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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

O filme Barbie e o pânico moral

Estou tão feliz por ter visto o filme, que já me sinto tornando-me gay... Oh não! Oh não!

O filme Barbie e o pânico moral

É um pouco ridículo ter medo da Barbie. Mas há um grupo enorme de marmanjos que parecem ter algum problema quanto a cor rosa e contra mulheres bonitas. A grande maioria dos que levantam a voz contra o filme, nem sequer o assistiram. Trata-se de um grupo de fundamentalistas religiosos, velhos babões e mulheres submissas (ironicamente, são justamente o tipo de pessoa que o filme pretende redimir e salvar). 

Fui ao cinema ver o filme, no estilo “eu a patroa e as crianças”, isto é, acompanhado da esposa — que durante sua infância, teve dezenas de Barbies — e também com minhas duas filhas, de 10 e de 6 anos. Sim, a classificação indicativa recomenda que ele não seja assistido por menores de 12 anos, no entanto, o capitalismo não está nem aí para a transgressão moral, desde que você esteja pagando. Por isso, viva o capitalismo! 

Em minha defesa, digo que não era o único na sala que acompanhava crianças com menos de 12 anos. Havia muitos outros pais, tão felizes e leves como eu e minha esposa, acompanhados de suas crianças. Assim como eu, eles sabiam que não iriam se tornar homossexuais após assistirem ao filme. 

No geral, quem está muito preocupado com a própria masculinidade está vivendo em culpabilidade e condenação de si, seja por insegurança quanto a Deus, com a família, com o padre, com os filhos; no meu caso, estou muito bem quanto a tudo isso, porque vivo integralmente pela minha família e cuido para que sistemas ilusórios de pensamento não entrem em nosso lar: estamos livres dos deuses e da culpa que eles poderiam nos trazer (graças a deus somos ateus!).

Enfim, ia dizer, que essas pessoas, que fazem o pânico moral como se o filme fosse tornar todo mundo ateu e transgressor da moralidade, criaram dentro de suas cabeças, uma idealização de mundo perfeito (sem gays, sem rosa e eminentemente patriarcal). Mas esse mundo felizmente não existe. O mundo definitivamente não é assim. Ao contrário, sabemos pela experiência que ele é diversificado. 

Mas, por falar em patriarcal. Eis uma fala marcante do filme: “a humanidade criou a Barbie e o patriarcado”. Ocorre que o filme assume uma vertente interessante, ao mostrar que a perfeição da “Barbie estereotipada”, isto é, a Barbie loirinha, magricela e sem estrias, foi uma das responsáveis por dar forças ao sistema patriarcal. O filme cumpre a função de fazer a Barbie estereotipada se tornar a “Barbie comum” (a mulher verdadeira, com estrias, que envelhece, que cuida dos filhos depois da jornada de trabalho, que não vive no mundo da Cucolândia, etc., etc). 

O filme não é nada além de sensato. O restante que se possa dizer sobre ele, estou crente que, não passam de falas preconceituosas, no sentido estrito da palavra “preconceito”, que significa: aquele que toma conceitos críticos prévios, sem conhecer devidamente aquilo que está a criticar. No entanto, é muito claro que, uma porção de influenciadores machões e mulheres submissas surfam no hype para conseguirem engajar suas redes sociais. Viva a hipocrisia. Mas eu colocaria a mão no fogo em prol da crença de que os produtores do filme já sabiam de todo o rebuliço que ele criaria. Hollywood não está nem aí em afeminar os homens ou em “lacrar”. Eles querem apenas o nosso dinheiro.  

Aqui vai um resumo do que o filme faz: 1) ataca os padrões de beleza; 2) ataca a intolerância ao diferente; 3) faz reflexões sobre a vaidade ser vã, dado que estamos todos unidos na morte (gostei especialmente dessa parte, embora tenha sido bastante sutil); 4) ataca o patriarcado, como eu já disse acima. Nesse sentido, você só terá motivos para não ver o filme se for muito bonito, vaidoso, muito machão, imortal e intocável. Não é o meu caso. Ao contrário, estou tão feliz por ter visto o filme, que já me sinto tornando-me gay… Oh não! Oh não! 

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