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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

O detergente Ypê, a Anvisa e a filosofia da ciência

Para se contestar a qualidade da ciência, primeiro deve-se conhecer como a ciência trabalha e compreender que há uma linha tênue que separa o ceticismo saudável (que move a investigação) e o negacionismo destrutivo (que paralisa a investigação e maximiza os riscos, seja à saúde, seja à ciência).

Prédio da Anvisa em Brasília (DF).
Prédio da Anvisa em Brasília (DF).

Um tipo de coisa me deprime profundamente: a autoridade epistêmica da ciência ser aceita sem questionamento, ao modo de um cientificismo radical. Conforme as reflexões do meu humilde personagem Joaquim, no conto Devaneios de um pai brasileiro sem caráter, “se o doutô disse, deve ser verdade”. Mas o que me deprime ainda mais é quando a autoridade da ciência é contestada sem o mínimo embasamento.

É a filosofia da ciência que pode nos ajudar a compreender a crise da confiança no método científico e também é ela que pode contribuir para sabermos como e quando devemos confiar nele. A ciência com certeza depende totalmente da política (os cientistas apontam o caminho, os políticos decidem se vão aderir o caminho ou se vão desviar os recursos para outros investimentos, ainda que sejam investimentos egoístas, independente dos meios que utilizem para isso).

O ponto de inspiração para este singelo textinho é a última polêmica científica brasileira (não muito distante da penúltima, que foi sobre a polilaminina), ou seja, o caso da Anvisa ter suspendido um determinado lote do detergente Ypê. Tão logo isso ocorreu, a sociedade se dividiu: de um lado, negacionistas da ciência, do outro, pessoas que confiam na Anvisa.

Antes de qualquer coisa, penso ser instrutiva as seguintes palavras de Nietzsche, em seu livrinho Sobre a verdade e a mentira em sentido extra-moral:

“O que é, pois, a verdade? Um exercício móvel de metáfora, metonímias, antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram realçadas poética e retoricamente, transpostas e adornadas e que, após uma longa utilização, parecem a um povo consolidadas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões das quais se esqueceu que elas assim o são, metáforas que se tornaram desgastadas e sem força sensível, moedas que perderam seu troquel e agora são levadas em conta apenas como metal, e não mais como moedas” (Nietzsche. Editora Hedra, 2007, p. 36-37).

Podemos ler as palavras de Nietzsche tendo em vista a Anvisa, atribuindo a ela o mérito de ter alcançado respeito na sociedade. Por conseguinte, o que ela diz, recomenda e prescreve, no mesmo molde do personagem Joaquim, “deve ser verdade”. Acreditar cegamente em qualquer coisa é uma atitude nada filosófica. Mas por que devemos acreditar na Anvisa?

Bem, imagine o grande problema que seria, se qualquer pessoa, bem intencionada ou não, pudesse fazer em sua própria casa um alimento qualquer, colocar nele um rótulo e distribuir isso para todo o país sem que pudéssemos ter a garantia de que tal alimento foi de fato produzido com a devida segurança. O primeiro problema que aparece é que caso tal alimento fizesse mal a um número considerável de pessoas, não haveria com quem reclamar a não ser com a própria pessoa que o produziu. Essa pessoa poderia alegar que esse grupo de pessoas armazenou mal o produto, que não havia nada de errado com ele, que a culpa é do consumidor por ter comido mais do que devia, etc. Em todo caso, se a tensão se tornasse realmente grande, os consumidores acabariam levando a discussão para a Justiça. Eis o que quero chamar atenção: no caso de haver um problema entre produtor e consumidor, sempre um terceiro será requisitado.

Para reduzir as chances desses embates se tornarem excessivos, um poder mediador atua entre o fabricante e o consumidor. Esse poder busca equilibrar qualidade e risco. Em outras palavras, ele cobra qualidade do fabricante para diminuir o risco do consumidor. Aparentemente poucos consideram que a Anvisa também representa um bem para o próprio fabricante, pois também para esses há um risco muito grande em entregar às gôndolas de supermercado produtos de pouca ou nenhuma qualidade. Esse risco é jurídico, pois produtos de baixa qualidade fazem mal ao consumidor e o consumidor prejudicado, como vimos, procurará a Justiça. Para uma grande empresa, portanto, é melhor lidar com manter a qualidade do produto do que lidar com excessivos processos judiciais de consumidores irritados, que, aliás, em muitos casos ocorrem mesmo com a garantia de qualidade aferida pela Anvisa.

O segundo problema é que produtos ruins passam a ser malvistos e o que é malvisto não é vendido. Diante disso, ao atestar qualidade a um produto, a Anvisa também mostra para a sociedade que, por ser confiável, ele pode ser desejado. O marketing trabalha a partir do despertar do desejo dos consumidores. Há menos de meio século, propagandas de cigarros tinham a intenção de despertar o desejo das pessoas. Fumar era um hábito moralmente interessante. Se você não fumasse, ficaria de fora de uma nova tendência (atrairia menos parceiros sexuais, pareceria menos descolado(a), seria considerado careta, etc.). O cigarro é um exemplo clássico para pensar que o risco que se paga por fumar não precisa mais de confirmação institucional para dizer que ele faz mal, mas que nem sempre foi assim. Funciona do mesmo modo com produtos que, repentinamente recebem o alerta de que eles podem fazer mal, mas em uma ótica menos óbvia. Em outras palavras e aplicando para o caso recente da empresa Ypê, detergente cheira bem (diferente do cigarro que cheira mal, cheira forte, cheira esquisito).

O que quero chamar atenção é que a ciência possui um movimento análogo e sinérgico com a forma em que a sociedade enxerga um determinado produto. Há casos e mais casos. Na Inglaterra a balinha Halls é vendida como remédio (cough drop), nunca como bala. O quinino era apenas um remédio para malária antes de se tornar a chique e requisitada água tônica nas reuniões empresariais. A ciência não determina nada sem método. Métodos são questionáveis, porque não há determinação científica que não esteja imbuída de subjetivismo. Quando a Anvisa determina que um produto é arriscado, nós não perdemos nada em confiar nela, mesmo que ela esteja errada, especialmente se houver nas prateleiras de supermercado produtos de outras marcas e que fazem a mesma coisa, pois basta comprar outro, até que um determinado produto reprovado nos testes volte a ter qualidade.

Ao final de tudo, a história sempre pode mudar: o produto pode melhorar, a análise da ciência pode mudar, a perspectiva de qualidade do consumidor pode subir. O mundo não é estático e a ciência também não é.

Para se contestar a qualidade da ciência, primeiro deve-se conhecer como a ciência trabalha e compreender que há uma linha tênue que separa o ceticismo saudável (que move a investigação) e o negacionismo destrutivo (que paralisa a investigação e maximiza os riscos, seja à saúde, seja à ciência). O ceticismo saudável é aquele que considera a verdade científica como construída, muitas vezes subjetiva e que, claramente deve ser questionada, mas sempre com critério, com técnica e muito longe dos murmurinhos das redes sociais. A verdade não é objetiva e inerte e é por isso que o trecho de Nietzsche destacado acima é tão crucial. A ciência é claramente uma convenção e uma média básica em que se aceita riscos e qualidades; o valor que se atribui a ela é uma construção da “soma das relações humanas”. Todas essas questões problematizam a ciência e dão mais sofisticação ao debate de se devemos confiar em um determinado remédio ou mesmo em um detergente.

Sem essas problematizações mínimas, o debate — quando sequer existe um debate — está fadado ao negacionismo destrutivo e radical em que trata a ciência como mero joguete político, reduzindo-o a questões infundadas, por exemplo: “não confio na ciência porque tal fulano que faz ciência é de outra ideologia política que não a minha, logo as conclusões científicas são falsas”. Embora a ciência seja feita com política (conforme apontado), não é a política que determina o método científico e nem a análise de dados. O que determina o método científico é um processo empírico de tentativa e erro (O que funciona? Como funciona? Por que deve continuar funcionando? E se caso parar de funcionar, o que deveremos fazer?).

A reprovação da Anvisa por um determinado produto, nem sempre significa que uma empresa foi negligente na sua produção. Erros podem acontecer. Veja, por exemplo, o que disse Carlos Alberto Martins (prefeito da cidade de Amparo (SP), local de origem da marca Ypê):

É impossível ignorar que estamos falando de uma empresa brasileira gigante, líder de mercado em diversos segmentos, que disputa espaço com multinacionais poderosíssimas. E, infelizmente, no mundo corporativo, sabemos que muitas vezes interesses econômicos caminham junto de narrativas cuidadosamente amplificadas.

Defender a Ypê não é fechar os olhos para fiscalizações. Fiscalização séria deve existir sempre. Mas defender a Ypê é defender a verdade, o equilíbrio, o bom senso e, principalmente, milhares de empregos e famílias de Amparo que ajudaram a construir essa empresa junto com seus fundadores e colaboradores.

A Ypê faz parte da identidade da nossa cidade. Cresceu junto com Amparo. Gerou oportunidades quando muitos desacreditavam do interior paulista. Levou o nome da nossa cidade para o Brasil inteiro (Faceebok).

Por que devemos acreditar que “defender a Ypê é defender a verdade, o equilíbrio, o bom senso e, principalmente, milhares de empregos e famílias de Amparo que ajudaram a construir essa empresa junto com seus fundadores e colaboradores”? O prefeito reduz a questão ao sentimentalismo. A ciência definitivamente não trabalha com sentimentalismos. Nenhum cientista está e nem deveria estar preocupado com tais fatos para fazer análises laboratoriais e, em grande parte, é justamente por isso que se pode colocar uma confiança relativamente grande na ciência. Quando Carlos Alberto Martins diz que “Fiscalização séria deve existir sempre”, podemos pensar o seguinte: é precisamente por ela ter existido sempre que a Ypê se tornou tão forte e bem vista por todo o país. Basta que a marca resolva o problema e ela terá passado nos critérios exigidos pela ciência/fiscalização e então poderá, incólume, retomar o seu posto, sem que negacionistas continuem dando shows de bizarrices.

Concluo minhas reflexões apenas apontando para o fato de que a dita fiscalização busca atuar no campo da tensão entre qualidade e risco, jamais no sentimentalismo sobre como uma marca é importante para empregos ou para dar nome para uma cidade.

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