Ensaio
Vaidade e seleção sexual
Junto com a beleza, há o sentimento de ser belo. Junto com a feiura, o sentimento de ser feio.
Todo bom filósofo ou intelectual que tenha se debruçado sobre temas voltados a disciplina de Ética tem algo a dizer sobre a vaidade. Até onde meu radar alcança, Aristóteles, Beauvoir, Cícero, Darwin, Holbach, Aires e Sponville são apenas alguns dos nomes que podemos mobilizar para tratar o tema. No entanto, quero iniciar este singelo textinho focando em Paul Rée, que, em seu peculiar e fabuloso livrinho (apenas pelo tamanho diminuto) A origem dos sentimentos morais (Editora Unifesp, 2018), diz o seguinte a respeito da vaidade:
Não nos é indiferente se os outros têm uma opinião boa ou má sobre nós, principalmente por dois motivos:
1. Porque somos egoístas e tememos os prejuízos ruins à medida que esperamos as vantagens de uma boa opinião.
2. Porque somos vaidosos; enquanto a boa opinião nos é agradável, a má nos é desagradável.
A vaidade, portanto, tem um lado positivo e um negativo: desejamos a boa opinião, ou seja, agradar, ser admirado e invejado; tememos a opinião ruim, ou seja, desagradar, ser pouco estimado, desprezado e alvo de zombaria
A evolução pressupõe a lei de seleção sexual, que dita que os melhores machos serão selecionados pelas melhores fêmeas (nos casos em que são elas que escolhem). Há, porém, casos menos comuns em que é o macho que seleciona a fêmea, e ainda, como no caso dos seres humanos, em que a seleção é mútua e depende de muitos fatores que, por vezes oferecem resistência para a liberdade de seleção. É o caso da poliandria, poligamia, monogamia ou dos casamentos arranjado, todos eles, a depender da época e da cultura.
A primeira crítica que insurge contra a lei de seleção sexual pode ser estabelecida a partir das duas perguntas a seguir: Quando há dois bons machos à disposição de uma determinada fêmea, qual o critério para determinar que um seja ligeiramente melhor do que o outro? É a escolha final da fêmea que determina qual deles foi o melhor (mais forte, melhor cantor, melhor nadador, mais apto a protegê-la e a proteger a prole, etc.)?
Ora, é claro que, diante de uma situação assim, nós temos que dar razão ao subjetivismo da fêmea. Para compreender isso, basta que se pense que é muito difícil conseguirmos escolher entre Jimi Hendrix e Jimmy Page como melhor guitarrista; entre Freddy Mercury e Ronnie James Dio como melhor cantor; entre Madona e Shakira como melhores dançarinas, etc. Os exemplos são peculiarmente toscos, mas servem para ilustrar o que se passa quanto ao gosto e a subjetividade no caso da seleção sexual. Diante de duas boas escolhas sexuais, a fêmea se decidirá por aquela que melhor o seu santo bater. Isso pode ser decidido por um detalhe aparentemente irrelevante e trivial, mas que para ela foi decisivo.
A seleção sexual não ocorre com consciência no reino animal. Uma fêmea nunca faz cálculos racionais sobre o melhor futuro que teria ao lado de um macho em detrimento de outro. Isso só ocorre no reino dos seres humanos. O que nos é peculiar no reino animal é que algumas escolhas podem ser tomadas sem que necessariamente tenham um motivo aparente (como é o caso da fêmea que escolhe entre dois bons machos); ou ainda, para dar outro exemplo, o caso dos pavões que eriçam suas caldas, não só para chamar atenção das fêmeas no intuito de girar a roda da seleção sexual, mas por sentirem prazer em ser admirados (cf. Rée, p. 102).
As pessoas que possuem o bom senso um pouco apurado sabem onde e com quem podem se meter. Muitos ricaços hoje em dia escolhem viver em condomínios fechados apenas para não ter que cruzar o caminho com pessoas que não estejam na sua bolha. Esses condomínios já selecionam que tipo de pessoa eles irão conviver. Lá dentro tem tudo: escola, academia, sauna, balada, mercado, etc. O mesmo vale para uma região pobre, pois todos que ali vivem sabem que não se pode esperar muito - especialmente em termos financeiros - das pessoas que por acaso venha a conhecer ou se apaixonar.
Em geral, para o reino humano, o dinheiro e a materialidade são os princípios que selecionam com quem iremos conviver. Aqui, pode-se até mesmo aplicar a clássica divisão marxiana entre superestrutura e infraestrutura. É a infraestrutura (base material) que determina a superestrutura (relações sociais), jamais o contrário. É claro que, isso serve no macro e no geral, há casos específicos em que pobretões se engraçaram com baronesas ou que escravas foram escolhidas por príncipes e barões. Mas o mundo não funciona movido por exceções. Em todo caso, compete dizer que em todas essas relações há vaidade aplicada em diferentes graus e medidas, seja por parte das mulheres, seja por parte dos homens. Diante disso, surge outro problema: a vaidade sentida pelo homem é diferente da vaidade sentida pela mulher.
Ainda segundo Paul Rée:
O ser humano é vaidoso em relação a todas as suas qualidade - se bem que em diferentes medidas no que tange a cada uma delas. Justamente nesse ponto o sexo masculino se diferencia do feminino: o homem é em primeiro lugar vaidoso em relação à inteligência, coragem, força, e em segundo lugar em relação à beleza. A mulher, ao contrário, é vaidosa sobretudo em relação à beleza, e, em décimo lugar e em alguma medida, acerca de outras qualidades.
Depois de invocar Rée, inconvenientemente invoco Schopenhauer, que, como se sabe, não é um bom exemplo para discutir sobre mulheres. Tudo que ele falou sobre elas se resume a misoginia descarada, perdoável apenas por um preconceito de época, embora, nem por isso impassível de condenação. Dentre tantas bobagens proferidas por ele, uma delas é a de que não cabe deduzir do direito natural (ou seja, as responsabilidades impostas pela própria natureza), nenhuma obrigação por parte do homem em manter uma mulher que não pode ter mais filhos e nem o satisfaça sexualmente.
Eu trouxe essa questão polêmica, apenas para tencionar a diferença entre a vaidade do homem e da mulher e não para problematizar ou cortar a cabeça misógina de Schopenhauer (já fiz isso em outro texto). Pense o seguinte (ainda em tom radical e polêmico): Seriam as mulheres mais fisicamente vaidosas que os homens, dado que comprovadamente elas gastam mais dinheiro e se preocupam mais com roupas, maquiagem e procedimentos estéticos, como uma tentativa inconsciente – supondo que Schopenhauer e Rée estejam corretos – de contornar e refrear o direito natural da não obrigatoriedade masculina em mantê-las como parceiras sexuais, assim que sua beleza acabe?
A mulher é selecionada pela beleza, logo, faz sentido que elas tenham uma vaidade excessiva em relação à beleza. É o impulso inconsciente de ser selecionada, admirada e desejada que faz com que excedam em produtos e que façam a máquina da indústria da moda girar. Por outro lado, supondo que não estejamos falando de uma mulher inteiramente interesseira, os homens são selecionados pela coragem e pelo caráter. As mulheres não se interessam por homens excessivamente vaidosos em termos estéticos e é antinatural esperar que uma mulher goste de um homem unicamente por sua vaidade quanto à sua beleza física. Ao contrário, vê-se muito mais elas a procura de homens que tenham qualidades morais moderadas e dentro de uma média aceitável quanto a uma convivência estável e agradável. Isso se torna facilmente apreensível pelo fato de que em termos de escolha sexual, homens gordos não são tão socialmente reprovados por mulheres quanto mulheres gordas são reprovadas por homens. Aqui a polêmica acende seu cigarro e assopra a fumaça para cima.
Junto com a beleza, há o sentimento de ser belo. Junto com a feiura, o sentimento de ser feio. A vaidade é um produto da razão humana e nasceu, a meu ver, por dois motivos principais: 1) a partir da autoanálise que se faz de si mesmo, percebe-se como sendo x ou y; 2) a autoanálise é confirmada ou frustrada pela sociedade, assim, o individuo pode até se achar belo, mas ser julgado como feio, ou, ao contrário, se considerar feio, mas ser julgado como belo. Nesses exemplos, poderíamos trocar a beleza por qualquer outro critério como coragem, bondade, justiça.
Há sempre uma contradição, pequena ou grande, entre a forma como nos vemos e a forma como as pessoas nos veem. Não há sentimento pior do que perceber alguém que tem um alto valor por si mesmo, quando todos a sua volta percebem e sabem que ele não deveria se valorizar tanto, e, além disso, percebem que ele próprio não consegue se dar conta de quão ridículo ele se parece. Aqui, aparentemente podemos pensar em dois tipos de vaidade: aquela que é justificada e aquela que é injustificada. Por exemplo, a vaidade da Maju Coutinho é justificada. Ela pode se achar uma grande mulher porque possui critérios e aprovação social para isso. Por outro lado, ao percebermos a vaidade de um sujeito vestido de dândi em um ônibus lotado às 6h da manhã, sem dúvida sentiríamos repulsa. São casos bastante extremos que esclarecem que há pessoas que estão mais autorizadas e permitidas a sentirem uma grande vaidade e outras não.
Em geral, todos querem poder sentir um grande apreço por si mesmos, mas para isso, dependem antes da sociedade. Aqueles que se sentem grandes demais sem antes serem aprovados são desprezíveis e vivem presos em uma ilusão causada por si próprios. A esses podemos chamar de lunáticos.
Há ainda, um tipo de vaidade destrutiva que, embora justificada e aprovada pela sociedade, ela não representa nenhuma benesse para o indivíduo vaidoso. Isso ocorre porque o excesso de vaidade também vem acompanhado de mesquinhez e futilidade. A analise filosófica robusta e séria, ao visualizar pessoas excessivamente vaidosas esclarece o seguinte: “Está pessoa poderia estar fazendo qualquer outra coisa mais intelectualmente elevada com o seu precioso (e escassíssimo) tempo aqui na Terra, no entanto, ela escolheu a baixeza da vaidade”.
Se alguém está validado pela sociedade a sentir uma grande vaidade, e validada por conta de seus méritos próprios (sejam eles qual for), nós olharemos para ela e pensaremos: se ela já possui méritos e já é reconhecida, poderia simplesmente mostrar-se madura o suficiente e não se admirar tanto, pois todos já sabem que ele é realmente boa no que faz, no que é, no que tem, etc. Tal pessoa seria ainda melhor e mais passível de admiração caso entendesse que daria melhor exemplo para os outros se se portasse com humildade ao invés da vaidade. Mas como o mundo é feito, em geral por pessoas rasas e mesquinhas, a vaidade continua em alta e admira-se os outros excessivamente, especialmente quando eles não possuem nada de substancialmente relevante para mostrar (assim se diz que os toscos convivem bem entre si).
O excesso de vaidade é o desejo de agradar ainda mais os outros para receber ainda mais motivos e credenciais para continuar cada vez mais achando-se o máximo, é, pois, um processo que se auto alimenta, se auto vandaliza. É pura antropofagia moral contemporânea. O reconhecimento social alimenta o ego e o ego alimenta a vaidade. No mundo contemporâneo essa fórmula é bastante funcional. Cliques geram reconhecimento social, que alimentam o ego, que alimenta a vaidade. É como uma espécie de eterno retorno do mesmo.
O que disse anteriormente pode ser aplicado para outros casos. Atualizando o que eu disse, podemos pensar que junto com a fama, surge o sentimento de ser famoso; junto com o dinheiro, surge o sentimento de ser rico. É, portanto, desses princípios que nasceu a vaidade, ou seja, da autoanalise e do sentimento que nasce de cada uma de nossas qualidades. Queremos dizer para o mundo: “veja quão bom eu sou no que faço”, então, quando de fato o mundo vê, podemos simplesmente sentir que somos realmente aquilo que achávamos que éramos. É interessante como somos macaquinho complexos.
Não sei se há sentimento mais vão, mesquinho, fútil e banal do que a vaidade. Se alguém quiser me encolerizar basta dizer que a vaidade é um pecado capital e que deixei esse tema de lado (a meu ver não existe pecado, assunto para outro texto). Ao contrário disso, creio que devemos e podemos sentir a vaidade em alguma medida… Ao menos para não aparecermos fedidos diante de nossos amigos. Além disso, a vaidade parece ter um papel de conservação social: mantém cada pessoa em seu lugar, em sua classe e em seu devido tamanho moral.