Ensaio
As democracias estão se tornando tiranias?
Do excesso de liberdades individuais surgem lutas de uns contra outros, fazendo emergir das lutas um protetor, o tirano.
Para Platão os governantes tiranos são aqueles que se deixavam governar por desejos furiosos, perturbações e remorsos. No seu clássico livro A República, que tem Sócrates como interlocutor, discute-se que a democracia tem uma tendência natural a se inclinar para tirania. Argumenta-se que a democracia é o regime político em que a liberdade se torna radical, fazendo os cidadãos se preocuparem exclusivamente com o bem individual e se esquecerem da vida pública. A ambição pela liberdade democrática causa a negligência pelo restante das coisas. É isso que abre caminho para que uma tirania se instaure (Livro VIII, 562c; 564a). Do excesso de liberdades individuais surgem lutas de uns contra outros, fazendo emergir das lutas um protetor, o tirano (VIII, 565c).
O tirano não é necessariamente um protetor das liberdades individuais, mas sim protetor de suas próprias vontades (nos termos corretos, ele é um escravo dos seus desejos), ao passo que de início muitos concordam com seus interesses, mas conforme eles vão mudando ao longo do tempo, não acompanham as necessidades do povo, levando a sociedade ao caos. Em grego, o idioma em que Platão escreveu, a própria palavra “demo”, que deriva “democracia”, significa “povo”. Grosso modo, é assim que a democracia se torna tirania.
Outro dado importante é que para Platão, os indivíduos de uma determinada cidade tendem a ser semelhantes ao seu modo de administração governamental e também ao seu governante. Não exatamente em relação aos seus desejos administrativos, mas nos costumes e no modo de se portar (VIII, 577c). É assim que se pode dizer que um governante tirano governará um povo de espírito tirânico (ou seja, que são mais individualmente afeitos pelos seus desejos pessoais do que pelo ímpeto público de tornar a cidade melhor a partir de ajuda mútua); consequentemente, um povo governado por um rei virtuoso refletiria as virtudes desse rei no dia a dia da cidade.
A pergunta feita no título — as democracias estão se tornando tiranias? — não é simples de responder, até porque há outras concepções de tirania e de democracia além das de Platão e, a depender do entendimento que se tem dos conceitos, diferentes serão as conclusões. Mas para respeitar as reflexões de Platão e tentando uma resposta sucinta, podemos conceber que o mundo contemporâneo, hegemonicamente governado por democracias, parece já ter cumprido alguns dos passos necessários para a instauração de tiranias: 1) a liberdade individual não necessariamente sentida em sentido moral ou econômico, mas vivenciada a partir de um hiperindividualismo. Em outros termos: ninguém está muito preocupado com o bem estar geral, mas cuidando da própria vida acima de tudo; 2) a fragmentação e o conflito (ou as lutas, conforme mencionado por Platão), são observadas diariamente em diversos países: o povo parece nunca estar satisfeito nem feliz, seja com a política interna ou externa; 3) emergem em diversos países — a exemplo de Venezuela, Estados Unidos ou mesmo o próprio Brasil —, protetores fortes com a promessa de salvar os interesses gerais, mas que, cada vez mais se mostram interessados em administrar apenas os seus desejos pessoais ou exclusivamente os interesses do próprio partido; em uma democracia, raramente se governa para todos.
É claro que esse breve diagnóstico possui suas fragilidades. Não é tão simples assim analisar as democracias contemporâneas, mas cumpre notar que para Platão, vale repetir, a tirania emerge não da monarquia, mas sim da democracia. Isso serve no mínimo como sinal de alerta, especialmente porque cada vez mais o cenário global se mostra mais incerto e de difícil compreensão. Observa-se, nos dias atuais, jornalistas e professores de geopolítica com certa dificuldade em explicar as novas organizações mundiais. Talvez, em um futuro não tão distante, estaremos discutindo sobre tiranias e não sobre democracias. China, Rússia — e cada vez mais os Estados Unidos, exemplo maior de liberdade individual, ao menos em teoria — se mostram com tendências tirânicas.