Ensaio
Torcer, rezar e brigar: a política (e os macacos) explicam nosso espírito de grupo
Uma autoridade ganhará maior clareza e respeito em sua comunidade quando ela conseguir erguer sua voz contra um inimigo que seja considerado culpado por causar todas as mazelas do grupo
Conforme a mesma índole do texto anterior, em que refleti a partir de um livro de Frans de Waal, aqui seguirei o mesmo empreendimento, porém, sobre um tema diferente. Agora, o assunto é a política e o quanto isso tem a ver com macacos.
Comecemos, pois, com a citação inspiradora:
É evidente que a força mais poderosa para produzir um sentimento comunitário é a animosidade contra os membros que não pertencem a ela. Ela força a união entre elementos que normalmente estão em desacordo. Isso pode não ser visível no zoológico, mas é em definitivo um fator nos chimpanzés que vivem na selva e demonstram violência letal entre as comunidades (Wrangham e Peterson, 1996). Em nossa própria espécie, nada é mais óbvio que o fato de nos associarmos contra adversário. Na história da evolução humana, a hostilidade contra o grupo externo aumentou a solidariedade no interior do grupo a ponto de fazer surgir a moralidade.
Todas as pessoas participam de alguma comunidade. Até mesmo os ascetas que em sua loucura, no topo solitário de suas montanhas, participam da comunidade dos anacoretas. Em geral, ascetas são apenas pessoas que não conseguem lidar com a hostilidade e com o conflito nas comunidades humanas e então se acovardam por trás das ações ascéticas em nome de uma falsa sabedoria. Esse tipo de gente covarde não convém tratar. Cabe apenas dizer que a ideia de que a associação contra adversários não se aplica a eles, porque ao fazer parte da comunidade dos anacoretas, os ascetas apenas estão se colocando avessos à natureza e avessos a tudo.
Se o panteão dos ascetas pudesse vencer contra a tempestuosidade do mundo moral e político, em 50 anos não haveria mais pessoas. A castidade levaria a espécie humana à extinção, pois ninguém mais teria filhos. Coisa gostosa de imaginar, mas impossível de acontecer. Primeiro porque amamos copular. Segundo porque não estamos interessados em ficar longe dos conflitos.
Há prazer em brigar, ainda mais quando brigamos acompanhados de parceiros que nos ajudam a derrotar os nossos inimigos. O prazer em brigar possui duas partes claramente compreensíveis e positivas, porém, também uma parte negativa. As duas primeiras são as seguintes: 1) o senso de comunidade contra inimigos, conforme apontado; 2) a promessa de vitória e a celebração decorrente dela; por fim, a terceira parte (negativa), é a seguinte: 3) no caso de derrota, não se é derrotado sozinho, por conseguinte, se é abraçado e consolado pela sua comunidade de derrotados.
Unir-se contra adversários, portanto, traz essa interessante assimilação de que caso se vença uma determinada disputa, poder-se-á comemorar junto da comunidade, no entanto, assumindo os riscos da derrota, caso se perca a disputa, poder-se-á dividir o peso da mesma, consolando-se mutuamente. Nem vou entrar no aspecto de que o peso da culpa de uma derrota pode ser, algumas vezes, colocado nas costas de um único membro de uma determinada comunidade, pelo motivo óbvio de talvez ele não ter lutado tão bravamente quanto era esperado dele, etc.
É válido dizer que ao tratar do consolo nos chimpanzés, De Waal não almeja relacioná-lo diretamente com a política como farei aqui. Deixo abaixo a imagem fotografada por De Waal, sobre como chimpanzés consolam aqueles que se frustram após uma luta perdida (p. 61 do referido livro).

O prazer em pertencer a uma determinada comunidade é facilmente visualizado em toda nossa sociedade. Quero dar uma atenção especial a esse fato, começando pelo futebol, que é um dos maiores antros de irracionalidade humana, embora não tão prejudicial como algumas outras comunidades que trataremos na sequência. O futebol reúne torcedores em edículas, bares e arquibancadas visando a celebração da vitória do time em que a comunidade torce; do mesmo modo, para que essa comunidade sofra em conjunto, caso o time venha a ser derrotado.
Há um canto do Fluminense que diz:
Eu canto Nense quando o time vai bem
Eu canto Nense quando o time vai mal
O hino do Flamengo, declara um amor incondicional pelo clube, independente das circunstâncias:
Uma vez Flamengo, sempre Flamengo
Flamengo sempre, ei de ser […].
Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer
Os corintianos declaram o amor pelo seu clube, autodenominando-se “bando de loucos”:
Aqui tem um bando de louco
Louco por ti Corinthians
Aqueles que acham que é pouco
Eu vivo por ti Corinthians
Tudo isso seria bastante estranho se não fossemos uma espécie sociável e que sente prazer em estar em comunidade. Das loucuras que o sentimento de comunidade pode causar, talvez o futebol seja a menor delas (exclusos às radicalidades boçais resultantes de guerras de torcidas organizadas, que quero crer, são casos pontuais e raros, realizados por torcedores mentecaptos).
A coisa vai se estreitando mais e ficando complicada quando pensamos em outras comunidades que se unem contra outras, não apenas para fins recreativos e esportivos, que buscam a finalidade do entretenimento, como é o caso do futebol. Na política e na religião, o sentimento de comunidade ganha contornos mais profundos e com consequências bem mais devastadoras contra o bom senso e o bem-estar social de uma sociedade intelectualmente sã e lúcida.
Comecemos tratando sobre a religião. Não há sentimento de derrota quando estamos tratando de doutrinas religiosas. A igreja Católica não sofre derrotas pontuais, análogas a derrota de um time de futebol em uma final de um campeonato importante. Talvez ela sofra derrotas quando perde fiéis para outras religiões ou para o ateísmo; quando a sociedade percebe que seus dogmas estão ultrapassados, quando o pensamento crítico revoga seus direitos, etc. Mas tudo isso são apenas acontecimentos esparsos e difíceis de mensurar em termos quantitativos e qualitativos.
Na religião, são as vidas dos fiéis que estão em jogo. As derrotas ocorrem no dia a dia de cada fiel e em como eles colocam sua confiança na comunidade para superá-las. Isso ocorre porque o dogma religioso não fornece apenas respostas para uma parcela da vida do indivíduo, mas para toda ela. Basta compararmos novamente com o futebol. Para um torcedor comum, que segue regularmente os jogos de seu time, o ato de torcer apenas lhe retribui como entretenimento e o prazer de pertencer a uma torcida, por outro lado, no religioso que segue regularmente as obrigações dogmáticas e os compromissos religiosos de sua igreja, claramente temos a impressão de que a igreja não lhe serve apenas como entretenimento, mas como imperativo moral e mecanismo educacional, determinando todas suas relações pessoais e a maneira como deve viver sua vida.
Suponhamos um indivíduo que acompanhe regularmente o seu time de futebol e que também siga as obrigações de sua religião. Ele nunca falha em nenhum desses compromissos. Agora, imaginemos que sua esposa morra em um acidente. Ele procurará consolo na sua comunidade religiosa e não na comunidade de torcedores de seu time e essa comunidade irá abraçá-lo e fazê-lo sentir prazer por fazer parte dela (supondo, é claro, que essa comunidade tenha alguma mínima qualidade moral, o que nem sempre é o caso). Não há nenhum paralelo entre a morte de um parente e a derrota de seu time. A primeira situação é muito mais grave e difícil de se superar. Então, não basta tomar uma cerveja no bar e chorar pela não vitória do time na final da Libertadores, mas é preciso muito mais do que isso: velas, missas de sétimo dia, visitas acompanhadas de cafés e bolinhos, abraços, ombrinhos para chorar, aconchego e, quem sabe, até mesmo um novo enrosco amoroso dentro da própria igreja.
Todas essas coisas poderiam acontecer com um torcedor fanático que esteja inserido em um grupo consistente em torno de um clube de futebol, mas não é tão comum como acontece nas religiões, que são, por excelência comunidades que legislam sobre o comportamento moral das pessoas. Trato, portanto, sempre daquilo que é mais universal e não de especificidades.
Além de toda questão institucional, o poder das religiões também é gerado pela quantidade de prazer que ela consegue gerar nos indivíduos que dela fazem parte. O preço a se pagar por fazer parte de uma religião, no entanto, é a aceitação do dogma e o amortecimento do pensamento crítico. O problema é que não se pode questionar o essencial das religiões, do contrário, toda a comunidade religiosa se voltará contra tal questionamento. Refiro-me à clássica questão: “Deus existe?”. Podemos ver os jogadores de futebol atuarem em campo; o técnico, a bola, as regras, mas não podemos ver Deus atuar em lugar nenhum. O bom fiel, sem dúvida levantará sua voz contra tal argumento com uma porção de ideiazinhas que conheço bem. Não darei importância a elas, mas responderei citando Fábio Marton, quando explica o que os crentes fazem quando tentam justificar suas crenças:
Jogam Deus para onde você ‘não está olhando’. Por exemplo, se a ciência hoje explica o universo desde o Big Bang, os crentes colocam Deus como aquele que já existia antes dele. Se a ciência explicar o que havia antes, então darão a outra explicação: dirão que Deus está ‘em outro lugar’. Quem deve provar que alguma coisa existe é quem acredita nela. Caso contrário, podemos dizer que qualquer coisa existe: sacis-pererês, dragões, lobisomens e loiras do banheiro. Ninguém pede a quem diz que não acredita em unicórnio para provar que eles não existam.
Mas essa discussão teológica não é o principal objetivo da presente discussão. Há prazer e vantagem em ser parte de uma determinada religião. Certamente mais prazer e vantagem do que não pertencer a nenhuma. Claramente, ateus não fazem parte de comunidades religiosas ou espirituais. Nunca se viu a marcha dos ateus. Daí a lembrança de um icônico trecho da Dawkins no livro Deus, um delírio:
Organizar ateus já foi comparado a arrebanhar gatos, porque eles tendem a pensar de forma independente e a não se adaptar à autoridade.
O que deve chamar nossa atenção na frase de Dawkins é menos a engenhosa comparação de ateus com gatos e mais a não submissão deles à uma autoridade. Além disso, podemos inverter a frase para compreender mais um importante aspecto do espírito de comunidade: elas sempre estão acompanhadas de autoridades que legislam moralmente a respeito das ações do grupo.
Em um clube de futebol, a autoridade é o presidente, o técnico, os jogadores que se sobressaem em relação aos outros (eles é que vão estabelecer o amor ou o ódio que será transferido para e pela torcida); nas igrejas, sinagogas e templos, cada pequeno chefe, pastores e padres se colocam como a autoridade moral de determinada instituição e guia seus fieis de acordo com aquilo que ele concebe como sendo a melhor escolha e a mais compatibilizada com os dogmas de seus livros sagrados (o que raramente está em acordo, pois as autoridades tendem a ser menos radicais que os livros sagrados, que são, via de regra, cheio de preceitos morais toscos e ultrapassados). Mesmo sociedades com índole secreta como a maçonaria possuem um grão mestre como líder em cada uma de suas comarcas e são eles que estabelecem o espírito de comunidade. Nas salas de aula, também não é muito diferente, pois os professores se fazem como aqueles que exercem poder sobre os alunos.
O que importa é pensar que o poder da autoridade é distribuído de modo desigual. Nem sempre ocupar um cargo máximo em um determinado ambiente dá a tal ocupante os mesmos poderes de decisão do que outros membros que não possuem o mesmo posto. Há aqueles que são influentes, mas conseguem, em termos de decisões de grupo, manter um alto grau de dissimulação. Um exemplo didático sobre isso é pensarmos no rei e na rainha e supormos que embora seja o rei que leve o mérito de sentar no trono e governar, não podemos ter certeza de que quem sussurra no seu ouvido as decisões que deve tomar não seja a própria rainha ou ainda, os outros membros do conselho (príncipes e princesas, anciões e ministros ou até mesmo, quem sabe, a amante do rei).
Essa lógica se aplica em toda nossa sociedade e determinada o sentimento de comunidade. É do modo multifacetado de poderes e influências que surge o sentimento de união contra um inimigo comum. Uma religião contra todas as outras, bem como, contra toda a sociedade materialista e hedonista; um clube de futebol contra todos os outros, etc. Portanto, uma autoridade ganhará maior clareza e respeito em sua comunidade quando ela conseguir erguer sua voz contra um inimigo que seja considerado culpado por causar todas as mazelas do grupo.
Adoramos ter quem culpar pelas faltas que são nossas, especialmente para que possamos isentar nosso próprio espírito da responsabilidade de sermos fracos ou desfavorecidos. Não quero aqui, por óbvio, defender a meritocracia ou desconsiderar que não exista influência externa ou política em nossas vidas. No entanto, o que está em jogo é como a maioria das pessoas lidam com aquilo que considera prejudicial a si e em como o estabelecimento dessa consideração a partir da criação de uma convicção pessoal passa pelas crenças estabelecidas pelas comunidades em que um indivíduo participa.
Um indivíduo raramente chega à concluir sozinho quem são seus inimigos espirituais ou políticos. Crie seus filhos no meio do mato e nunca diga para eles sobre as religiões ou sobre a política e ele nunca se colocará contra nenhum Bolsonaro, nenhum Lula, nenhum Jeová, nenhum demônio. Mas basta que uma comunidade passe por alguns percalços para que suas autoridades comecem a procurar os culpados. Não apenas para justificar os percalços, mas para angariar autoridade diante do grupo.
Em geral, nunca se verá políticos dizendo aos seus grupos: “precisamos melhorar nosso sistema de crenças, precisamos ajustar as nossas decisões futuras”; por outro lado, o que costumeiramente eles transmitem é o seguinte: “precisamos combater nossos inimigos porque assim e somente assim conseguiremos alcançar nossos objetivos; são nossos inimigos que nos impedem de alcançar o tesouro que sabemos estar lá na frente”. Não há tesouros, não há promessas, não há mundo fácil e nem mundo espiritual. O que há é uma vida factualmente material, difícil e cruel.
É claro que podemos encontrar vantagens em nos unirmos na comunidade, dado que a união de fato faz a força, além de que, juntos podemos nos tornar cada vez mais solidários e altruístas e existe nisso um louvável valor para vivermos melhor. Por outro lado, esperar que encontrarmos inimigos ou nos unificarmos contra eles em prol dos discursos de uma autoridade política ou religiosa nos dará alguma vantagem é ingenuidade. Isso de forma alguma nos fará melhores ou nos levará a uma vida melhor. Ao contrário disso, apenas nos radicalizará inutilmente e nos desgastará.
Que nossos inimigos, portanto, sejam concebidos de modo natural, tal como o gato sabe que não pode baixar a guarda diante de cães; zebras diante de leões; moscas diante de sapos, etc. Por isso, antes de se estabelecer os próprios inimigos, é preciso conhecer quem se é, qual a tua própria natureza e ter clareza quanto às coisas em que se acredita e que se defende. Se tudo isso for formado e concebido sem que se tenha a influência de comunidades, melhor será para a formação de uma vida mais estilosa e menos subserviente. Além disso, se a natureza dos macacos é social, seus inimigos naturais são os egoístas. Por meio disso, talvez já seja possível prever quais devem ser nossos inimigos legítimos.