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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

Crentes, de terno e saia

Meu deus — que existe apenas na minha cabeça, como um daimon — ama a nudez, não apenas a das roupas e do corpo, mas também a nudez moral da maçã descascada.

Crentes, de terno e saia

Eis que um crente, ao deparar-se com a minha visão a respeito do casamento possa vir a ter qualquer tipo de argumento para rebatê-lo. O fenômeno é muito bem explicável, são como animais que aceitam a castração. Eles não aceitam a solitude como sendo algo a se almejar, mas sim, algo a se fugir. A solitude é suprimida por um amor conjunto (conjugal), pela adoração a Deus. Não consigo ser menos louco e deixar de dizer: onde esse povo encontrou um Deus tão tosco? Esse Deus castrador da liberdade tende a causar uma ilusão dentro da outra, ou seja, uma nova ilusão dentro da ilusão do casamento. Então, o casamento deixa de ser um caos desejável para se tornar uma convenção sagrada.

Ter uma legião de filhos, leva-los para a igreja, batiza-los, pagar-se de bom moço. Algumas pessoas simplesmente não nasceram para isso, no entanto, uma multidão vive se culpando por não ser assim. Reconheço que há de ter gente feliz, contente e satisfeita com seu parceiro, isso é razoável. E dirão eles: o importante é ser simples. A única coisa que consigo enxergar nisso é que complicaram a simplicidade. São necessárias tantas castas para se alcançar essa vida simples e idealizada… Uma religião, um casamento, filhos, batismo, água benta, etc. Desse modo está pronta uma nova geração para vender a culpa simplesmente por andarem pelas ruas de terno e saia no joelho, e claro, com suas bíblias em baixo do braço como se fossem detentores do “segredo do universo”; os únicos capazes de respeitarem o próximo e que condenam qualquer crime ou transgressão metafísica. Em síntese, ainda que isso possa parecer demasiado desrespeitoso: para se ser crente, é preciso ser tosco.

Meu deus — que existe apenas na minha cabeça, como um daimon — ama a nudez, não apenas a das roupas e do corpo, mas também a nudez moral da maçã descascada. Há uma crença mais verdadeira do que a daqueles que se despiram das convenções e amam os deuses na solitude, sem querer mostrar nada para ninguém? Eis que adorar a deus, nesse caso, torna-se de fato verdadeiramente simples, sem rituais, sem obrigações, sem compromissos, sem hora marcada, mas sim, apenas porque sente que no momento x ou y, o coração sente-se confortável para fazer o corpo ajoelhar-se.

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