Ensaio
Memorial
Memorial apresentado a Universidade Estadual de Londrina (UEL) como parte do processo seletivo para ingresso no doutorado em Filosofia.
Desde criança sempre tive muita afeição pelas aulas de redação e leitura. Enchia-me de alegria quando a professora pedia para que escrevêssemos. Jamais consegui entender o desanimo da maioria dos meus amigos, porque aquilo que eu mais gostava nas atividades escolares, parece que foi sempre o que eles mais detestavam. Até hoje tenho textos guardados da época em que tinha apenas dez anos de idade. Por outro lado, todas as outras disciplinas que não aquelas ligadas à escrita sempre me foram árduas e elas me aborreciam com a força inversa ao amor que eu tinha por escrever. Contarei , a partir de agora, breve e sucintamente, como uma criança apaixonada por livros, desde cedo influenciaa pelos pais a ler gibis e revistas, chegou até aqui, no caminho de querer trilhar o do doutorado em Filosofia.
Até os meus 15 anos os livros eram meros complementos para ajudar na evolução pessoal. Eu lia a Bíblia, e livros de autoajuda, sobre como ser menos tímido, como conversar com as garotas ou então alguns romances juvenis; no entanto, minha paixão sempre foi inventar histórias.
Não sei exatamente em que momento decidi ler Platão. A minha primeira obra filosófica foi aquela sobre a morte de Sócrates, Fédon, jamais esquecerei. Foi como uma paixão à primeira vista – a filosofia tinha algo forte e diferente de tudo que eu já havia lido até então. Sócrates parecia heroico e havia deixado de ser um mero personagem que eu apenas tinha ouvido falar nas aulas do ensino médio, época em que, como a maioria, meus interesses eram muito mais nas frivolidades juvenis do que nos estudos.
Aos 21 anos, quando me tornei pai da minha primeira filha, foi também quando decidi tentar tornar os estudos filosóficos mais sérios e formais. Desde então, eu sempre os havia conduzido por conta própria e sem nenhuma pretensão de carreira. Como as obrigações familiares não permitiam o ingresso em uma universidade presencial, optei pela modalidade EAD, então, simultaneamente cursei História e Filosofia pela UNINTER. Nesse mesmo período também me formei em um curso de psicanálise clínica. No último ano das minhas duas citadas graduações fui aprovado no processo seletivo de filosofia em nível mestrado pela Universidade Estadual de Londrina.
Nada foi mais forte e divisor de águas do que aquilo que ocorreu no meu primeiro ano de graduação do que o contato que tive com a obra de Arthur Schopenhauer. A primeira vez que ouvi o nome da principal obra do filósofo, ou seja, O mundo como vontade e representação, já nisso parecia haver algo totalmente envolvente. Decidi comprá-la, simplesmente pelo nome parecer interessante. Por um mês não conseguia ler outro autor, estudar outro assunto ou pensar em qualquer outra coisa. Arthur Schopenhauer abriu meus olhos para uma forma totalmente distinta de enxergar o mundo. Nenhum texto, nenhum livro, nenhum filósofo me parecia mais interessante, mais potente, mais apaixonante. Mesmo depois de alguns anos, esse sentimento ainda é forte e o mantenho firme.
Esse encontro com O mundo como vontade e representação foi tão intenso, que inclusive, o segundo romance que publiquei, nomeado A sinceridade como causa e efeito, foi escrito no período de dois meses e totalmente feito a partir da compreensão que tive desses primeiros estudos sobre Schopenhauer – uma compreensão bastante imatura e irrefletida é verdade. A obra se trata de uma história de duzentas páginas em que um professor universitário chamado Hugo Sanches quer levar a cabo a extrema sinceridade, adotando como máxima de sua vida, falar a verdade e somente a verdade, não só sobre as coisas do mundo, mas também em relação a si mesmo e sobre suas angústias, é o que chamei de sincericídio.
De certa forma, o meu personagem Hugo Sanches é um autorretrato sobre o que eu esperava me tornar. Sanches era um retrato sobre meu próprio futuro, no entanto, diferente dele, eu ainda não sou um professor universitário. Certamente não poderei conviver aplicando a extrema sinceridade tal como meu personagem: no livro, a advertência reflexiva é que ninguém vive ou consegue viver na conduta da extrema sinceridade. Isso porque a moralidade, de certa forma, exige disfarces e máscaras. Mas mesmo sendo assim, quero seguir no esforço de, neste memorial, ser o máximo honesto e sincero, tal como creio já estar sendo.
Em 2018, tive a honra de entrevistar o famoso filósofo e professor da USP, Luiz Felipe Pondé. Na ocasião ele faria uma palestra na cidade de Cascavel (PR) e eu morava em Palotina (PR). É um episódio interessante para ser considerado porque até hoje muitas pessoas me reconhecem como “aquele que entrevistou o Pondé”. É algo para se orgulhar, não posso mentir. Essa entrevista está no meu canal no YouTube.
Outro fato memorável e que se faz muito importante para entender os meus estudos sobre Schopenhauer, trata-se do grupo de estudos que criei no início de 2020. O grupo teve início e recrutamento de membros a partir do meu site, “arthurschopenhauerbrasil” e também da minha rede social de mesmo nome, onde busquei desde sempre divulgar Schopenhauer e pesquisas sobre o filósofo com responsabilidade, visando o público leigo. Para tal finalidade, sempre prezei em colocar as referências bibliográficas nas citações, e também promover entrevistas com pesquisadores renomados, tais como Jair Barboza, Flamarion Caldeira Ramos, Flávio Ricardo Vassoler, etc.
A ideia do referido grupo era ler sequencialmente O mundo como vontade e representação, um capítulo por semana. Assim foi feito. Todas as semanas, portanto, eu faço a exposição do capítulo e depois fazemos discussões. Atualmente já são mais de 110 encontros realizados e já estamos lendo o segundo tomo. Nos próximos 10 anos, a minha intenção com esse grupo é completar a leitura e exposição de toda a obra de Schopenhauer, incluso as cartas e manuscritos, das quais tenho tomado cada vez mais conhecimento em vista das aulas que tenho feito de língua alemã, com o tradutor de Schopenhauer, Lucas Lazarini.
No grupo sou admirado e visto como um importante expoente nos estudos schopenhauerianos. É verdade que a maioria dos membros não tem nenhuma vinculação acadêmica e são leigos. Mas, por outro lado, essa atividade cumpre uma função importante e que tem a ver com o fato de que sempre acreditei que a filosofia deveria se esforçar para chegar até essas pessoas e buscar ao máximo deixar de ser fechada exclusivamente em círculos acadêmicos. Creio que esse seja um mal da filosofia, e também que talvez a maioria das pessoas letradas concorde com isso.
Por conta dessas dificuldades da filosofia em se tornar mais clara para as pessoas que por ela possuem mera curiosidade ou anseios pragmáticos, eu também sempre tentei escrever textos em jornais. Escrevi vários para a Folha de Palotina e também para o Espaço Aberto da Folha de Londrina. Hoje, tenho uma coluna chamada “As dores do mundo” (uma referência à obra de Schopenhauer), no jornal O Maringá, que leva o mesmo nome que a cidade que hoje resido com minha esposa e duas filhas.
Aqui em Maringá tenho uma tia com doutorado em Biologia. Desde a infância a escutei falando sobre as mais estranhas espécies e bizarrices da natureza. Talvez isso explique outro autor que sempre estudei de modo secundário em relação a Schopenhauer, isto é, os estudos relativos ao naturalista Charles Darwin.
Foi em 2018 que tive contato pela primeira vez com A origem das espécies. Desde o início, percebi haver semelhanças entre a metafísica de Schopenhauer e a teoria da seleção natural. Fiquei feliz quando soube que outros pesquisadores já haviam formalizado essa aproximação, mas, de certo modo, isso sempre permaneceu relativamente adormecido em minhas investigações, artigos, textos e publicações – com a exceção de um deles, escrito e publicado no ano passado, intitulado “Uma hipótese aproximativa entre a generatio aequivoca [geração espontânea] e as Ideias platônicas na metafísica da natureza de Schopenhauer” (Ipseitas, UFSCar, 2021). Esse texto é particularmente importante para entender porque pretendo e mereço entrar no programa de doutorado da Universidade Estadual de Londrina e dar sequência no meu pré-projeto, apresentado com o título “Origem e evolução da vida e da moralidade: uma investigação filosófica entre Arthur Schopenhauer e Charles Darwin”.
No artigo que publiquei na revista Ipseitas, referido acima, busquei aproximar o conceito de generatio aequivoca (muito utilizado por Lamarck e apropriado por Schopenhauer) com as Ideais arquetípicas. A minha intenção foi a de especular sobre a hipótese de se as Ideias (conceito que Schopenhauer pega de empréstimo de Platão), não poderiam ter uma escalada e, entrarem em cena no mundo como representação por meio de geração espontânea, de tal modo, a esta seria como que um degrau na escala evolutiva, sendo temporalmente antecedida pelas Ideias que originariamente são metafísicas e incognoscíveis, e que, nas palavras de Schopenhauer, estão fora do tempo, do espaço e da causalidade, ou seja, fora do princípio de razão.
Quero ter a oportunidade de continuar nessa investigação, não só para tratar a origem da vida, mas também compreender a genealogia da moral, afinal, se a vida é puramente natural e biológica, onde começa a moralidade? Certamente, nas relações de convivência e nas vantagens que nossos ancestrais tiram dessas relações, é o que ensina Darwin através do instinto de solidariedade.
Creio que uma pesquisa assim, que tenda a relacionar de forma excessiva a intersecção entre Darwin e Schopenhauer, seja de extrema importância. O Brasil e a pesquisa schopenhaueriana merecem isso, e é nisso que quero concentrar a minha atenção nos próximos quatro anos, visando entregar à sociedade a minha contribuição e esforço, esgotando essa questão até seu máximo.
Por fim, quero dizer sinceramente que, dar sequência nesse projeto, poderá proporcionar a continuidade dos anseios de um menino que desde sempre amou escrever. Se antes, escrevia sobre minhas férias escolares, sobre os sonhos do futuro e também sobre os filmes que assistia na televisão, hoje, esclarecido na clarividência [Besonnehëit] filosófica de Schopenhauer e na concepção de harmonia natural entre as espécies [sympathy] de Darwin, pretendo escrever e defender uma tese sobre ciência e filosofia, ou seja, filosofia da natureza, tendo a intenção de mostrar que Schopenhauer foi, em muitos aspectos, um antecipador da teoria da seleção natural.