Ensaio
Microtargeting eleitoral
Cada vez mais a liberdade intelectual em termos políticos é ameaçada, pois os eleitores não votam mais em favor dos próprios interesses, mas muitas vezes, até mesmo em contrariedade com eles
Antes de qualquer coisa, uma breve explicação sobre o que é microtargeting (ou microdirecionamento).
Trata-se do mecanismo que consiste em definir a segmentação estratégica da propaganda eleitoral a partir do perfil emocional, político e social dos eleitores e, utilizando para isso dados pessoais coletados de suas redes sociais e aplicativos de mensagens. O microdirecionamento (da propaganda) é feito pelas próprias plataformas - Facebook, WhatsApp, Instagram, etc. - tal como pelos políticos e partidos políticos ao utilizarem as plataformas, aproveitando-se do fenômeno da internet como o principal meio de comunicação do século XXI.
A advogada Gabriele Bispo ajuda a entender o microtargeting:
Essa prática, quando realizada de maneira nociva e antiética, pode não só violar dados do titular, como também explorar assimetrias de informação e poder, exercer manipulação emocional sobre o eleitorado e provocar interferências sobre a condução das eleições e da própria Justiça Eleitoral.
Conforme Resolução nº 23.732/2024, inciso XXXIII:
Microdirecionamento [é a] estratégia de segmentação da propaganda eleitoral ou da comunicação de campanha que consiste em selecionar pessoas, grupos ou setores, classificados por meio de perfilamento, como público-alvo ou audiência de mensagens, ações e conteúdos político eleitorais desenvolvidos com base nos interesses perfilados, visando ampliar a influência sobre seu comportamento.
O ponto que quero destacar é que o microtargeting compromete a liberdade de escolha do eleitor. É nesse ponto que a filosofia reivindica seu espaço. Já há alguns anos que trabalhei na hipótese de que não há liberdade intelectual na política, especialmente em se tratando de fenômenos de massa, considerando a propaganda, a cultura e a falta de pensamento crítico.
Foram dois os momentos em que discuti tal assunto:
1) O primeiro foi mais formal, tendo em vista o Caso Eichmann. Apontei que Eichmann não agiu com liberdade de escolha, mas sim imbuído do espírito que adota as máximas “eu quero ignorar” ou “eu quero não entender” (é assim que ele pôde ser conivente em receber ordens de Hitler, sem sequer questionar se essas ordens eram moralmente válidas ou minimamente aceitáveis). Leia o texto completo aqui.
2) O segundo momento foi um texto mais ensaístico, a partir do fatídico caso do bolsonarista debilóide que explodiu a si mesmo na Praça dos Três Poderes, em 2024. O que apontei naquela ocasião foi que movido por cólera, vingança e convicções ideológicas ou religiosas, o pensamento crítico pode ser substituído por uma patologia, a que chamei de psitopatía (πιστοπαθία), a “doença das convicções”. Psitopatía nada mais é do que o vício ideológico, análogo ao alcoolismo ou ao vício em jogos, no qual a pessoa perde a capacidade de questionar suas próprias crenças e age de forma autodestrutiva ou violenta contra terceiros). Leia o texto completo aqui.
O presente texto sobre microtargeting, portanto, poderia ser um terceiro desdobramento de algo que já venho pensando há algum tempo. Em verdade, não me estenderei demais, tal como fiz nas outras duas ocasiões anteriores. Quero apenas apontar, querido(a) leitor(a), que seus dados estão sendo utilizados, integralmente, para direcioná-lo para dentro de algum cercadinho ideológico.
Não há mal em ter convicções políticas desde que elas tenham fundamentação crítica e consciência intelectual. O que ocorre é que, antes que se possa desenvolver qualquer autocrítica, as consciências dos eleitores são captadas por propagandas (em que, aliás, muitas vezes nem se sabe que são propagandas). Tenho uma solução simplista para aqueles que têm dúvidas se são vítimas de propagandas microdirecionadas. Basta colocar na balança se nos últimos 365 dias você leu mais livros de filosofia política ou textos de rede social. Se você leu mais textos de rede social, infelizmente, tenho uma péssima notícia para você.
O microtargeting basicamente reforça crenças pré-existentes, sem forçar o indivíduo a ter nenhum trabalho em pensar. Portanto, a conclusão aqui é a mesma daquelas que tive nas outras ocasiões: cada vez mais a liberdade intelectual em termos políticos é ameaçada, pois os eleitores não votam mais em favor dos próprios interesses, mas muitas vezes, até mesmo em contrariedade com eles. Como o cabeça-de-vento está capturado pela propaganda e pelo seu feed das redes sociais, ele apenas pensa que é inteligente porque seu algoritmo assim o faz que ele acredite. Você nunca verá as pessoas mentirosas dizendo que estão mentindo e menos ainda que estão fazendo propagandas para mantê-lo preso e viciado na própria ideologia (psitopatía). Os mentirosos não apenas sentem grande prazer na desgraça alheia, mas também tiram grande proveito financeiro e político da desgraça alheia (dos seus eleitores). Mentir é extremamente rentável.
Para não terminar em tom rígido, reitero meus votos otimistas para dizer que a culpa de quem cai no microtargeting, em geral, não é apenas individual, mas também histórica, consequência direta de séculos de abuso intelectual, moral e religioso. Muito ainda poderia ser dito, mas a mensagem principal está transmitida.
Apenas um último suspiro macunaímico…
Aíííí, que preguiça…