Pular para o conteúdo
Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

O prazer em causar inveja

Nós nunca veremos um reconhecimento sincero pelo prazer em sentir inveja. Jamais uma pessoa dirá às outras: "obrigado por sentir inveja de mim, pois isso me dá um prazer imenso".

A Inveja de Giotto di Bondone (1305)
A Inveja de Giotto di Bondone (1305)

Pode-se recorrer a explicações sociológicas e clássicas para discutir a desigualdade social. Pode-se também discutir questões relacionadas à política, na tentativa de reduzir as desigualdades de oportunidades e de acesso ao dinheiro. Aqui, nenhuma dessas ideias me interessam, ao contrário, o que me interessa é a fonte do problema.

Todos podem aceitar que os primeiros hominídeos sentiam prazer. Seja o prazer sexual, o prazer de se alimentar, em se aquecer, seja qual for o tipo de prazer, o que importa é que eles o sentiam em alguma medida. E todos aceitam isso facilmente porque também podemos visualizar o prazer nos animais não humanos. O cachorro se sente alegre ao ganhar um petisco; o cavalo mexe o rabo quando é acariciado na testa, bonobas podem ter relações lésbicas extremamente prazerosas, entre os golfinhos, as fêmeas preferem os machos que fazem sexo com preliminares. São muitos os exemplos.

O que nos importa, no entanto, é um tipo bem específico de prazer: aquele que se sente por causar inveja. É fácil de imaginar que um hominídeo ao encontrar um pedaço de pau diferente, uma pedra colorida, um fruto diferente, tenha despertado os olhares atentos do seu bando. Por conseguinte, sentiu-se em posse de um bem material desejado por todos. Mas não só os hominídeos sentiam inveja, os animais também sentem inveja.

O tom evolucionista que trago à baila aqui, foi inaugurado principalmente por Darwin em A expressão das emoções nos homens e nos animais, estudo que inaugura a etologia (concepção que, entre outras coisas, estuda o comportamento e a fisiologia animal e, por comparações comportamentais, faz predições sobre de onde herdamos certos comportamentos humanos). A fórmula é simples: sentimos inveja, raiva e prazer porque nossos ancestrais também sentiam. Não há discussão científica séria que invalide isso. O que há é a tentativa de encontrar as melhores respostas para questões específicas. Algumas delas vão muito além das demonstrações iniciais de Darwin, no referido livro.

Nem toda pessoa que é invejada sente prazer em causar inveja. É possível percebermos que alguns vencedores, mesmo sendo invejados por seus méritos e conquistas, não se vangloriam em excesso ou até mesmo se sentem desconfortáveis por serem invejados. Em verdade, parece-me que aqueles que realmente são meritórios por suas conquistas, e, por bom uso de suas virtudes, consegue manter-se centrado em si mesmo e não cair na cilada de sentir prazer ao perceber que é invejado. Seguindo o ideal de ser humano sábio nos moldes gregos (penso especialmente em Aristóteles), é improvável que um determinado indivíduo seja virtuoso, feliz e sábio se dentro de seu psiquismo também habita um secreto sentimento de prazer por causar inveja nos outros. Mas, esse tipo de pessoa parece ser bastante rara.

É mais comum, vermos por aí, pessoas sentirem prazer em causar inveja nos outros. Podemos incluir entre elas especialmente os influencers de redes sociais. É fácil apurar quando alguém sente prazer na inveja alheia: deve-se ter em mente que todas as pessoas que possuem muitos seguidores nas redes sociais possuem, por conseguinte, uma legião de invejosos (são uma parcela considerável das pessoas que as seguem), depois, analisar cada caso tendo em mente se tais influencers agem como se sentisse prazer em ser objeto de inveja.

Quem busca admiração, mas não encontra, sente-se frustrado. Imagine o hominídeo que ao encontrar uma pedra diferente, pensa que causaria igual espanto, desejo e admiração em seu grupo, mas, na verdade, ninguém dá bola para sua pedra. Ele se decepciona e então, suponhamos que ele tente novamente, outras artimanhas para buscar a admiração do bando, mas tudo que faz é insuficiente. Em nossos dias, pode-se ver tal situação sendo análoga à busca incessante de seguidores nas redes sociais, mas esses seguidores (para a grande maioria), nunca chegam.

No caso daqueles que conseguem se destacar, há sempre concorrentes à altura. Dois exemplos bem fáceis de imaginar: Virginia Fonseca e Jade Picon (não sei se elas sentem prazer na inveja alheia que, certamente as pessoas têm delas, mas com certeza elas são recompensadas por um sistema social que recompensa e admira a exibição do corpo e do luxo). Nós nunca veremos um reconhecimento sincero pelo prazer em sentir inveja. Jamais uma pessoa dirá às outras: “Obrigado por sentir inveja de mim, pois isso me dá um prazer imenso”. Isso é contra intuitivo e causaria repulsa imediata, colocando até mesmo em xeque a validade dos méritos da pessoa invejada: “Isso não é coisa que se diga, ainda que seja verdade”, é o que as pessoas responderiam. Do mesmo modo, é anti natural esperar que tal pessoa diga o oposto: “Não me sinto feliz por vocês sentirem inveja de mim, isso não me causa prazer”. A reação seria igualmente estranha. Diriam as pessoas: “Ele realmente se acha, ninguém sente inveja dele”. Na verdade, as pessoas sentem inveja, mas nesse caso, dificilmente admitiriam e, novamente, os méritos da pessoa invejada seriam questionados e postos à prova. A sinceridade sempre é uma inimiga do bom senso e das convenções sociais que são desenhadas para nunca emergirem até a superfície.

Por tudo que foi dito, o mero ato de pensar que as pessoas sentem prazer em causar inveja é suficiente para antever uma porção imensa de relações vazias e carentes de profundidade intelectual ou moral. É justamente porque o mundo é uma guerra de todos contra todos que há prazer em causar inveja. Se o mundo fosse igualitário e justo, certamente ninguém teria tal sentimento.

Tópicos