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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

Por que as apostas fazem tanto sucesso no Brasil?

A miséria é o brownfield dos canalhas.

Por que as apostas fazem tanto sucesso no Brasil?

Nossa hipótese: trata-se de mais um produto do caldeirão brasileiro de irreflexão, superstição e esperança. Antes de desenvolver, ouçamos a palavra de Machado de Assis, conforme publicado em 19 de agosto de 1894: “Têm havido grandes cercos e entradas da polícia em casas de jôgo. Sistemàticamente, a autoridade procura dispensar os religionários da Fortuna e trancar os antros da perdição. Esta frase não é nova, mas o vício também é velho, e não se põe remendo novo em pano velho, diz a Escritura. Já se jogava no tempo da Escritura; lançaram-se dados sôbre a túnica de Jesus Cristo”.

Machado ainda comparou os entreveros do poder público com os apostadores cariocas e madrilenses. Enquanto cá os jogadores fugiram às pressas ou se dirigiram aos policiais com mesuras, os fidalgos do velho mundo responderam aos agentes da ordem com balaços e pancadaria.

Mas voltemos à hipótese. A partir de uma convicção íntima, sem qualquer exame detido acerca das probabilidades de resultado, cálculo ou interpretação tendencial, imensa parcela de brasileiros está disposta a arriscar dinheiro, saúde mental e até mesmo a subsistência familiar diante de uma anunciada possibilidade de conquistar alguma boa sorte, que pode ser a mudança de vida ou um cascalho a mais, tanto faz.

Fiando-se nas informações veiculadas sobre a quantidade espantosa de valores aplicados em apostas que decorrem do programa nacional de assistência social, o bolsa família —que 3 bilhões do valor distribuído pelo programa é gasto em bets esportivas — a resposta do porquê as apostas fazem tanto sucesso no Brasil parece evidente. Pois quem, em situação de miserabilidade, não depositaria alguma esperança na possibilidade de contornar o grande fator de sua angústia e sofrimento? Com a narrativa pronta e bem ambientada, calculada e financiada pelos meios de comunicação, a mensagem aterrissa suavemente: apostar é ser feliz, apostar é mudar de vida, apostar é ficar rico. A miséria é o brownfield dos canalhas.

Um Brasil econômica e espiritualmente vulnerável, é, portanto, um terreno fértil para inculcar e vender caro falsas esperanças. É com ampla razão que o filósofo iluminista Barão de Holbach diz, em A Moral Universal, sobre as apostas: “alguns homens, querendo inicialmente matar o tempo ou se divertir, terminam algumas vezes por se degolar” e que “o jogo jamais deveria chegar a ponto de afligir aquele que a sorte não favoreceu”.

Diferente do que o poder público fez no século XIX, os agentes da ordem brasileira estão a moralizar a superstição apostadora sem medir esforços, empurrando e empilhando pdfs, com a logomaquia ensimesmada da rabulagem de alto escalão, para solenemente publicar e intimar a quem de direito que está terminantemente proibido chover às quartas-feiras. Ações públicas que vão acompanhar solenemente o reconhecimento da situação desumana do sistema penitenciário, da calamidade das pessoas em situação de rua, da proibição do nepotismo, e grande elenco, rumo ao palácio do oblívio. Enquanto bradam os otimistas que ao menos dessa vez foi sem violência policial.

Ocorre que não só de bacharelismo e superstição vivemos os brasileiros. Segue firme o nosso bom e velho futebol, inundado de patrocínio de casas de apostas. Desde os principais campeonatos até as escolas de samba siamesas das torcidas organizadas, todos pactuados com a jogatina. Time grande é time patrocinado por casas de apostas, ao que o otimista poderia se opor, dizendo que poderia ser pior. Que antes casas de apostas do que casas de prostituição. E como de costume o otimista estaria equivocado. Mas tergiversamos e pedimos desculpas. É que determinada tradição nos empurra a uma disposição digressiva e pessimista, assim como a do bruxo. Do cosme velho, não o gaúcho.

Originalmente publicado pela Folha de Londrina, autoria conjunta com Álvaro Merlos Akinaga.

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