Ensaio
Evolucionismo e vida extraterrestre
O alienígena verde e de anteninhas é muito mais uma criação humana do que fruto da realidade em que a evolução pode ter legado aos nossos possíveis irmãos de Universo.
No último domingo, um relato curioso ocorreu no Brasil, após o influenciador digital Mayk Leão avistar um OVNI e documentar tudo em suas redes sociais. O caso tem tomado grande proporção. Não me interessa aqui discutir o caso em si, menos ainda a enorme comoção popular que se formou a respeito dele. Quero apenas dizer algumas palavras sobre evolucionismo e extraterrestres.
Antes de qualquer coisa, cabe dizer que muitas pessoas têm uma visão caricatural sobre a vida extraterrestre (ou alienígena). Alienus, no latim, significa apenas “aquilo que vem de fora”, de onde também se deriva “alienado”, ou seja, “aquele que se mantém alheio” a algo em específico. O bichinho verde de anteninhas é uma construção cultural. O próprio Jesus pode ser considerado um alienígena, assim dizem os ufólogos, comentando o versículo João 18:36, que diz:
“O meu Reino não é deste mundo”.
Concordo com os ufólogos, no entanto, também dou o braço a torcer para aqueles que permanecem céticos. Mas talvez a opinião do grande Immanuel Kant possa nos amolecer, ele diz que “admitir habitantes doutro planeta, dotados de razão, é uma coisa de opinião, já que se pudéssemos aproximar-nos deles — o que em si é possível — saberíamos pela experiência se eles existem ou não” (KU AA 05: 455). Ou seja, para Kant, a existência de extraterrestres inteligentes não é algo que se possa provar ou refutar a priori pela razão pura, mas sim uma questão empírica em princípio verificável.
Na obra Lições de ética, Kant chega a falar de um “cosmos infinito onde há tantos planetas povoados por criaturas racionais” (AA 27: 336), e na obra Ideia de uma história universal especula que, talvez, nesses outros mundos “cada indivíduo consiga atingir plenamente o seu destino durante a sua vida” (IaG AA 08: 24n). Aqui, Kant não está apenas admitindo a possibilidade de vida extraterrestre, mas contrastando-a com a condição humana, marcada pela insociável sociabilidade e pela dificuldade de realizar plenamente a própria natureza racional.
O meu ponto principal é o seguinte: supondo que os seres extraterrestres inteligentes existam, como eles existem? Foram criados ou, tal como nós, evoluíram de um ancestral comum? A mim, a segunda hipótese é mais plausível justamente porque podemos tomar a nossa experiência terrestre como exemplo, partindo desde a química prebiótica até o desenvolvimento da vida e de todos os organismos que aqui se desenvolveram (gosto sempre de indicar o site OneZoom.Org como um exemplo para se explorar toda a árvore da vida documentada a partir de comparações genéticas).
Em todo caso, amparo minhas palavras em um renomado físico chamado Lee Smolin, que formulou a hipótese do darwinismo cósmico: trata-se de uma hipótese que aplica princípios de seleção natural ao universo, sugerindo que novos universos são gerados dentro de buracos negros, sendo esses universos filhos, nascidos com leis físicas ligeiramente diferentes, dado que o processo reprodutivo do cosmos também passaria por mutação e variação, semelhante às espécies terrestres (cf. Vaas, 2002). A lei de seleção natural, portanto, continuaria valendo em qualquer outro planeta. A regra de que cada espécie proporciona pressão seletiva na modificação do ambiente e na modificação de si mesma, parece de fato louvável e aceitável para supormos o desenvolvimento e surgimento da vida extraterrestre (seja ela inteligente e tecnológica ou meramente celular).
Não devemos deixar de considerar que as condições ambientais de outros planetas distantes devem ser totalmente diferentes daquelas que tornaram possível o surgimento da vida na Terra. Elas devem ter sido semelhantes, mas não iguais. Em decorrência disso, todo o efeito causado pela pressão seletiva pode ter levado os alienígenas a uma inteligência totalmente diferente da nossa a partir de planetas com matérias primas e vidas totalmente distintas. É por isso que o alienígena verde e de anteninhas é muito mais uma criação humana do que fruto da realidade em que a evolução pode ter legado aos nossos possíveis irmãos de Universo.
A minha defesa da compatibilidade entre o evolucionismo e a vida extraterrestre também pode ser amparada pela ufologia. Ainda guardo minhas anotações de um livro que ganhei de presente de um grande amigo que tem forte simpatia pelo tema e que li há alguns anos. O livro se chama Mergulho no hiperespaço, de Moacyr Uchôa, renomado ufólogo brasileiro. Uchôa nos diz:
Podemos afirmar que a observação é uma decorrência do exercício natural da faculdade de percepção, que no homem se fundamenta na utilização dos seus cinco sentidos. Se abordarmos, porém o problema da percepção sob uma perspectiva evolutiva, o que iremos verificar poderá nos auxiliar a compreender porque as concepções da realidade estão condicionadas às características do estado evolutivo do ser que percebe.
Em suma, as alegações desse ufólogo são relacionadas a ideia de que toda a dimensão espacial e temporal para os alienígenas inteligentes poderiam ser completamente diferentes das nossas. Isso para dizer o mínimo. A consequência de tal ideia é que a relação que nossos irmãos de Universo possuem com os conceitos de tempo, espaço, distância, velocidade, etc., podem ser totalmente diferentes das relações que nós temos com tais conceitos.
Quando Kant trata dos “seres inteligentes em outros mundos”, o contexto de fundo, como bem sintetiza Pavão, era justamente mostrar que “a ideia de seres racionais sensíveis que não os seres humanos […] não compromete o idealismo transcendental [1]” (Pavão, 2017, p. 24). Mas, talvez, levando em consideração as alegações de Uchôa, seja preciso ir além: não apenas esses seres estariam submetidos às mesmas estruturas transcendentais, mas a própria forma como vivenciam espaço e tempo, enquanto intuições puras, poderia ser tão diversa da nossa quanto a sua biologia evolutiva o exigisse. Em outras palavras, nada nos garante que eles, caso de fato existam, tenham apenas cinco sentidos e que esses sentidos sejam iguais aos nossos. Além disso, eles poderiam ter outras categorias transcendentais em sua mente. Categorias, aliás, totalmente desconhecidas das nossas.
O termo alemão Umwelt (mundo ao redor), é a ideia de que cada ser possui uma experiência de mundo totalmente diferente. Nós podemos conjecturar, por exemplo, como é ser um morcego (cf. Nagel, 2005), mas nunca vamos realmente saber como é de fato ser um morcego. Na verdade, podemos conjecturar como é ser qualquer outro animal, mas nunca poderemos de fato sermos esse determinado animal. O mesmo podemos fazer com seres alienígenas inteligentes. Como será o Umwelt deles? Nunca saberemos, mas esperamos fortemente que um dia eles possam nos explicar, ou talvez, quem sabe, nós possamos tentar explicar o nosso Umwelt para eles.
Diante de um tema tão vasto e instigante, tenho de reconhecer minha humilhante limitação. Para não correr o risco de escrever bobagens, por ora, paro por aqui.
Referências bibliográficas
ALVES, A. A suposta moral teológica kantiana segundo a crítica de Schopenhauer. Kínesis, Vol. XIII, n° 35, dezembro 2021, p.29-48.
KANT, I. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valério Rohden e Antonio Marques. Rio de Janeiro: Forense, 1993.
KANT, I. Lecciones de ética. Tradução de Roberto Rodriguez Aramayo e Concha Roldan Panadero. Barcelona: Crítica, 1988.
KANT, I. (1988b). Ideia de uma história universal com um propósito cosmopolita. In: A paz perpétua e outros opúsculos. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Ed. 70, p. 21-37.
NAGEL, T. Como é ser um morcego? Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 15, n. 1, p. 245-262, jan.-jun. 2005.
PAVÃO, A. Filosofia moral sem antropologia. Kant e-Prints, [S. l.], p. 19–30, 2018.
UCHÔA, M. Mergulho no hiperespaço: dimensões esotéricas na pesquisa dos discos voadores. Editora: Do Conhecimento, 2015.
VAAS, R. Is there a Darwinian Evolution of the Cosmos? Some comments on Lee Smolin’s theory of the origin of universes by means of natural selection. Eprint arXiv, 2002.
[1]: Idealismo transcendental é a teoria epistemológica de Immanuel Kant (século XVIII) que afirma que conhecemos apenas os fenômenos (como os objetos nos aparecem) e não a “coisa-em-si” (a realidade independente da mente). (GOOGLE).