Ensaio
Filosofia dos feijões: um ensaio sobre o tudo e o nada
A omissão a respeito da morte é o primeiro golpe que toda criancinha leva contra seus impulsos filosóficos naturais.
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Quando eu era bem pequeno, na escolinha em que estudei, realizei diversas experiências sobre o cultivo de feijões. Em geral, essas experiências tinham uma motivação pouco elucidativa e assumiam meramente o papel de explicar a germinação através do entretenimento. Cada criança tinha o seu copinho de feijão e todas observavam diariamente o desenvolvimento das sementes, regando-as regularmente segundo as instruções da professora. A meu ver, a simples experiência de plantar feijões foi e continua sendo subestimada, pois as professoras, em geral, limitam-se a realizá-la no jardim de infância para fazerem as crianças sorrir. Este ensaio irá mostrar que há um valor forte – filosófico e científico – por trás da simples experiência de plantar feijões e também mostrará como tal experiência pode ser salutar para a educação até mesmo de jovens e adultos. Naturalmente, o leitor filósofo poderá, de início, com seu olhar naturalmente cético, subestimar a força desse breve escrito, no entanto, espero poder convencê-lo sobre a potência existente na filosofia dos feijões.
Toda semente guarda dentro de si uma potencialidade. Do mesmo modo, todo ser humano guarda dentro de si uma potencialidade. Potencialidade significa a capacidade de tornar-se outra coisa, totalmente diferente. É exatamente isso que se almeja a partir de uma educação que idealize um futuro melhor. Aliás, se uma educação não é idealizadora e não sonha com a transformação dos educandos para que se tornem melhores do que estão e do que foram, então ela de nada serve. Claramente, de uma semente de feijão não irá germinar uma abóbora, tal como não se pode esperar que de um casal de humanos nasça uma ovelha. É assim que se pode dizer que toda coisa orgânica possui um potencial biológico determinado na perspectiva de seu desenvolvimento, tal como, todo organismo necessariamente tornar-se-á – com o seguimento natural de sua existência – inorgânico. Em outras palavras, toda coisa viva possui inerentemente o potencial de morte; é nesse sentido que se pode falar aqui, em um ensaio sobre o tudo e o nada.
A conclusão da experiência com feijões normalmente é negligenciada pelos professores de educação infantil. Eles pouco se preocupam em mostrar para as criancinhas a morte dos feijões e menos ainda em dizer a elas que, tal como os feijões, elas também irão morrer. Você pode pensar que talvez seja cruel, em uma sala de aula com crianças pequenas e fofas, dizer a elas que elas irão morrer; pior ainda, que a vida delas é proporcionalmente tão curta quanto a vida dos feijões, mesmo que elas se tornem pessoas centenárias. Essa negligência é o primeiro golpe que toda criancinha leva contra seus impulsos filosóficos naturais: não explicar a elas que irão morrer e tornarem-se inorgânicas como os feijões, é esconder delas a verdade sobre a vida. Antes disso, inculcam em suas pobres cabecinhas valores religiosos sem nenhum fundamento na experiência.
Se as experiências com feijões fossem levadas realmente a sério, teríamos uma sociedade mais vibrante em que a moralidade seria uma consequência da observação do mundo e não do não-mundo. E não venha pensar que falo por analogias ou por brincadeirinhas: a experiência com feijões é de fato instrutiva e tem poder de avançar dentro das salas de aula por ideias diversas, como, por exemplo, a noção de propriedade privada (pois cada aluno é o dono do seu copo de feijão e cuida dele como se cuida do próprio corpo), de cultura (porque todo alimento é parte dos costumes de um povo) e da filosofia (porque na semeadura das sementes está presente tudo que se precisa para filosofar bem: a vida e a morte, isto é, o tudo e o nada). Os assuntos de inclinação metafísica e demasiado abstratos, no entanto, não deveriam ser explicados para criancinhas, ainda mais se explicados de modo sério, como se fossem verdadeiros. Temas de inclinação metafísica devem ser limitados às cabeças que já deram um passo à frente da ciência, por isso, apenas adultos e idosos estão prontos para isso.
Tive a grande sorte de ter um pai e uma mãe indiferentes à religião e me assustei quando em meu desenvolvimento infantil percebi que as pessoas e as outras crianças criam em deus como sendo uma verdade inquestionável: para mim foi um choque total e um novo mundo completamente estranho se apresentou para mim. Tive problemas graves por questionar a existência de deus na escola, até, enfim, ser adaptado e engolido pelo modo de educação cristã, que, para deixar de ser visto como diferente, inclinei-me ao batismo por conta própria aos quinze anos, mas felizmente, passado mais alguns anos, voltei novamente à minha origem pura e livre de superstições. Raramente, no entanto, se encontrará uma criança que tenha a sua inclinação filosófica preservada por tanto tempo, tal como foi a minha. Antes, fazem nelas uma lavagem cerebral e inculcam pensamentos medievais, a que elas não estão prontas para decidirem se querem ou não querem aderir. Os adultos levam as pobrezinhas para as igrejas e as batizam inadvertidamente, contra sua vontade e contra sua consciência livre. Para mim, isto é um abuso intelectual dos mais graves.
Os feijões são muito mais salutares do que as religiões. Eles mostram, de fato, o que acontece com todo ser vivo: o nascimento (germinação), a vida em seus momentos de prazer e dor (o vento, a chuva e o sol) e, enfim, a morte (a filosofia). A especulação sobre o que há antes do nascimento e principalmente sobre o que há depois da morte é tarefa que seriamente só pode ser assumida pelo espírito filosófico e não pelas respostas prontas e enlatadas fornecidas pelas religiões: nós poderíamos levar a resposta religiosa mais a sério, apenas se elas tivessem a hombridade de respeitarem o desenvolvimento infantil e esperarem com que a razão florescesse no intelecto das crianças antes de seu ataque dogmático. Não há debate claro a respeito do que há depois da morte, com alguém a quem foi desde cedo inculcado em fantasias.
Os professores de educação infantil poderiam começar as experiências com feijões fazendo a seguinte pergunta: onde estava a planta antes do feijão germinar? Ao fim da experiência, quando o pezinho de feijão se mostrar todo seco e realmente morto, a pergunta deve ser outra: para onde foi a plantinha e a sementinha de feijão que até poucos dias atrás estava aqui inteiramente viva bem na nossa frente?
Deixe então as crianças responderem livremente, e se verá preservado o impulso filosófico, genuíno e puro da infância. Mas, ao contrário disso, antes de apresentarem a morte dos feijões, eles enfiaram goela abaixo das pobres criancinhas, que as sementes brotaram por meio da força divina e sequer tentaram estabelecer uma discussão relativa à morte ao final da experiência. Sim! Os professores de educação infantil cometem um crime contra a sanidade social quando descartam os copos de feijão assim que o interesse dos alunos pela experiência acaba. Essa é a educação baseada no entretenimento e é por isso que as ideias de deus, alma e toda parafernália religiosa ganham espaço: tudo isso entretém as crianças e assim, de tanto rir, zombar e temer, a coisa se torna séria: um novo adulto religioso está pronto e formado. Deus, anjos, demônios e todo tipo de superstição, que na infância eram meramente frutos do entretenimento e da imaginação, tornam-se agora verdades inquestionáveis e fundamentais. É assim que a raiz da sociedade se tornou enferma e fundamenta em uma tristeza secular: a ideia de que é preciso se salvar antes que o tempo acabe. Qual tempo? O tempo de uma vida. É necessário, pois, explicar para as crianças que, tal como os feijões, elas não precisam se salvar de nada.
— Onde está, então, o sentido da vida? – Supomos que pergunte assim, uma criança filósofa, um gêniozinho do jardim de infância. E nós a responderemos:
— Não há nenhum!
Nós, então, estaremos prontos para desfrutarmos a vida, sem nenhum compromisso com os céus, pois perceberemos que somos os grandes sortudos da existência. As crianças firmarão então os seus olhinhos umas nas outras, com todo o amor e exaltação, alegres e contentes por ninguém as ter escondido a verdade. O professor, poderá, assim, dançar alegre entre as carteiras e fileiras e chamá-las para cantar: “Sentido da vida? Não há nenhum! Sentido da vida? Nenhum! Não há!”.
— Mas então, por que estou vivo? – Perguntará novamente nosso geniozinho.
— Para dar sentido à sua vida, o sentido que você quiser! – Responderemos.
Assim, nossa experiência com feijões estará bem conduzida, pois poderemos explicar para as crianças que a grande vantagem do ser humano em relação às outras espécies é poder criar o seu próprio fruto. Se por um lado, da semente de feijão, nascida no centro de um copinho de plástico, cresceu uma linda plantinha, sendo desta, determinada o nascimento de pequenos feijõezinhos, por outro lado, das crianças livres do dogmatismo religioso, irá nascer o que elas quiserem e o que a sua filosofia for capaz de criar e determinar para si mesma.
Um ambiente saudável é tudo o que uma planta precisa. Um pouco de sol, vento e nutrientes. A religião é sempre uma erva daninha. Do mesmo modo, diremos para as crianças: um ambiente saudável é tudo o que vocês precisam: um pouco de amor, conhecimento e verdade. De uma, brotarão os frutos fortes e firmes desde que o ambiente esteja regulado de maneira propícia, da outra, uma vida alegre e criativa; livre de todo mal, de toda crise, ruptura e fantasia.
Aqui está um outro ponto importante: as experiências com feijões, nos moldes que normalmente são realizados pelos professores de educação infantil, não fazem a prática principal, que é a da criação de uma simulação social da disputa e do poder. Eis, pois, mais uma vez, pela ignorância desses professorezinhos teístas e deturpadores da razão infantil, que a verdade ficou perdida. Explico. Deve-se plantar vários tipos diferentes de feijões e não apenas o mais comum. Nas experiências que eu fiz, durante minha infância, todas as vezes, a professora da vez realizava a experiência apenas com feijões cariocas. Isso é muito limitante. Parece até mesmo que aquela professorinha queria vender a ideia de que nos céus há apenas um deus, mas, ou há vários, ou não há nenhum. Dessa maldição e terrível incompreensão, vemos novamente surgir uma educação do entretenimento. A simplicidade do brasileiro é um escândalo. A experiência com feijões deve ser feita tendo em vista a seleção natural ou a luta pela existência do mais apto. Sem essa rubrica derivada de Charles Darwin e de Herbert Spencer a experiência com feijões é um mero parque de diversões. Mas apenas para aplicar o espírito corretivo, na verdade, a experiência com feijões trata-se de uma seleção artificial – o próprio fato de o professor dar para os alunos feijões inteiros e saudáveis (e não os podres e estragados), já mostra parte do poder seletivo inconsciente empregado na experiência. Deve-se, pois, jogar os feijões de diferentes cores (mesmo que sejam da mesma espécie), em um mesmo recipiente e esperar que eles travem uma competição por luz e nutrientes, explicando para os aluninhos que os feijões estão todos recebendo a mesma quantidade de água e sendo expostos à mesma luz. Além disso, o professor deve estimular as pequenas criaturinhas a apostarem em qual dos feijões cultivados acreditam que irão brotar primeiro: trata-se de um mero jogo educacional. Não é imoral ensinar para as crianças que a vida é uma competição, ao contrário, é apenas ensinar-lhes a verdade. Luiz Vita disse com inexcedível beleza literária: “a filosofia, no que tem de realidade, concentra-se na vida humana e deve ser referida sempre a esta para ser plenamente compreendida, pois só nela e em função dela adquire seu ser efetivo[i]”.
Tal como um pedaço de terra em que há diferentes tipos ou espécies de feijões disputando por nutrientes (a vida é exatamente isso, porém, adultos disputam por atenção, carinho, glória e principalmente, dinheiro). Essa é apenas a verdade, que, normalmente, demoramos de entender e sempre sobre altos custos de nossa saúde.
Deixe, pois, as crianças gritarem em uma discussão frenética, sobre se acreditam que o primeiro a brotar será o feijão branco, o carioca, o preto ou o fradinho! Vocês verão, óh homens de muita fé, que isso é saudável. Anote, então, as opiniões de cada um dos fulaninhos, pois ao passar de poucos dias veremos a realidade se confrontar com a opinião. Se quiserem realmente estimular uma moral vencedora, o bom mesmo seria permitir que as crianças apostassem a valer. Dividindo em grupos, cada um daria uma nota de dez reais em nome da sua opinião, e, ao final, o feijão que brotasse primeiro contemplaria a opinião dos vencedores. Essa seria a educação fundada na realidade de um mundo cruel, tal como ele é, e não fundado nas fantasias da Coculândia religiosa.
Ter-se-ia então, a oportunidade de refrear a força da opinião dos ganhadores e regular o desânimo dos perdedores. Dizer para as crianças perdedoras: não chorem por terem opinado mal, a verdade continua sendo a mesma: vocês ainda podem criar o seu futuro de acordo com o que quiserem e darem o sentido para vossas vidas, conforme bem entenderem. O dinheiro? Iremos queimar um pouco dele na semana que vem. Há, sim, mas não se esqueçam, crianças: há um valor positivo e necessário no dinheiro, mas agora, como professor salutar que sou, eu lhes roubarei! Corte-se, assim, a experiência pela raiz, e mostre-lhes o lado pessimista da vida: que sempre poderá vir um espertão e dar-lhes o golpe.
Mostraremos então para elas que o vencedor, na verdade, não era vencedor de nada. Então, em respeito ao espírito ético da escola e da educação, explique para as criancinhas que o dinheiro roubado será usado para a composição de uma refeição final, depois que os feijões nascerem, depois da colheita e depois das reflexões sobre a morte. Troque o dinheiro por doces e em respeito ao espírito democrático, distribua-os para todos, mesmo para os perdedores.
— Você não deveria nos roubar ou nos enganar – Dirá nosso geniozinho.
— É melhor uma dorzinha agora do que uma pior mais tarde – Nós lhe diremos, e, tão logo voltaremos a dançar, lembrando-nos dos ensinamentos do jovem professor Schopenhauer em suas anotações de aula: “O egoísmo sem limites, a insidiosidade, a malícia estão, na verdade, sempre na ordem do dia. É errado enganar os jovens sobre isso. Isso só dá a eles a percepção depois de que seu professor foi o primeiro golpista que eles encontram” (Metafísica dos costumes, Cap. 4). Lembrando disso diremos a nós mesmos: não somos professores golpistas, pois ensinamos a malícia do mundo para nossos aluninhos.
Ninguém poderá nos intervir. Nenhum pai, nenhuma mãe, nenhuma tia, nenhum diretorzinho e nenhuma pedagoga teísta medíocre. A luz da verdade deverá brilhar fundamentada na experiência, e, assim que o primeiro dos feijões brotar, instigaremos nossos jovenzinhos sobre uma hipótese eminentemente científica e lhes faremos as seguintes questões. O primeiro feijão a brotar, é também o mais forte? Se repetirmos a experiência desde o zero, esse será novamente o feijão que brotará primeiro? Por que foi este feijão que brotou e não outro? Vocês acham que o poder da crença do grupo que opinou no primeiro feijão a brotar, foi mais forte que o poder da crença dos outros grupos? Claramente, munido de nosso espírito forte e filosófico, diremos para as crianças que essa última pergunta é uma charada. Então, as estimularemos a ajoelhar e colocar as mãos para os céus, pedindo que chova. Cada uma das crianças gritará em nome do seu feijão, simulando fundamentalistas religiosos que clamam por milagres. Depois desse movimento triste e da não resposta dos céus, voltaremos a dançar, explicando para as crianças que a crença não possui poder algum, mas que a disputa é natural à toda vida orgânica. Aplicaremos um exercício muito salutar – apenas depois que todos os feijões apontarem seu caule para fora da terra –, pedindo para que os jovenzinhos criem poesias e cartinhas de amor para seus feijões. Os estimularemos a adorar seus pés de feijões como deuses, pois ali se vislumbra um mistério que nem o mais sagaz dos filósofos pôde resolver. Qualquer pergunta tola que possa ocorrer deverá ser substituída por:
— Mas de onde veio a vida do feijão. Por que ele era uma sementinha e agora é uma planta?
Deixe que eles pensem. Quando não puderem mais pensar, quando estiverem cansados, faça as poesias e as cartinhas. Deixe que os alunos colem desenhos em seus copinhos, que coloquem brinquedos em torno da plantinha e que a adorem como filhos.
— Esta é tua propriedade e tua responsabilidade, diremos.
Ao fim da experiência, quando os feijões estiverem todos mortos, as cartas, desenhos e poemas devem ser relidos para que se rememore a vida dos feijões, num exercício de fantasia pautada na realidade.
— Assim foi com os feijões, assim será com todos nós.
E assim, os alunos nos aplaudirão e nós os aplaudiremos.
É um grande mistério para os filósofos – tenho em mente o Brasil – a forma como estimular a filosofia em crianças; mas basta ser criativo e disposto a passar para elas exercícios que brinquem com a moralidade e fujam do dogmatismo. A filosofia não alcança as crianças porque os adultos, normalmente seus pais, estão com a mente cheia de preconceitos que rapidamente se empenham em transmitir aos filhos. Tudo o que eu disse acima, por exemplo, será considerado uma grande intransigência, pois sem dúvida será lido sobre o véu do preconceito.
[i] Cf. Vita, L. Texto: Filosofia e vida, em: Antologia do culturalismo brasileiro (José Maurício de Carvalho, CEFIL, 1998).