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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

Consciência reflexiva

O grande momento no pensar, é fazer-se antena.

Consciência reflexiva

Como é que se reflete? Eis uma pergunta importante que todos deveriam se fazer ao interrogarem a si mesmos na busca de deixarem de ser escravos de si. O motivo disso é que, creio eu, cada homem deve de encontrar uma forma particular sobre como refletir, não existindo apenas uma forma para fazê-lo. É comum sentirmos na leitura de livros de filosofia a maneira pelo qual cada autor pensa. O ato de escrever parece desvendar isso. Que sirva de exemplo, Kant, tem uma reflexão sistemática, onde tudo se traduz em camadas que se encaixam como um quebra-cabeça. Essa não é uma maneira simples de se refletir, pois ao que parece, é uma reflexão sempre preocupada, sempre muito atenta. Schopenhauer, também é cauteloso como Kant, mas há nele um leão que vez ou outra dá rugidos assustadores. Mas, se colocarmos Nietzsche nesse círculo, e aplicarmos a ele o mesmo exemplo, ele não seria apenas um leão que ruge, mas que não se satisfaz em rugir e então, faz questão de correr atrás de outros animais e matá-los (mesmo sem estar com fome). Nietzsche é um assassino da moral ocidental, por isso soa como um refletidor louco.

Ainda que sirva de outros exemplos clássicos, Voltaire, soa como um pensador cômico ao mesmo tempo que fala sobre coisas sérias. Foucault como alguém centrado e demasiado criterioso, Machado de Assis, como uma alma que vaga pelas ruas do Brasil, Jorge Amado, como uma cachaça baiana, etc.

Eis então que voltamos à questão, como soarias tu, se fosse um escritor? Como é a forma que você reflete? Ao que diz respeito ao pensamento reflexivo particular já foi dito o bastante. Portanto, agora, pretendo descrever minha própria maneira de refletir. Não para se firmar um conceito de “como se pensar corretamente” ou para dar razão a algo que seja extremamente arrogante, como uma forma de dizer “é somente assim que se pensa corretamente”, mas, a intenção expressa em fazer isso é dar razão ao que já está exaustivamente colocado aqui: o fato de que só posso falar por mim (e que, por conseguinte, cada um só pode falar por si).

Primeiro, refletir é permitir que o pensamento esteja livre entre passado, presente e futuro. O grande momento no pensar, é fazer-se antena, absorvendo tudo que parece útil ao foco daquilo que se pretende pensar, estando ao mesmo tempo disposto a conceber conclusões. Todo pensamento atual deve ser conclusivo em relação ao pensamento anterior. Em segundo lugar, a reflexão deve ser encantadora e persuasiva. Pensemos num rádio que está ligado numa estação, e ao começar uma forte chuva, o sinal começa então a variar, perdendo a qualidade da estação, eis então que o ouvinte que antes estava encantado com a música que tocava se chateia. A música deixa de ser emocionante. Por isso refletir é como corrigir chiados de uma estação de rádio durante uma tempestade. Refletir é abrir as janelas de casa enquanto o tempo lá fora está absolutamente louco e inconstante, fazendo zumbir as portas e os móveis da casa, derrubando os copos da pia, e, então, deixar com que os pingos de chuva encharquem as cortinas, mas a casa (consciência) continua de pé, e seu refletidor (morador, eu), continua a ouvir a música (reflexão) perfeitamente.

São situações extremamente incomodativas a que enfrenta aqueles que mascaram a história do pensamento. A reflexão é sempre uma teimosia que incomoda. Ninguém diz que é feliz por pensar ou por refletir, no entanto, refletir e pensar causa sensações de prazer. Mas e então, como é que se conclui uma reflexão? Primeiro, jamais se desliga o rádio, mas sim se abaixa o volume, depois, jamais se deixa de refletir, mas sim se adormece por algumas horas. Jamais se deixa a consciência, mas sim se morre e fecham-se as janelas. Finalizar uma reflexão é como a morte (é impossível que não aconteça).

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