Ensaio
Genética da mediunidade: a pesquisa científica que furou a bolha acadêmica
Tome essa pílula e reveja seu parente morto!
Dificilmente um artigo científico consegue quebrar a barreira acadêmica e alcançar tantas pessoas, tal como a pesquisa publicada na semana passada pela Revista Brasileira de Psiquiatria (USP) a respeito de genes e mediunidade. Li a pesquisa e vim aqui tratar um pouco sobre ele. Farei isso de modo numerário e sugerindo, ao final, uma breve conclusão ampla.
Pois bem, a pesquisa é conduzida da seguinte maneira:
1) Há a identificação de uma preocupação científica em tentar explicar casos de visões espectrais e também de pessoas que relatam ouvir vozes de pessoas que já morreram. Normalmente esses casos são tratados — de modo preconceituoso ou mesmo teórico e científico — como doenças mentais. Porém, conforme a pesquisa divulgada, “notavelmente, muitos indivíduos capazes de experiências mediúnicas demonstram níveis de saúde equivalentes ou mesmo superiores aos que não têm essas experiências”.
2) Trata-se, segundo os autores, do primeiro estudo sobre “genética da mediunidade”. Para sua realização, a pesquisa selecionou, entre 2020 e 2021, “indivíduos identificados pelas suas comunidades espirituais como altamente dotados [em perceber] uma personalidade falecida”. O critério de seleção presumia que o indivíduo tivesse mais de 10 anos de experiências mediúnicas, que a praticasse mais de uma vez por semana, que fosse reconhecido pela sua comunidade, que fosse engajado nessa prática de modo voluntário, isto é, sem receber nenhum benefício financeiro ou material e, enfim, que tivesse um histórico consistente de atuação na obtenção de informações supostamente adquiridas por meios sobrenaturais.
3) Foram coletadas amostras de saliva de todos os médiuns selecionados. Na coleta, 33 genes foram os principais estudados, e, dentre eles, um gene chamado MUC19, encontrado especialmente na glândula pineal, se sobressaiu nos médiuns em comparação às pessoas sem poderes mediúnicos.
Observação antes de prosseguirmos: ao leitor que ficou com uma pulga atrás da orelha, sim, a glândula pineal é aquela mesma glândula polêmica entre os entusiastas da metafísica pragmática e também àquela que o filósofo René Descartes acreditou ser a sede da alma.
4) O estudo sugere que as mutações genéticas encontradas nos médiuns não estão especificamente ligadas a transtornos mentais ou físicos. Em vez disso, eles podem estar associados à saúde geral e ao bem-estar espiritual, indicando uma interação complexa entre genética, saúde e espiritualidade. Conforme dizem os pesquisadores: “levanta-se a hipótese intrigante de que os indivíduos que abrigam essas mutações podem possuir uma predisposição biológica inerente que influencia o processamento de informações do mundo externo de uma maneira distinta daquelas que faltam tais variações genéticas. Análogo a certos animais que exibem capacidade de sentido, além das capacidades humanas”.
É claro que quem quiser ir mais a fundo nisso terá de ler mais. O que apresentei acima foi apenas um resumo.
Como era de se esperar, muitos cientistas já levantaram a voz contra a pesquisa. A crítica versa especialmente em dizer que foram sequenciados poucos genes e que outros diagnósticos mais facilmente reconhecíveis e palatáveis que a mediunidade (como o autismo, por exemplo) ainda possuem dificuldades extremas em se relacionar com estudos genéticos rigorosos e, enfim que havia também um interesse pessoal dos pesquisadores no resultado da pesquisa. Nesse exato momento, a crítica já começou a puxar o histórico pessoal de cada um dos pesquisadores envolvidos.
Mas essa é a mágica da ciência e é precisamente por causa desse tipo de movimento que ela avança e, vez ou outra, consegue firmar contribuições que mudam toda a história da Terra e da humanidade.
Se a pesquisa estiver certa, podemos conceber o cérebro humano como um mero filtro (limitado) para uma compreensão da realidade externa. Porém, se a invertermos para os genes, poderemos dizer que a capacidade mediúnica é apenas uma ilusão psicológica sentida pelo médium. É claro que, contra isso e com todo direito, os espíritas e todos que fazem parte de religiões que concordam com a mediunidade levantariam sua voz para nos dar uma dúzia de exemplos inexplicáveis sobre a mediunidade.
Mas permanece um tanto intrigante perceber que mesmo as mentes mais crentes da realidade de mistérios sobrenaturais ainda dão muita atenção para aquilo que a ciência tenta descobrir. Por exemplo, se a pesquisa tivesse realmente desvendado, sem deixar nenhuma dúvida (o que não é o caso), que médiuns possuem uma capacidade de comunicação com pessoas mortas e que as pessoas mortas ainda continuam aparecendo em forma de espírito, o quão impactante isso não seria para que eles confirmassem empiricamente o que sempre acreditaram? Imagine só, o quanto a indústria farmacêutica não poderia avançar para formular remédios capazes de alterar genes para dar a todos que quisessem, a mesma capacidade dos médiuns. É até presumível a propaganda: “tome essa pílula e reveja seu parente morto!”. Seria, sem dúvida, um grande negócio. Mas isso tudo, caro leitor, é mera galhofa e entretenimento. Voltemos os nossos pés ao chão.