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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

Uma analise aristotélica do bolsonarismo

Se não houve disciplina, se não houve virtude, e se a ignorância não os isenta de culpa, resta perguntar: o perdão — ou mesmo a anistia — seria um gesto de bondade ou de covardia?

Uma analise aristotélica do bolsonarismo

Neste texto, quero mostrar que Aristóteles pode ajudar a explicar a ação dos bolsonaristas no fatídico 8 de janeiro de 2023, ocasião em que invadiram a Praça dos Três Poderes, em Brasília. O filósofo grego, diz assim: “É irracional dizer que quem lesa o justo não quer ser injusto, ou que não quer ser indisciplinado quem age indisciplinadamente: se é sem ser ignorante que pratica as coisas pelas quais será injusto, só pode ser injusto voluntariamente” (Livro 3, cap. 5, Ética a Nicômaco). Os desdobramentos dos meus argumentos serão a partir da referida frase.

Antes de qualquer coisa, eis uma breve explicação prévia. Quando, na frase, se fala em “ser ignorante”, isso significa não ter consciência dos motivos pelos quais se age. Exemplos menores, são os seguintes: quando alguém confunde uma pessoa com outra ou quando se entra em uma rua errada. Voltarei nisso mais à frente.

Pois bem, cabe relembrar que antes de os bolsonaristas invadirem a Praça dos Três Poderes, eles acamparam em frente aos quartéis (não apenas em Brasília, mas no Brasil todo). O leitor certamente se lembra disso. Tendo em vista esse fato, chamo a atenção para o que Aristóteles diz sobre a disciplina. Disciplina é justamente uma das disposições morais mais importantes para um exército. Todos assimilam a disciplinaridade como uma das características mais probas e notáveis dos militares — acordar cedo, marchar, fazer posição de sentido, ser correto e justo, etc. —, no entanto, os bolsonaristas parecem não ter aprendido qualquer disciplina enquanto acampavam em frente aos quartéis, naquela fatídica aurora de 2023. Os fatos provam isso. O dia 8 de janeiro foi uma desordem total e nenhuma disciplina foi estabelecida no ataque bolsonarista. Digo “ataque”, sem receio, pois uma das maiores utilidades da disciplina é justamente o ataque disciplinado. Imagine um exército em que não seja ordenado no momento da investida contra seus inimigos; ele estaria certamente fadado à derrota, antes mesmo do fim da guerra.

Será, pois, a falta de disciplina o motivo pelo qual os bolsonaristas não tenham efetivado suas intenções golpistas? É uma hipótese que o leitor poderá julgar e refletir. Avancemos.

Há margem para relativização quando pensamos naquilo que Aristóteles diz sobre o justo e o injusto — a repetir o que foi citado: “é irracional dizer que quem lesa o justo não quer ser injusto” —, digo que há margem para relativizar, pois certamente um bolsonarista que esteve presente no 8 de janeiro não considera que agiu injustamente. Ao contrário, ele diria que estava apenas reagindo com justiça e em contrariedade a uma injustiça anterior (sendo esta, o próprio modo de ação do STF, segundo a própria forma dos bolsonaristas de julgar a atuação do STF). Mesmo para Aristóteles, a justiça é uma virtude difícil de ser tratada. O justo, para ele, é o legal, o igual e aquele que age em conformidade com a lei.

Pode-se logo objetar o seguinte: “mas e se a lei for injusta?”. Em geral, quando Aristóteles fala em lei, isso significa “viver de acordo com as virtudes”. Quais virtudes? Resposta: Coragem, moderação, liberalidade, grandiosidade, grandeza de alma, calma, amistosidade, verdade e desenvoltura. Para todas essas virtudes, o filósofo contextualiza um excesso e uma insuficiência em que se deve tentar ao máximo se distanciar. Por exemplo, o excesso de coragem é a ousadia arrogante e a sua insuficiência é a covardia. A ideia aí é que a virtude e a lei que se deve buscar estão sempre no meio de duas (ou mais) disposições viciosas que se deve evitar.

Mas no caso da injustiça, mesmo para Aristóteles, o excesso e insuficiência ocorrem ao mesmo tempo, pois ela é um desequilíbrio onde o benefício indevido alcançado pela pessoa injusta (excesso), só existe porque causa um prejuízo equivalente na pessoa injustiçada (insuficiência) — daí a possibilidade de relativizar e interpretar leis constituídas por um Estado. Diante de tais informações, o leitor poderá relembrar o dia 8 de janeiro e tentar vislumbrar alguma virtude legítima nas ações dos bolsonaristas. Penso que não exista nenhuma.

Mas Aristóteles ainda deixa uma pulga atrás da orelha quando se fala em “ser ignorante”. Não se pode descartar que grande parte dos bolsonaristas desconheciam os motivos pelos quais agiam. Faltava-lhes liberdade intelectual para entender o que estavam fazendo. Isso, no entanto, não significa que eles não devam ser responsabilizados ou não pagarem pelo que fizeram. O ímpeto nacionalista de querer ver o país melhorar (mesmo não se sabendo apontar exatamente como) é legítimo. O bolsonarismo soube captar esse sentimento nacionalista e o transformou em ufanismo. É uma ingenuidade crer que senhorzinhos e senhorinhas que nunca estudaram seriamente na vida conheçam exatamente os motivos políticos pelos quais agem. Diante disso e por meio de uma bondade cristã, reconheço que é possível perdoar (anistiar, talvez?) aqueles que verdadeiramente se arrependeram do que fizeram, dado que, agora, distantes temporalmente dos seus atos, eles podem ser frios em relação à análise de suas próprias ações.

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