Ensaio
Homens gays no sacerdócio
A Igreja que hoje tenta ser branda e amena com os gays é a mesma que os perseguiu por sodomia durante a Inquisição.
Recentemente, no Vaticano, o Papa Francisco anunciou uma nova diretriz permitindo a admissão de homens gays em seminários de formação para o sacerdócio, com a condição de que vivam em celibato.
Qualquer pessoa que pare por um momento e reflita profundamente nessa questão perceberá sua dificuldade. Respondamos, em primeiro lugar, por que os padres em geral (gays ou não) precisam manter o celibato em sua vida. 1) A resposta da Igreja, em resumo, é para que a dedicação de um padre seja voltada exclusivamente para Deus, evitando-se assim, as ilusões e as materialidades superficiais do mundo; 2) A resposta de ateus famosos como Holbach ou Richard Dawkins, é que a Igreja – enquanto instituição reguladora da liberdade de pensar e questionar – impôs tal medida em seus associados, nesse caso, os padres, para que, impedindo-os de ter mulher e filhos, não precisasse se responsabilizar financeiramente com pensões para a família em caso de morte do padre, e também para que os possíveis bens deixados pelo padre fossem herdados pela Igreja e não por mulher e filhos.
É claro que essas respostas estão incompletas e pouco desenvolvidas. Conto com a boa fé do leitor para entender que aqui não tenho muito espaço para me estender demais. Voltemos ao cerne da questão, agora tendo em vista a consideração da pergunta que fiz e das duas respostas que dei.
Se a Igreja (resposta 1) estiver certa, então, seria possível aumentar ainda mais o leque de possibilidades de alguém que queira se tornar padre, desde que esse alguém se mantivesse celibatário. De tal forma, mulheres poderiam exercer o papel de padre. Mas não existe sequer uma palavra para isso. Elas seriam “padras”. O motivo pelo qual as mulheres nunca puderam exercer esse cargo tão respeitável deixo para o leitor descobrir ou refletir (prefiro me escusar de mais uma polêmica e não estou tão interessado assim em querelas teológicas). O meu ponto, na verdade, é o seguinte: não há absolutamente nada que torne uma mulher diferente de um homem ao ponto de ser incapaz de fazer o mesmo que um padre faz.
Agora, se os ateus (resposta 2) estiverem certos, não haveria porque a Igreja não permitir que homens gays praticassem o celibatário, dado que não podem, por meios naturais e desconsiderando a adoção, constituir família. A Igreja não precisaria pagar nenhuma pensão para filhos em caso de falecimento do padre gay. Que uma resolução assim levaria os fiéis ao máximo alvoroço e agitação ninguém dúvida, no entanto, parece de fato uma resposta lógica e em conformidade com o pensamento dos ateus.
Como não há nenhuma perspectiva de que surjam “padras” ou que padres gays não precisem praticar o celibato, tentemos, a partir daqui, dar uma olhadela na realidade dos fatos e na posição mais moderada.
A veracidade dos fatos mostra que o Papa Francisco, que ocupa o pontificado desde 2013, tem, felizmente, uma posição mais liberal em relação à complexidade incontornável do mundo. Não foi à toa que a Igreja o escolheu para o cargo. Ele sempre foi mais acolhedor em relação à comunidade LGBT, pautas de justiça social e ambiental, postura inclusiva e diálogos inter-religiosos. Vejo tal fato com bons olhos, mas sem perder de vista o senso crítico, pois a Igreja que hoje tenta ser branda e amena com os gays é mesma que os perseguiu por sodomia durante a Inquisição. Por mais que conservadores radicais se opunham a tais medidas e sejam críticos do Papa Francisco, a realidade dos fatos mostra que a diversidade democrática do mundo se impôs sobre os excessos e perversões dos séculos passados. Não houve escolha. Ou a Igreja se adaptava ou teria de enfrentar ainda mais críticas.
A recente diretriz que permite homens gays no sacerdócio desde que se mantenham celibatários é apenas um pequeno avanço para adaptar a Igreja à nova realidade de um mundo liberal no ponto de vista moral; os democratas e defensores da liberdade de escolha, tais como eu, podem comemorar. Mas ainda há muito para se avançar, pois as pessoas querem ser livres para mostrar o que são sem que ninguém as interfira ou impeça. A liberdade de ir e vir ou de escolher do que ou de quem se irá gostar são apenas direitos mínimos, dos quais devemos garantir e nos opor àqueles que tentem refreá-los. Não há motivo lógico e racional para impedir mulheres de serem “padras” nem tampouco de gays serem padres. Para ser otimista, creio que o avanço dos tempos e dos séculos obrigarão a Igreja a abrir ainda mais o leque de suas permissividades, afinal de contas, o próprio Jesus nunca negou ninguém… repito, ninguém. Era Jesus um liberal? A reflexão sobre essa questão fica para uma próxima oportunidade.