas, por outro lado, achava possível que a profissão de repórter ou âncora de jornal pudesse lhe caber. Não que considerasse que ser repórter fosse menos do que ser atriz, mas sim porque lhe parecia que havia nas atrizes certa urbanidade inerente ao caráter, algo que ela não tinha em si, porém, tinha, sim, a seriedade da responsabilidade de ser mãe dos irmãos e a intimidade desde a tenra infância, com pés de café.
Prestou, despretensiosamente, ao final de 1971, vestibular para Jornalismo e passou. Seu pai se mostrou relutante em aceitar que a moça alterasse os estudos que já iam bem para começar um novo do início, mas ao final, acabou cedendo.
Formou-se assim, depois de três anos, uma repórter. Mulher moderna, independente e orgulhosamente vinda do interior. O melhor de tudo isso era que havia passado sem se preocupar com namoricos e podendo fazer as próprias escolhas. Não tardou, e em vista de todo o seu talento como repórter, arrumou um emprego na Rede Globo. A razão disso, ela sempre justificou pela exceção da sorte.
O seu pai, embora rude e áspero, no fundo de si, orgulhava-se e tinha sua filha como uma joia rara. Sempre que possível ele se inflava para elogiá-la para os amigos e conhecidos de todo Ouro Verde. Inclusive, teve ele o privilégio, de logo após comprar a primeira televisão a cores, em meados de 1975, poder assistir à filha dando uma notícia, dessas repentinas, que aparecem em nossas televisões, ao meio-dia de um dia qualquer. Foi assim: de microfone na mão, olhar sério, roupas elegantes, cabelos longos e lindamente escovados, Íria, para orgulho do pai (mais pelo fato de vê-la na TV do que pelo que ela disse), noticiou:
— Urgente! Hoje, suicidou-se em São Paulo, o comunista Vlado Herzog…
Mas como tudo que se torna hábito constantemente também se torna banal, Íria passou a aparecer tantas vezes na tevê que nem sempre recebia a atenção do pai.
III
O caso mais marcante, não tanto para Íria quanto para mim, foi quando, em uma de suas férias de final de ano que passava aqui na cidade de Altônia, a moça me conheceu em vista da fama que eu ganhei localmente pelos meus livros e também pelas críticas que eu fazia sobre a política local, especialmente nos jornais. Tenho idade para ser avô dela e digo isso desde já, visando prevenir o leitor de pensar que nos apaixonamos, nos casamos ou que vivemos um tipo melodrama. Íria continua até hoje, feliz, solteira e sem nenhum filho.
Na verdade, recebi Íria em minha humilde residência ao final de suas férias, em algumas tardes do mês de janeiro de 1979. Isso foi pouco antes de ela retornar para o Rio de Janeiro, no seu super comentado trabalho na Rede Globo. Toda a cidade aqui de Altônia fala disso com orgulho: “temos uma repórter na tevê, vejam só o que se tornou aquela garotinha d’Ouro Verde, que não é só a terra do café, mas também a terra da grande repórter… Quem diria, ora, veja só!”.
Ocorreu que minha pequena fama local coincidiu de se encontrar com a grande fama nacional dela, e, como ela mesmo me disse ser viciada em trabalho, achou oportuno me conceder uma entrevista, mesmo estando de férias. Segundo ela, seria um material para seu acervo pessoal e que serviria como conteúdo a ser apresentado para à emissora, como portfólio para compor a ideia de um novo programa de reportagens, que certamente ela seria a atração principal.
Por isso mesmo, tenho de dizer também que meu rosto nunca esteve nas telas da Globo. Tudo que sei sobre a repórter Íria são deduções que fiz sobre as conversas que tivemos, obviamente, com a ampliação potencializada de meu entusiasmo e pela psicanálise. Nos últimos tempos andei lendo muito Freud e Lacan. Parece-me mesmo que se pode compreender muito sobre a alma de uma pessoa, de um povo ou de uma região, apenas se reportando às entrelinhas de seus discursos e fazendo observações detidas sobre sua cultura. A Íria é realmente uma menina fantástica e é certamente a filha que eu poderia ter tido. Mas como é do feitio dos intelectuais, nunca tive mulher e nem filhos, quando muito, apenas namoradas que não me aturaram por muito tempo. Tal como Kant nunca saiu de Königsberg, também eu nunca fui muito longe de Altônia.
Como a minha entrevista para a famosa repórter Íria não foi e certamente nunca será transmitida pela Rede Globo, penso que anexá-la a este conto sobre a vida dela, que se entrelaça parcialmente com a minha, seria, pois, muito vantajoso tanto para mim quanto para ela. De tal forma, tenho fé que o público passará não apenas a conhecê-la melhor, da mesma maneira franca e cordial em que eu a conheci quando sentamos algumas vezes na varanda de minha casa, tomando as xícaras de café que eu mesmo nos preparei, como também as pessoas poderão, caso queiram, conhecer melhor a mim. Como podem ver, acima eu já reproduzi uma pequena biografia sobre ela, e, saiba o leitor, ela mesma já leu e a autorizou, embora com um pouco de receio, especialmente pelas partes em que deduzi que seu vício em trabalho atual tenha sido derivado dos cuidados excessivos que tinha que ter com seus irmãos (e outras coisas ainda, que deixo para dedução do leitor), no entanto, imagino que esse tipo de informação possa realmente interessar para as pessoas aqui da cidade que são fãs da repórter e que assistem ao Jornal Nacional, apenas para vê-la entre uma chamada de reportagem e outra.
Sabe-se muito bem que a cidade toda vive a falar sobre Íria. A mulherada comenta sobre a roupa que ela esteve usando no jornal da noite anterior e os homens, nos lares ou nos nossos botecos, sempre que Íria aparece, enchem-se de orgulho, como se a moça fosse capaz de tornar a nossa terra mais especial do que as outras: “Ela é daqui, é daqui!”, dizem entusiasmados para os vendedores e viajantes que se hospedam em nosso único hotel, o Hotel da Dona Maria.
Remeto, pois, este texto, que como pode ver o leitor, chamei de Íria, a repórter, não só aos leitores de Altônia, mas também aos leitores do Brasil inteiro, que conhecem e admiram a tão fabulosa repórter. Mas é claro, não espero que sejam atraídos para o presente texto apenas pela fama dela, mas também para que conheçam melhor a nossa região. Imagino, pois, que a reprodução mnemônica da entrevista que concedi a ela seja suficiente para cumprir esse meu desejo.
IV
A primeira pergunta que ela me fez, foi a seguinte. “Por que um pensador da sua envergadura nunca foi morar em um lugar maior e mais agitado?” Mas eu não a respondi de prontidão. Perguntei, interrompendo a entrevista, sobre como ela podia dizer que eu era um grande pensador, algo que nem eu mesmo considero. Ela respondeu que já havia lido alguns trechos de meus livros em que eu falava sobre o sofrimento do mundo e em como eu critiquei tão duramente a ditadura e que infelizmente minhas opiniões não haviam ecoado para o Brasil todo, mas apenas parcialmente em nossa parca região, especialmente por alguns de meus fiéis leitores. Mas tendo compreendido de onde vinha a admiração dela, e que já tivera antes contato com meus livros, passei a levar a entrevista com mais parcimônia me sentindo até mesmo como se fosse mais importante do que eu realmente sou, especialmente por ela ser famosa, por estar na minha casa e por estar particularmente interessada na minha história.
— Nasci aqui, quando tudo era apenas mato. Meus pais foram pioneiros da região e há muito tempo faleceram. Primeiro foi o meu pai e pouco tempo depois, minha mãe. Não foi nenhuma surpresa para mim. Meu pai sofria dos rins, minha mãe do coração; foi um tempo difícil, mas de muito aprendizado. Sou o mais velho e somos em quatro irmãos no total. Nenhum deles mora aqui e também nenhum deles pensa em voltar. Dois são homens e vivem em São Paulo, a outra é mulher e vive na Europa. Diferente de mim, eles nunca foram afeitos a essa região, menos ainda afeitos por Altônia. Eles sempre quiseram ir embora e na primeira oportunidade foram mesmo. Não houve, como de costume na maioria das famílias, nenhuma guerra por herança. Foi concordância geral de todos meus irmãos que a casa dos meus pais ficaria para mim, já que nenhum deles tinha interesse de voltar cá e porque são financeiramente bem melhores do que eu. Escrevo para os jornais locais desde a minha juventude e vivo dos baixos pagamentos semanais. É uma vida modesta e suficiente para comprar café, livros e comida. Além disso, eu nunca pensei em me mudar daqui porque a nossa região tem algo de especial que ninguém ainda viu ou descreveu. Por mera galhofa, procuro me comparar a Camões, porque não sou o primeiro a chegar aqui, mas o primeiro a escrever uma literatura hegemonicamente local e interiorana paranaense.
— E você parece ter orgulho disso, certo? – Perguntou-me a repórter.
Eu a respondi com as palavras que meus leitores talvez já estejam cansados de ouvir:
— Sim. Eu tenho muito orgulho da minha obra e do que já fiz. Tenho insistido no fato de que as crianças, nas nossas escolas, precisam ser estimulas à criatividade, muito acima de qualquer outra coisa. Sem criatividade, nada novo pode ser desenvolvido. Em se tratando da escrita, no Brasil, tivemos até hoje escritores de muita importância que, tal como eu, encontraram um prazer incalculável e indizível no ato de escrever. Machado de Assis, por exemplo, foi aquele que falou das paisagens cariocas, descrevendo em meio ao psicologismo de suas personagens geniais, um contexto extremamente brasileiro; o mesmo foi feito por Jorge Amado, porém tendo como plano de fundo a Bahia e não o Rio de Janeiro; Wladimir Ayala foi o responsável por tratar do Rio Grande do Sul e Cecília Meireles embora nascida no Rio, chegou a retratar em seus versos a cidade de São Paulo. Enfim, o que eu gostaria de dizer é que cada grande cidade brasileira possui um representante literário de renome, mas é difícil encontrar um representante em uma região tão erma como a minha; o noroeste do Paraná com suas cidadezinhas tranquilas ainda merece ser retratado por meio de considerações poéticas, mas eu não sei escrever poesias, apenas contos e ensaios filosóficos. Costumo brincar, dizendo que os escritores daqui preferiram rasgar suas obras ao invés de publicá-las para não divulgar para o resto do Brasil o paraíso que aqui se encontra. É claro que é uma brincadeira deveras elogiosa, pois há muitas coisas que não temos. Por exemplo, mar! Quão desvantajoso deve ser o espírito criativo de um pensador que não tem perto de si o mar em comparação com aqueles que o tem à beira da vista! Na minha vida, só vi o mar uma única vez, em uma visita que fiz a Guaratuba.
Nesse momento, a pergunta que Íria me fez, conforme minha memória consegue se lembrar, foi a seguinte:
— E o que há de diferente na nossa região?
— Não é uma resposta fácil, dado que a princípio e olhando sem profundidade, qualquer um diria rapidamente que não há nada de diferente aqui. Talvez o que tenhamos de mais especial seja você, nossa repórter, reconhecidíssima no Brasil todo. Mas falando sério e sem galhofa, é um privilégio estarmos tão perto do Paraguai. O rio Paraná, como você sabe, é um dos maiores do Brasil e ele cruza a nossa cidade de Altônia; é uma pena que a gestão pública não saiba aproveitá-lo da forma correta, estimulando o turismo e a visitação. Ao contrário, o que temos aqui, infelizmente, em abundância e excesso, é o tráfico. Vemos jovens entrarem para o tráfico e eles atravessam o rio com cargas de cigarro. Não há aqui futuro de emprego e você pode ver em nossas ruas cada vez mais um aumento da população idosa. Ou os jovens se mudam para Maringá, Londrina e Curitiba ou se enveredam para o tráfico. Há muitos assassinatos para uma cidadezinha tão jovem e pequena e todos eles ocorrem, sem dúvida, em decorrência de agruras do tráfico: aqui, todos nós sabemos disso e conversamos sobre isso, sempre às escuras; e todos sempre sabem quem matou, quem roubou, quem infringiu a lei, mas ninguém, nem mesmo a polícia, ousa questionar qualquer coisa. Nossa moralidade está certamente corrompida e a fundamentação disso é a inércia e a falta do que fazer. O jovem precisa ter algo útil e interessante para se apegar. Sabemos que, hoje, no alvorecer dos anos 80, existe cada vez menos interesse pela leitura, o que será, pois, nos anos 2000?
Não estarei mais aqui para ver isso, mas se o restante do Brasil estiver como Altônia se encontra hoje, eu não teria boas previsões para o futuro do nosso país. Os jovens aqui são despolitizados e eles não sabem que estamos vivendo em uma ditadura. É até compreensível, dado que a ditadura está longe demais daqui. Por um lado, no entanto, isso é muito bom porque estamos protegidos por uma redoma; um reino de paz e calmaria. Há uma complexidade muito forte em tudo isso, acho que você consegue me entender.
— Bem, eu te entendo sim. Parece realmente louvável – ela disse e, em seguida, fez uma outra pergunta:
— Como você acredita ser possível mudar a realidade da nossa cidade?
Eu, então, não medi esforços para respondê-la com todo meu ímpeto regionalista:
— Há um certo incômodo nas minhas especulações, Íria. Esse incômodo diz respeito ao fato de que ao mesmo tempo que quero chamar atenção para nossa região também me coloco em situação de depender da validação dos outros, pois, o que importa afinal que os outros admirem e conheçam esse local? A Terra toda é um lugar interessante e, de um ponto de vista filosófico, Altônia e Paris dividem uma mesma atmosfera, um mesmo ar e uma mesma natureza. Isso responde o motivo pelo qual eu nunca quis ir embora daqui. Muito cedo aprendi que se deve florescer onde se está plantado. As condições ambientais, econômicas, sociais e culturais claramente variam muito de um lugar para o outro, mas se é possível alguém se orgulhar de viver em uma região tão comum como essa, então certamente é possível de se orgulhar de viver em qualquer outro lugar do mundo. Compare-se, por exemplo, São Paulo com Altônia, você verá que as diferenças são meramente proporcionais. Se lá existe pobreza, aqui também existe; se lá existe riqueza, aqui também existe. A importância de um lugar não está, portanto, em seu tamanho, mas no valor que damos a ele e a maneira como o experienciamos. Você mesma me contou, Íria, em nossa última conversa, sobre todas as suas vivências na região do Ouro Verde, no Rio Paraná e nas suas brincadeiras de criança. O que te torna menos especial do que uma criança que viveu em Londres ou em Tóquio? Nada, minha querida, realmente nada. As pessoas daqui não conseguem enxergar isso e vivem escoradas no conforto de uma pacata tranquilidade: elas não querem mais do que já possuem e, sim, isso é um direito delas; eu não tenho nenhuma legitimidade de esperar delas algo diferente e nem quero isso, porque, no fundo, eu mesmo não quero mais nada além do que já possuo e me encontro tão acomodado quanto elas, mas o que me incomoda mesmo é andar por nossas ruas e ver tamanha falta de esperança. Nos dias de fruição estética, onde quero apenas relaxar na presença da natureza, o marasmo altoniense é uma maravilha, mas tenho a plena certeza de que ele faz muito mal para os nossos jovens que aqui nascem e morrem com pouca ou quase nenhuma perspectiva. Como já disse, ou eles vão embora ou se tornam carregadores de cigarro, perdidos na noite e no vazio de nossas ruas, vielas e bairrinhos que crescem sempre a passos muito, muito lentos. São coisas que se condicionam e se alimentam: a falta de esperança e a lentidão do desenvolvimento. Devemos, é claro, ressaltar a nossa pequena indústria e pescaria que desde sempre vai de vento em popa. As reconhecidas histórias de pescador são abundantes aqui. Nós temos gírias locais que ninguém, de nenhum outro lugar do Brasil pode entender. Estamos tão isolados do resto do país que é como se o mundo fosse só isso aqui e nada mais. Não só Altônia é assim, mas também nossas vizinhas Iporã, São Jorge do Patrocínio, Esperança Nova e Pérola. Todas essas cidades são muito parecidas. Elas têm em comum a simplicidade do povo e a estrutura pacata de uma vida cercada pela pesca, pela religião e pela tranquilidade. Para responder a sua pergunta, sobre como mudar a realidade de nossa cidade e dessas outras cidades vizinhas, eu te diria que nada é preciso ser feito além de olharmos mais seriamente para a educação das crianças. Nossa educação é fleumática e insossa; falta-nos estimular nos jovens a força intelectual, o desejo de aprender e a verdadeira seriedade, antes que seja muito tarde.
— Você parece nutrir uma grande falta de perspectiva para o futuro, correto? – ela perguntou, me interrompendo.
— Sim, sem dúvida. A tecnologia aumentará cada vez mais. Não faz muitos anos que tivemos a chegada da energia, do rádio e da televisão. Quais serão as próximas invenções do ser humano e como elas vão impactar a nossa vida? Isso me preocupa. Antes da televisão, as famílias se reuniam entorno do rádio e conversavam, agora ficam hipnotizadas pela tevê. Há um lado muito positivo nisso, porque a informação deve realmente chegar ao maior número de lares possíveis, mas percebo cada vez mais uma diminuição do contato entre as pessoas. Será isso uma tendência para as tecnologias do futuro?
V
O tempo é nosso bem mais precioso, ele vale igual para qualquer terráqueo. Em geral, quase todo o resto é bobagem. A vida, portanto, é aquilo que se faz para conservar e aproveitar o tempo. Há uma tensão estabelecida entre conservar e aproveitar, pois quem muito aproveita, pouco conserva e quem muito conserva, pouco aproveita. É no meio dessa tensão que se encontra a tão aclamada e desejada prudência (talvez seja isso que aprendi durante toda a minha vida, aqui, em nossa Altônia). Mas, prudência não tem a ver diretamente com potência de vida. Em geral, escolher por aproveitar demais, é como pensarmos em alguém que otimizou o seu tempo para gastá-lo caoticamente, mas conquistando o máximo de prazer em menos tempo possível; por outro lado, o conservador do tempo é aquele que prefere ganhar em extensão e profundidade. O filósofo não escolhe nenhum dos lados: faz da sua vida um deleite e a enfeita variando de um lado para o outro, encontrando uma crença nova a cada dia, atuando em um novo papel a cada mês, escolhendo uma máscara diferente para cada situação: ele percebe o novo brotando a cada segundo vindouro; ele dá nó nas consciências; ele possui, enfim, a extrema atenção nos seus próprios atos, não para que sejam somente prudentes, mas para serem aproveitados de modo festivo e especialmente elegante, seja em Paris, ou seja em Altônia.