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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

Nossa moralidade é intrinsecamente simiesca

Nós apreciamos o mal muito mais do que costumamos admitir

Nossa moralidade é intrinsecamente simiesca

Antes de qualquer coisa, segue abaixo algumas perguntas fundamentais feitas por Stephan Macedo e Josiah Ober, na Introdução do livro Primatas e filósofos: como a moralidade evoluiu, do reconhecidíssimo primatologista Frans de Waal:

Considerando que existem fortes razões científicas para supor que o egoísmo (ao menos no nível genético) seja o mecanismo primário de seleção natural, como nós, humanos, viemos a nos tornar tão fortemente apegados ao valor da bondade? Dito de outro modo, por que não pensamos que é bom ser mau? Para os que acreditam que a moralidade é algo real, mas que não pode ser explicada ou justificada recorrendo tão só a presunção teológica de que uma propensão humana singular à bondade é produto da graça divina, esse é um assunto difícil e importante.

Stephan Macedo e Josiah Ober. Introdução da obra de Frans de Waal, Primatas e filósofos: como a moralidade evoluiu. Editora: Palas Athena, 2023, p. 14-15.

Sem me ater estritamente aos desdobramentos do livro de Frans de Waal, usarei tais questões/excerto como inspiração para minhas reflexões, que seguem abaixo.

  1. Como nós humanos nos tornamos tão fortemente apegados ao valor da bondade?

As primeiras respostas que devemos retirar do caminho, são claramente as respostas teológicas. Ao vermos algum determinado indivíduo defender que somos “essencialmente bons” e “bons por natureza”, temos apenas de rir e pregarmos-lhe a alcunha de ingênuo; normalmente os defensores desses pontos de vista estão imbuídos de preceitos que assumem presunções divinas e teológicas. Outrossim, daqueles que defendem pontos de vista opostos, de que somos “essencialmente maus” e “maus por natureza”, podemos rir um pouco menos e atribuir a eles menos ingenuidade. Eles podem ter partido de um ponto de vista mais elevado em que consideram que no estado de natureza não podíamos nem mesmo atribuir qualquer valor moral às ações e que a análise de se alguém é ruim ou bom por natureza depende de um juiz (Estado, Constituição, Filosofias Morais, etc.). Em suma, no estado de natureza não seria possível falar em bem e mal, mas apenas em ações destituídas de valor moral.

Parece-me que a filosofia ficou afundada nessa dicotomia por muito tempo. De um lado, os ingênuos defensores da humanidade essencialmente boa, de outro aqueles que reconhecem seu extremo egoísmo, mas que buscaram entendê-lo por meios imprecisos e românticos, defendendo, por exemplo, que somos maus porque queremos acima de tudo sobreviver ou que a disputa e a hostilidade natural são a regra em um mundo sem leis (Estado, Constituição).

O que a ética evolucionista aponta com maestria e que destoa da referida dicotomia é que não houve um momento puramente humano em que a sociedade teve início (seja por contrato social, seja por criação divina, formação de leis, religiões advindas do fogo doméstico, seja o que for). O que houve, na verdade, é que a sociedade é fruto de nossos ancestrais evolutivos em comum e que não há uma essência puramente boa ou puramente má na consciência humana. Antes disso, poderíamos falar em uma essência puramente social. Aliás, diga-se de passagem, era exatamente esse o sentido que Aristóteles tinha em mente ao conceber o ser humano como um animal político (zoon politikon). Animal político, portanto, no sentido de animal social, nunca de animal ideológico (o que é um erro e imaturidade filosófica).

Hobbes e Rawls criaram a ilusão da sociedade humana como um acordo voluntário, com regras autoimpostas, acordadas por agentes livres e iguais. Contudo, nunca houve um momento em que nos tornamos sociais: descendemos de ancestrais muito sociais - uma longa linhagem de macacos e símios - e sempre vivemos em grupos. Nunca existiram pessoas livres e iguais. Os humanos começaram - se é que se pode sinalizar um ponto de partida - como seres interdependentes, unidos e desiguais. Descendemos de uma longa linhagem de animais hierárquicos para os quais a vida em grupo não é uma opção, mas sim uma estratégia de sobrevivência. Qualquer zoólogo classificaria nossa espécie como obrigatoriamente gregária.

Frans de Waal. Filósofos e primatas: como a moralidade evoluiu, p. 30.

A filosofia moral não pode mais ignorar a ética evolucionista ou então seguirá errando e caindo em aporias inúteis. A imagem da boneca russa é bastante elucidativa para compreender em que consiste a ética e até mesmo a índole de nossa pergunta 1. Não se trata, portanto, de pensarmos em inícios conjecturais para a sociedade e por conseguinte sobre a origem da moralidade; antes, pode-se falar apenas em evolução da moralidade, como uma espécie de degradê que avançou no reino animal por representar uma vantagem adaptativa, dado que, dentro do que somos hoje, há também aquilo que nossos ancestrais foram no passado e, eles foram, intrinsecamente sociais. Agir de modo egoísta (com a intenção de servir a si), representa proteção e busca por alimento; do mesmo modo, agir de modo altruísta (contagiando-se emocionalmente com a dor alheia), também representa uma vantagem adaptativa, pois indivíduos socialmente amigáveis são aceitos, preferidos e recompensados em relação àqueles que são menos sociáveis e que não se importam com a comunidade.

  1. Por que não pensamos que é bom ser mau?

A verdade é que nós pensamos que é bom ser mau, no entanto, não admitimos isso em público e aprendemos a esconder de nós mesmos que, muitas vezes, gostaríamos de agir de maneiras impróprias. Eu não estou pensando aqui em ações injustas (crimes, roubos e abusos físicos). Penso apenas em abusos intelectuais em relações sociais em que as ações que realizamos não chegam a ser injustas, mas beiram a maldade. Quando, por exemplo, deixamos de favorecer alguém que claramente poderíamos ter favorecido se tivéssemos feito um esforço mínimo e que não nos gastaria qualquer energia significativa; quando deixamos de dar uma informação útil para alguém que poderia ter sido por ela ajudado; quando sentimos prazer em percebermos a inveja que os outros sentem de nós; quando somos escolhidos e nos deleitamos contra aqueles que derrotamos; quando nos sentimos superiores por estarmos em um posto mais alto do que nossos subalternos; quando o poder político nos contagia, etc.

Nós apreciamos o mal, muito mais do que costumamos admitir. A razão disso foi parcialmente respondida, anteriormente, quando pensamos nos valores de vantagens adaptativas em agirmos de modo altruísta e egoísta. Não é vantajoso socialmente, dizer que sente apreço pela maldade ou pelo egoísmo, pois assim que percebemos que alguém age de tal forma, reprovamos tal atitude. Tais ações só podem acontecer de maneira velada e ninguém pensa em descortiná-las, justamente porque todos sentem e gostam do mal (malzinho) em alguma medida.

A religião tentou explicar isso, condenando como pecado o sentimento de sentir apreço pela maldade, mesmo as maldades pequeninas do dia a dia. A ideia de pecado é ingênua, justamente porque desconsidera que a natureza (boneca russa) social do ser humano é tanto egoísta como altruísta. Nunca existiu qualquer pecado no reino social dos primatas. Eles podem enfiar os dedos nos rabos uns dos outros ou se matarem a pauladas e ninguém reconhecerá nisso qualquer pecado. O que podemos estabelecer, de maneira muito mais sofisticada, são graus de responsabilidade pelas ações. Pecado é apenas a ideia do castigo pela responsabilidade. Os pecados, portanto, são análogos ao código penal. A diferença é que o código penal de fato pune o corpo e a ação, o pecado apenas corrói intelectualmente indivíduos afeitos a ideias religiosas e não tem nenhum efeito naqueles que enxergam a religião como mera ilusão.

Em verdade, não há nada de muito errado em sentir apreço pela maldade desde que nunca se chegue às injustiças. Isso porque a moralidade em sentido evolucionista deve julgar ações e consequências, não sentimentos privados. Suponhamos alguém que não tem nenhum interesse em se tornar uma pessoa cada vez mais altruísta, amada ou socialmente aceita; um niilista ou absurdista, ao estilo do personagem Meursault de Albert Camus. Esse indivíduo não faz questão de ser bom e nem de refrear suas ações. Meursault de fato chega a cometer um crime, como se sabe, ele mata um árabe. Mas é bem mais modesto e aceitável pensarmos que nem toda pessoa niilista que passa pela vida comete crimes. Há uma porção de filósofos niilistas que apenas viveram suas vidas sem se importarem em fazer o mal ou o bem. Ao que me parece, a fundamentação que a ética evolucionista dá para esse tipo de comportamento é que há um grande valor na indiferença moral da consciência daquele que não se importa com juízes, pecados, códigos de leis, mas que ainda assim conseguem viver sem cometer crimes. Essas pessoas apenas tinham dentro de si, bonecas russas que foram treinadas para levar a vida de uma maneira morna sem nunca prejudicar ninguém, do mesmo modo, sem fazer grandes bondades. A indiferença pode ser horrível para um juiz moralmente bom, mas ela ainda tem o seu valor. Se me permitirem um juízo final: é mil vezes preferível um indiferente do que alguém moralmente mal.

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