Ensaio
Casamento
Para se viver um bom casamento deve-se mirar o amor, não a felicidade.
Sejamos sinceros, o casamento, nada mais é do que um castrador do instinto. Uma forma de possuir poder sobre as escolhas e vontades do outro, uma forma de firmar uma ilusão o qual tem aprovação da maioria da sociedade lá fora. Ser casado, sempre foi um atestado de seriedade, respeito e principalmente de “boa gente”. O desespero por unir-se “na saúde e na doença, na tristeza e na alegria, até que a morte nos separe” é uma vontade egoísta em queremos parecer respeitáveis para com os outros.
Eis a pergunta: seria realmente possível o amor verdadeiro e a felicidade no casamento? A começar, creio que entre o amor e a felicidade há uma contradição terrível. “Um casamento feliz”, para mim (que sou casado) é um dito estranho. É impossível que duas pessoas que moram juntas e tenham filhos sejam totalmente felizes, especialmente no mundo moderno e dilacerado (em todos os sentidos) do qual nos encontramos. Elas podem até mentir dizendo que são felizes. Essas pessoas podem ter ótimos momentos juntas, mas felizes (talvez no sentido de completude e eudaimonia aristotélica)? Isso duvido. É só o amor que dá força para que as pessoas suportem o peso de obrigações domésticas e deveres conjugais. Diante disso, a felicidade não é o mais importante. Para se viver um bom casamento deve-se mirar o amor, não a felicidade.
O bom no casamento é justamente o contrário da felicidade: é o querer superar junto quando não se podia superar sozinho. Essa experiência inevitavelmente traumática, no entanto, é como o sal da vida. É como a soma de momentos que são terríveis, mas ao mesmo tempo inesquecíveis e marcantes. O objetivo de somar brigas, discordâncias que terminam em negociações morais, filhos, traumas, vendo por esse lado, é mais plausível numa visão cosmológica do que a simples felicidade de solteiro solitário, mas, claro, não aquele solitário triste e sim aquele que desfruta de uma bela vida. O objetivo a ser superado no casamento é: alcançar a solitude, mesmo vivendo a dois. Uma solitude deve se somar a outra, não para que as brigas e conflitos da dialética conjugal deixe de existir, mas para que ela seja superada com mais velocidade. Mesmo a dois, é preciso encontrar o equilíbrio da individualidade. O importante é apenas não ir dormir emburrado. Quem dorme emburrado encuca o emburramento e quem encuca o emburramento fica apto a trair e casamentos não suportam traição.