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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

O mundo dos poderes

Quanto mais íntimos nos tornamos do poder, menos o respeitamos.

O mundo dos poderes

Se perguntarmos as crianças o significado da palavra “poder”, a resposta será cheia de colocações que nos levem a entender que poder é alguma espécie de energia sobrenatural cósmica. Não exatamente como raios, trovões e ventanias, mas sim como algo que não podemos explicar cientificamente, vide exemplos: poder de regeneração, poder de voarmos mesmos sem sermos alados, de atravessarmos paredes como no filme “Ghost”, de conversar com os mortos, de teletransportarmos a locais distantes, etc. 

Em Antropologia da Política, entendemos a palavra poder, que tem origem no latim, “possum”, e significa “ser capaz de” como sendo, “a capacidade de influenciar alguém a fazer algo que de outro modo não faria”. Essa reflexão, ao menos no aspecto sociológico, segue por caminhos bastante espinhosos e complexos, o que tende a afastar a maior parte das pessoas a pensa-las mais a fundo. Portanto, a maioria contenta-se apenas com o debate da “política do dia” e, visto que todos os dias a política cria assuntos polêmicos, o qual em si mesmos já possuem méritos (ou deméritos) para serem debatidos com ardor, os temas mais filosóficos e críticos acabam ficando no segundo plano, porém não o são menos importantes. 

Segue-se que, mesmo involuntariamente (ou inconscientemente), estamos sempre a pensar e estabelecer um juízo sobre as seguintes coisas: “até onde pode ir o meu poder?”, “até onde o poder do Estado pode ir em relação a mim e em relação as outras pessoas?”, “quem podemos influenciar com nosso poder e quem aceitamos e não aceitamos que nos influenciem com seus poderes?” etc.  

Tudo isso está atrelado a uma representação simbólica e ideológica. Em outras palavras, cada um tende a se aproximar daquilo que melhor representa seus interesses — é o que acontece por exemplo, nos períodos de eleição. Diferentes grupos, formam diferentes tipos de poder e consequentemente esses poderes possuem níveis e formas de se manifestar, chocando-se uns com os outros e delimitando-se entre si. Ou seja, onde termina o poder de um, começa o poder do outro. Um exemplo bastante simples, é pensarmos nas formas de poder que constituem uma democracia, o Poder Executivo, Legislativo e Judiciário, sendo que analogamente a eles, encaixa-se perfeitamente a relação de âmbito privado familiar, onde uma pessoa possui um certo nível de poder sobre as ações de seu cônjuge, um outro tipo de poder sobre as ações de seus filhos e ainda um outro sobre seus próprios pais ou parentes distantes. E claro, o mesmo acontece em relação a todos esses entes, pois eles também exercem diferentes tipos de poder sobre as ações de tal pessoa. De modo geral, todas as relações de poder estão em diferentes níveis e manifestações em todas as relações sociais.

Nicolau Maquiavel (1469 – 1527), em sua obra magna “O Príncipe”, chegou a conclusão de que o governante deve de proteger o seu poder a qualquer custo, dando vida a concepção que seus inimigos lhe pregaram, a de que “os fins justificam os meios”, criando assim, uma espécie de hegemonia da violência, onde a força poderia ser utilizada sempre que o poder do Príncipe (ou chefe de Estado), fosse ameaçado.

Outro teórico político, Thomas Hobbes (1588 – 1679), em sua magna, “O Leviatã”, justificou o surgimento do Estado, como um pacto que os homens fizeram entre si abrindo mão da liberdade em troca da segurança. Desse modo, entende-se que, o homem do paleolítico que vivia sem Estado não tinha nenhuma proteção, porém, era livre para ir onde quisesse e tomar posse do que bem desejasse, sendo assim, os poderes naturais se chocariam, tornando-se “o homem, o lobo do homem (homo, homini lupos)” numa guerra de todos contra todos. Então, estando o homem sujeito a todos os malgrados que a natureza pudesse lhes pregar, como por exemplo, correr risco de ataques de animais selvagens ou de passar fome pela dificuldade consequente da vida nômade, convencionou-se a criação de uma organização o qual hoje entendemos hoje por Estado — tendo ele a função de proteger o homem de si mesmo (pela criação das leis) e das mazelas da natureza (pela união da força), ou seja, Deus soberano no céu, e o Rei soberano na terra. 

Seria interessantíssimo pensarmos o que Hobbes e Maquiavel responderiam a qualquer bom filósofo libertário dos dias de hoje, quando este os questionasse a respeito dos altos impostos que somos obrigados a pagar, e, em troca recebemos coisas que não pedimos ou que não precisamos… Isso quando recebemos alguma coisa!

É evidente que toda teoria de pensamentos possui fragilidades e incongruências. Ninguém resolveu completamente os problemas do mundo, e é certo que ninguém conseguirá resolve-los. No fundo, essencialmente falando, os livros dos filosofo são apenas palavras, e essas palavras só “ganham poder” quando começam a refletir interesses de diversos grupos sociais, demonstrando e denunciando as suas reais necessidades e apontando as soluções para então alcança-las, suprindo assim o sofrimento (presente em todas as épocas, desde que o mundo é mundo).

Em tudo há relações de poder, e ao que parece, isso tende ao caos, porque como é sabido, um poder choca-se com o outro e no final ninguém é feliz o bastante com o que tem, sendo que todos acabam sofrendo com a sua falta de capacidade de influenciar os outros, mesmo que trate-se de alguém que já possua muito poder de influência. Por isso é correto dizermos que apesar de todos morrermos, “sempre gostaríamos de poder ter vivido mais”. E com isso, a satisfação com o que temos, que sim — muitas vezes é pouco e miserável — fica sempre na insatisfação, na distancia, na estranheza, na idealidade… 

Se todos exercem algum tipo de poder, mesmo que seja pouco, como podemos ser felizes e satisfeitos com o poder que temos? A resposta que a maioria dá para isso é que, a satisfação só poderá ser alcançada no mundo do pós-morte… onde tudo é divino, igual e bem distribuído… mesmo sempre aceitando a ideia de que gostariam de poder viver mais!

Sobre essas convicções é certo dizer que nesse mundo dos poderes o homem continua sendo o lobo do homem, e de certa forma, desejando isso. Podemos visualizar esse fenômeno ao deparamo-nos com a polarização e a falta de dialogo que existe entre os poderes, principalmente ao tratar-se da direita e da esquerda. 

Olhar a realidade e as nossas próprias potências com sinceridade para buscarmos um ideal satisfatório, entendendo que o poder é bom sim, mas que deve ser exercido com mediunidade e nunca com extremidade, é a nossa função, e não função do choque exercido pelo poder do outro (que sempre nos afeta de algum modo). Por isso, quem mantem-se fiel ao equilíbrio que exerce sobre os outros, tende a viver melhor e sofrer menos, pois a história mostra que quanto mais íntimos nos tornamos do poder, menos o respeitamos! Encontremos então em relação ao poder, uma distância ideal e agradável… não tão longe que não possamos vê-lo e nem tão perto que não possamos contempla-lo.

Originalmente publicado no jornal Folha de Palotina.

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