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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Conto

Devaneios de um pai brasileiro sem caráter

Um conto de inspiração macunaímica

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1 – Exame de DNA

A prima Marisa brincava com o pênis do primo Paulo. Vovó via tudo com o canto dos olhinhos com carinha de “deixa os priminhos brincar”, eu achava o olhar dela uma gracinha. Depois duns bons anos, prima Marisa apareceu com buchinho. Daí vovó cuidou também do filho dela, igual havia cuidado de mim, da Marisa e do Paulo. O piazinho chamava Murilo; “Murilin”, como vovó dizia.

Ouvi na escola a professora dizer que primo num pode casá cum primo. Tem muito risco de vir bebezin problemático. Mas Murilin era uma graça. Nenhum defeito, tudo no lugar. Se bem que depois de um tempin percebeu o povo todo que o filho não era de Paulo não. Não parecia nadinha com ele. Foi um reboliço no bairro todo. Não se sabia mais quem na vizinhança era o pai, porque a prima Marisa brincava muito nos pênis de todos garotos.

Paulo me acusou de ser o pai; eu acusei o vizinho, o vizinho acusou o vizinho do lado, e o vizinho do lado acusou aquele outro vizinho mais distante e assim foi-se um acusa-acusa, um deus-nos-acuda danado.

Naquela época ficou por isso mesmo.

Murilin passou a ser de todo mundo. Curria dum quintal pro outro e cada fiô de vó e cada rapazote via no garoto um pouco de si; “pode ser que seja meu, quem é que vai saber?”. Eu com meus botões, pensava: “é um menino de muitos pais”.

Ele tinha um certo trejeito que lembrava meu andado, mas eu tinha um trejeito que lembrava nosso avô, Seu Gervásio. Quanta dúvida me abatia: Murilin era meu ou só andava no modo de andar dos homens da família? Mas o primo Paulo não tinha esse mesmo andado, talvez ele nem fosse da família, quem é que vai saber? De medo, treinei meus dois juelhinhos para pisarem diferente, de um tal modo que ninguém relacionasse meu andado com o dele. Uma vizinha, um brotinho de menina que eu me engraçava sempre que dava, disse um dia: “o andado do menino… veja… como parece…”. Corei, fiquei com muito medo. “Como parece com o andado do Seu Gervásio”. Ufa, me safei, maravilha.

A prima Marisa era bonita, mas muito saidinha. Se o piazinho fosse meu filho, queria que tivesse uma vida boa, com pai e o com mãe, tal como não foi o meu caso e nem o da própria prima Marisa e do primo Paulo. Vovó via tudo de canto de olho. Nunca dizia nada. Só abria o sorriso e fazia bolo de fubá. Bolo de fubá unia todo mundo. Parecia fogueira. Cada um com uma xicarazinha de café, aquele cheirinho se espalhava pelo ar. Tinha gosto de quintal, tipo carnaval. Agrupavam-se todos os vizinhos e vizinhas entorno da mesa grande da vovó.

A meninada ia se apertando, se espremendo e quando menos se percebia, cada um tava prum lado do terreiro. Cada dia eu me engraçava com uma rapariga diferente. Com a prima Marisa foram tantas vezes que perdi a conta. Era um tipo de coisa que nem se pensava, as vezes nem se queria muito: era algo que só se fazia, terminava, já se ia… Vovó sabia, nem ligava. Daí virava a esquina já via uma outra saia, outras bolinhas, uns peitinhos bonitinhos e tudo recomeçava.

Um jogo de sim… não… sim… não… Num sei o quê, que num sei quê-lá, mas no fim dava tudo certo; eu saia satisfeito, as raparigas, satisfeitas. “Cú-doce”, era o que eu dizia para elas: “Largue disso, largue de fazer cuzinho-doce, moça”. Num sei o que vinham ni-eu, mas no final sempre dava certo. Simplesmente acontecia.

O vovô empinava o nariz, muitas vezes, por um motivo bem estranho: ele se sentia o maioral por já ter vivido mais do que seu falecido pai, meu biso que nem conheci. “Ele viveu 76, eu já estou com 79”, era o que vovô dizia. Sentia-se como que vantajoso por ter vivido mais que o próprio pai, tal como se finalmente pudesse olhá-lo de cima para baixo somente por causa da idade: o tanto de rancor que cabe no coração dos velhos é coisa que só os velhos podem entender. Vovô não parecia calcular que se o pai dele ainda estivesse vivo, não teria como tê-lo alcançado em idade, porque como a vovó dizia e ele nunca entendia: “A diferença das idades é sempre igual, homi!”. Daí era a vez do vovô em olhar de cantinho, fazendo-se de bobo, como quem não queria entender. E de tanto não querer entender, não entendia de fato. Daí ele saia de fininho, dando o assunto por encerrado.

Numa ida rotineira ao doutor, vovó ouviu falar num tal de exame de DNA. A informação chocou a vizinhança toda e foi uma polêmica daquelas. Era um tipo de coisa que nem se deveria mais remexer. Todo mundo já estava satisfeito em ter tirado casquinhas da prima Marisa e retribuíam muito bem tratando Murilin como deus: não lhe faltava nada além da verdade sobre a paternidade; e o menino já ia somando seus onze, doze anos quando tudo isso aconteceu.

O assunto estava morto, mas vovó cismou de vez e ninguém lhe tirava da ideia que era assunto urgente saber quem era o pai de Murilin. Daí até a própria Marisa cismou; e Paulo, gratuitamente comprou a briga; todos movidos pela curiosidade e pela polêmica.

Foi um pega-pra-capar geral e até o menino Murilin começou a se convencer da importância em ter um único pai, ainda que sem muita clareza do porquê. A mãe Marisa dizia sem vergonha nenhuma quais podiam ser os candidatos e somavam-se pouco mais de vinte e cinco, incluso eu e sem contar uns que ela dizia “não lembrar direito”. Havia uns que, dizia ela, “já nem moram mais no bairro”. E vovó saiu catando fio de cabelo de toda rapaziada, dizendo que era “pro teste do DNA; que o médico precisa e não-sei-quê-lá”. Foi um sarro. Só um tal do João Augusto que morava na rua de trás que deu um trabalhão. Isso porque a mulher dele, uma crente miserenta metida à besta não deixou a vovó relar nos cabelos dele: “fi dos zoutro, os zoutro que cuide!”, a rua toda ouviu ela gritar, pra mais de vinte vezes. Vovó checou com a prima Marisa se as chances de ser do João Augusto eram grandes, e ela disse que com ele havia se engraçado poucas vezes. No final de tudo desistiu-se de pegar os cabelos dele.

O vô que foi levar a vó com os fiozinhos de cabelo para fazer o tal do exame. Nos dias de espera a vizinhança toda ficou meio calada e até os tratos com o Murilin mudaram; quem antes lhe dava dez biscoitos, agora estava dando cinco; quem brincava meia hora, agora passou a brincar apenas quinze minutos e o fiô que era de todo mundo, por um tempo passou a ser de ninguém. Deu-se que num finalzinho de sexta-feira de tardinha, chegou pelos correios a cartinha. Lá dizia, bem assim: “100% de compatibilidade da amostra comparada entre o genitor Joaquim Silva e o filho, Murilo Silva”.

Joaquim sou eu.

2 – Fui-me embora

Não pensei muito, não. Assim que vi o resultado do exame já fui planejando tudo: pedir minha priminha em casamento e arrumar uma vidinha modesta, numa casinha igualmente modesta, junto do pequeno Murilo, que agora eu via com outros olhos: era meu, meu! Quanta emoção. Embora não pudesse entendê-la nos motivos, sentia a força de sua intensidade: ora, no momento em que se torna pai, a vida se divide entre antes e depois, tal qual o calendário, que se divide a partir da morte de Cristo.

A tristeza de Murilo, porém, era evidente. Vi nos olhinhos dele que a coisa não se desenrolou como ele esperava. Não se sabe exatamente o momento que se torna filho tal como se percebe o momento em que se torna pai. Todo mundo é filho de alguém, ainda que não tenha pai nem mãe. Disso entendo bem.

Murilo certamente preferiria que o exame revelasse que ele fosse filho do velho Inácio, amigo do vô Gervásio, que sempre lhe tratou como príncipe. Trazia-lhe balas, paçocas, doce de abóbora, pé de moleque; brincava, rolava no chão, gastava muita energia com Murilin. Que a prima Marisa se enroscava no pênis do velho Inácio era coisa que todo mundo sabia. Até mesmo parecia haver certo romance na troca de olhar dos dois e era fácil ver que ela tratava o velho Inácio melhor do que qualquer um. Eu acho, de verdade, que o velhinho enfiava algum dinheirinho na calcinha dela, talvez por pena num sei diquê.

Para Murilin, até mesmo o sobrinho mais velho da vizinha parecia ser um pai preferível que a mim. Foi aquele rapaz que o ensinou a soltar pipa e deu para ele de presente um velho carrinho de rolimã. Mas como era o nome desse rapagão mesmo? Nem me lembro. O que não sai de minha cabeça é o rostinho acuado de meu filho. Assim que soube que eu era seu pai, deixou escapar dos lábios um tristonho “do Joaquinzinho…”, como se quisesse dizer “por essa não esperava…”. Óh desastre! Ele nem conseguiu esconder. Olhei nos olhos dele, mas ele não olhou nos meus.

Naquela mesma sexta-feira, já tarde da noite e ainda sob a poeira das fofocas do bairro, puxei a prima Marisa de ladinho, quase que detrás da casa dos avós e perguntei sem rodeios: “Prima… Quer casá comigo?”. Ela não respondeu nada, foi logo virando aquela bundinha que é uma belezinha e baixando a calcinha; sem demora, cuspiu na mão e molhou a coisinha. Que desastre.

Foi nesse momento que percebi que ela não batia bem. De verdade, antes desse momento, nunca tinha me dado conta. Coloquei ela de frente e insisti: “Falo sério, casar de papel passado, morar junto, cuidar de verdade do Murilin…”. Daí ela subiu a calcinha e saiu muito brava. Acho que ela não entendia a gravidade daquele exame que a vovó inventou de fazer e de certa forma, tentava fingir que nada havia mudado. Si bem que quando ela virou as costas e me deixou sozinho, bateu em mim um arrependimentozinho: podia ter brincado com a bundinha dela.

Mas aquele olhar que ela lançou direto para minh’alma e que me fisgou de dentro do cabelo dela que ia voando pelo meio daquela carinha esquisita, deixou tudo muito claro: nunca mais eu tocaria naquela bundinha. Uma tristeza total. Ganhei um filho, perdi uma prima. Em verdade, uma amiga da vida toda. Sabê-se-lá o que se deu. Brasileiro num gosta muito de conversa fiada, resolve-se tudo na luta de espadas contra o pêssego de seda. Mas esse tipo de luta ninguém ganha. Todo mundo sai desgastado. Dá briga, desengano, tapa na cara. É um mal das mulheres… Fazem cu-doce para tudo. O mal do homem é gostar tanto disso que elas fazem. Na verdade, eu me derreto todo.

Fiquei sem entender, mas nunca mais cheguei perto da priminha. Naquela mesma noite, soube que ela foi se engraçar na rua de trás e parece que não foi com um só. Foram três ou quatro e todos duma única vez e por revezamento; essas coisas sempre se espalhavam, mas não surpreendiam mais. Não era novidade não. Sempre acontecia quando ela se magoava por alguma bagatelinha. Até a vovó sabia. Mas vovó não era exemplo de nada e as histórias de velhinhos que se reuniam entorno da nossa casa sempre deixavam escapar, o “quanto era muleca essa vovó, nos tempos em que as tetas dela ainda paravam em pé”. Vá-lá! Quanta pouca vergonha. Minha santa vózinha! São coisas difíceis de imaginar, mas servem ao menos para alargar o pensamento e eu sou afeito às ideias absurdas.

Depois disso tudo, todo mundo mudou muito. Murilin agora tinha pai, mas será que eu tinha filho? Difícil de saber. O fato é que ninguém mais cuidava do menino como dantes e todos falavam de cochicho que “quem tem dever de cuidar do menino agora, é o pai dele”. Vi minha vida desabar. Morreu o rapaz alegre e bem aceito que eu era, o amigo de todos, o mais prestativo e o bom companheiro e então tinha de nascer o homem. Quem era o homem? Passaram então a ver-me como um homão formado, por isso, incapaz de ser engraçado. “Se foi capaz de fazer o filho, agora tem que ser capaz de criar”.

Meu coração rachou de ver o mal trato que fizeram com Murilin. O menino que tinha tudo, agora não tinha mais nada. Ele tinha todos e com toda intensidade, agora não tinha ninguém e nem mesmo migalhas. Nem eu, nem Marisa, nem a vizinhança. Só mágoa. “Maldita hora, vovó, que arranjou esse exame pra dar problema onde não tinha nenhum!”. Vovó chorava escondida. De madrugada era possível escutar o soluço dela. E se vovó estivesse triste, não tinha bolo, não tinha café, não tinha reunião, não tinha sassaricação e era só tristeza mui profunda, profana, até. Quanta saudade tenho daquelas fogueiras.

O povo grego com suas estranhas mitologias, conta que Hefesto, deus do fogo, era homenageado com um fogo que nunca se apagava: todo dia e toda hora o povo fazia de tudo para manter sua fogueira acesa. Só uma vez por ano é que se apagavam o fogo: nesse momento o rancor dos homens devia se apagar também e quando o fogo fosse novamente acesso, então tudo estaria renovado. A paz reinaria. Onde foi que aprendi tal coisa? Difícil dizer. Mas tal ideiazinha me dava alguma esperança, pois assim como quem sobe tem que descer, quem se entristece tem de se alegrar.

Numas noites estranhas andei sonhando o mesmo sonho. E era sempre com Adão e Eva. Adão era eu, Eva era Marisa. Daí, Deus tinha a cara do Murilo. Murilo me dizia: “Eva está pecando, comendo o fruto proibido”. Acordava num suador danado. Mijava e voltava a dormir. Daí o sonho continuava: vinha uma cobra e andava pela cama, botava um ovo na minha mão e dizia: “essa bundinha, nunca mais você vai ver, nunca mais você vai ver essa bundinha”. Então, acordava berrando e não dormia mais.

Um dia Murilin passou na porta do meu quarto e nossos olhares se cruzaram. Tenho certeza que ele gelou dos pés a cabeça, tal como eu gelei. Mas os passinhos dele foram indo, indo e indo e não voltaram. Ficou por isso mesmo – tipo de coisa que machuca muito, muito mesmo. Mais por instinto de pai do que por responsabilidade, decidi me afastar. De tal forma, daria ao menino, de novo, motivos para sorrir: talvez assim todos voltassem a tratá-lo como dantes. Numa manhãzinha de sábado, quando o bairro todo ainda dormia, arrumei uma malinha e dei no pé. Antes, porém, deixei uma cartinha debaixo da porta do Murilin. Transcrevo-a aqui, em meio a este diário, pois me lembro dela de cabeça.

Não sei como dizer, não sou muito de palavras. Não sei porque estou indo, mas estou. Um dia volto. Espero que seja feliz. Teu pai, Joaquim.

3 – Ponto de parada

Depois de partir me peguei pensando como é que confiamos tão cegamente assim na tal da ciência… Um exame feito pelo médico e toda comunidade foi-se pelos ares. E se o exame estivesse errado? Não deveria de estar, mas e se estivesse? Gente que nem eu, tem de confiar na ciência sem muito porquê. “Foi o doutô qui disse”, é como a gente diz, e “se o doutô disse, deve de ser verdade”. Mas quando foi que os médicos ganharam tanta autoridade? A gente ora pra deus, mas quando o bicho pega, é no médico que a gente confia.

Não que eu não goste de médico, mas a tal da ciência mudou minha vida. Sem casa, sem vovó, sem conforto, sem lar, sem coisa nenhuma dentre aquelas que sempre fui acostumado. Tive de passar um tempinho na rua, eu e minhas mágoas. Sem plano nenhum, minha ideia era ir para São Paulo. Não tinha motivo certo, apenas sabia que esse era o caminho tomado por todos aqueles que não sabem para onde estão indo. “Lá eu me viro”, pensava; e se não me virasse, “alguém me viraria”. Em São Paulo alguma coisa sempre acontece, seja pro bem, seja pro mal. Convenci-me disso e fui devargarzinho, andando muito e pegando muita carona de caminhão. Caminhoneiro é um tipo de gente que me entende. Simples na palavra, complexo no sentir. Pense só, passar o dia todo virando volante e prestando atenção na estrada. Tem um certo charme nisso.

Mas mais do que charme, um cheiro esquisito: gordura misturada com graxa. Não, caminhoneiros não comem bem. É um tipo de nutrição esquisita: arroz carreteiro, farofa de ontem, barriga, pelos, jeito exagerado. Vão assim, cortando o Brasil, dum lado pro outro. Enquanto isso, fura um pneu aqui, deixa-se uma dívida acolá e as raparigas vão sempre se enroscando por toda parte: uma na lona da carreta, outra no retrovisor, outra no volante, no motor, no para-brisa… A vida do caminhoneiro é um tipo de dança estranha; um deles me disse: “Tenho filhos no Norte, no Sul, no Oeste e no Leste. Tenho uma casa em cada Estado, uma mulher em cada cidade”. Encantador! O que é que falta para o caminhoneiro além de amor e dinheiro? Não falta nada. Comida gordurosa e mulheres formosas sustentam um corpo molengão junto de uma mente perturbada; virar volante é fácil, difícil é se manter acordado. O que um homem precisa para viver além de um problema? Não precisa de mais nada. Uma doença, uma conta para pagar, um frete para completar, uma bundinha para apalpar, um doce pra comer, um tumor, um filho… Pois é, um filho. Quantas saudades de tudo.

Mera fumaça que tinha de esquecer! Eis de ter gente nova e novos prazeres em outros lugares. Um novo lugar, uma nova chance de errar. Enfim, São Paulo, enfim o engano: não há prazer em São Paulo; há gente, mas não há pessoas.

Prédios, pedras, carros, fios, encrenca, gritaria, caos. Sol, chuva, mais chuva que sol, nuvens escuras, dor pra todo lado, gente, muita gente, gente pobre, os ricos são rápidos, mas os pobres nunca vão embora; eles me rodeiam, me sujam, sou parte deles, sinto o cheiro forte da pobreza por toda parte, esse cheiro também é meu? Sim, é. Tintas na parede, juventude estranha, politicagem por toda parte, futebol, crime, correria, um vai e vem infinito; não se sabe quando o vai e vem começou nem quanto vai terminar. Um cheiro insuportável de sovaco, cadáver na esquina, sangue, trânsito, cor estranha, escada rolante, metrô, tiroteio, polícia, multidão. Gordura, coxinha frita, papelão, crack, água suja, favela, cidade sem fim.

Enfim, me sinto em casa. Acostumei-me com o caos, tornei-me parte dele. Nem percebo mais. Ano entra, ano sai. O que faço aqui? No princípio, fábrica, aluguel e cafezinho. Amarrei, pois, o meu bode numa pensãozinha. Rapariga vai, rapariga vem; cervejinha de fim de semana, trabalho escaldante de segunda a sexta; depressão, fumaça, cigarro. Virei fumante. Fumar é bom, muito bom. A fumaça faz carinho nos pulmões, mas também fede. Parei de me importar. E lá vem de novo, a imagem de Murilin, como um espectro. Ano vai, ano vem, me bate na porta uma proposta: há trabalho melhor, no norte do Paraná. Passados três anos sofríveis em São Paulo, fui parar em Maringá. Lá no norte do Brasil, onde eu morava, nunca tinha ouvido falar.

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