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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

Ser um pequeno filósofo ou um grande comentador?

Prefiro a oportunidade de fracassar sendo pequeno filósofo do que o sucesso de ser um grande comentador.

Eu em 1997, escrevendo minhas primeiras heresias na máquina de escrever do meu pai. O nariz estava ralado porque havia caído na pracinha. Uma pomba queria cagar em mim. Corri e dei de cara no chão. Não tinha folha na máquina na ocasião da foto, mas eu parecia muito feliz, mesmo sem folha.
Eu em 1997, escrevendo minhas primeiras heresias na máquina de escrever do meu pai. O nariz estava ralado porque havia caído na pracinha. Uma pomba queria cagar em mim. Corri e dei de cara no chão. Não tinha folha na máquina na ocasião da foto, mas eu parecia muito feliz, mesmo sem folha.

A pergunta lançada por Julio Cabrera, no excelente livro Diário de um filósofo no Brasil, é a seguinte:

O que preferes ser, um grande comentador ou um pequeno filósofo?

Não preciso nem pensar para responder. Fico com o time dos pequenos filósofos.

“Ah! Mas quanta ousadia desse pequeno filósofo… Se dizer ‘filósofo’, ainda que se escusando da responsabilidade e dizendo-se ‘pequeno’… que patifaria!”. Então, apenas para começar, usarei do mecanismo dos grandes comentadores para citar Julio Cabrera comentando Arantes:

O modelo vigente [das universidades] está norteado, como Arantes destaca tão bem, pela timidez, pela ideia de que é tremendamente difícil (digamos, praticamente impossível) ser filósofo, e que é melhor renunciar ab initio a qualquer pretensão nesse sentido. Por outro lado, ousadia reflexiva é algo que qualquer pessoa pode ter, inclusive aquelas sem qualquer talento filosófico.

Julio Cabrera. Diário de um filósofo no Brasil, 2ª Edição, Editora Unijuí, 2013, p. 86.

O dito “qualquer pessoa pode ter” pode ser uma ampliação negativa que os grandes comentadores podem usar para dizer que “nem toda pessoa pode ser filósofo”, porque, é claro, antes de ser filósofo é preciso ser um grande comentador. Mas isso é falso. Primeiro porque grandes comentadores não são ousados o bastante para se dizerem pequenos filósofos, menos ousados ainda para serem filósofos e ainda muito menos para serem grandes filósofos. Nesse último caso, dos “grandes filósofos”, dirão que é preciso, antes de tudo, estar morto e bem enterrado. Até posso, na minha pequenez de pequeno filósofo concordar. Isso porque aceito que a morte acrescenta ares de requinte e sofisticação no caráter do morto, especialmente se ele escreveu algumas coisas interessantes em vida.

Aqui, quero apenas explicar por que prefiro ser um pequeno filósofo do que um grande comentador:

  1. Ser um pequeno filósofo me possibilita criar o que eu quiser, quando quiser, por motivos pessoais ou até mesmo irracionais e esse caminho é de fato excitante, dado que, apenas eu pago o preço pelas minhas intransigências.

  2. Prefiro a oportunidade de fracassar sendo pequeno filósofo do que o sucesso de ser um grande comentador, ainda que, em geral[1], grandes comentadores recebam gordos salários.

  3. O momento que meu brasileirismo mais aparece é quando escrevo (quase nunca quando falo). Assim, se escrever é parte da atitude dos filósofos, antes então, será melhor para mim, considerar-me pequeno filósofo do que grande comentador… Embora reconheça com certo orgulho que já tenha comentado alguns europeus por necessidades acadêmicas que cumpri coordeiramente (a palavra não existe, mas, como pequeno filósofo que sou, estou validado a criar neologismos, leia-se portanto, como um cordeiro; como um cordeirinho obediente e institucionalizado).

  4. “Não vim ao mundo para ser pedra”, como diz Macunaíma, meu personagem favorito da literatura brasileira (e gosto dele, justamente por ser safado e sem moral). Macunaíma passa o tempo todo atrás da muiraquitã (pedra indígena que ele ganha de sua amada, porém, ela é roubada). Depois, ao final, quando ele morre, o espírito de Macunaíma escreve numa pedra “não vim ao mundo para ser pedra”. Para mim trata-se de uma analogia com o túmulo, como se fosse algo que transmite a ideia de que “não vim ao mundo para ser apenas mais um túmulo, mas para vivê-lo de fato”. Desse modo, ser pequeno filósofo, para mim, trata-se de um tipo de empreendimento que me deixa mais distante de ser pedra do que ser grande comentador.

  5. O pequeno filósofo, muitas vezes, pode falar com as paredes.

  6. Ele pode falar por enigmas, porque, caso ninguém os entenda, poderá dizer “é que sou pequeno filósofo”. Com o tempo, o próprio pequeno filósofo esquece o significado dos seus enigmas, porque, no fluxo constante de suas ideias, ele as perde. Mas caso retome o enigma esquecido à ponta da consciência, ele simplesmente está validado a dar ao enigma um novo sentido. Um pequeno filósofo sabe que todo enigma pode ser respondido de diferentes formas, a depender da disposição do momento e até mesmo de quem o responde. (No ponto 5, há um enigma).

  7. Para mim o sentido da “Filosofia” é múltiplo, jamais dogmático.

  8. Para fazer filosofia é preciso, sim, muito trabalho e estudo, porém, nem sempre um trabalho histórico, cronológico ou de reprodução desinteressada de conceitos.

  9. Não me interessa ser técnico de filosofia ou bom explicador de grandes filósofos. Decididamente eu me coloco na posição de preferir ser melhor em me explicar do que em explicar os outros. Aliás, já acho que dá um trabalho terrível me explicar, como poderia perder tanto tempo explicando os outros?

  10. Gosto de escrever romances e inventar personagens, neles esqueço o mundo que nasci (sem pedir e sem querer, é verdade). “Ah, mas é infantil se ocupar de ficção”. Por outro lado, alguns dizem que é na ficção que se conhece a alma humana (não creio que exista alma, apenas falo “alma” num sentido fraco e livresco). Para mim, a literatura é uma questão de prazer, porque, sendo pequeno filósofo não preciso concordar nem com os críticos da ficção e nem com os elogiosos. Posso fazer qualquer coisa porque quero e pelo prazer de fazer, estando sempre validado a recorrer à resposta: “Fiz porque sou assim, todo defeituoso, não vê que sou pequeno filósofo? Coitado de mim”. E então, depois disso, poderei voltar feliz para a minha cabeça e esquecer de todo o resto.

  11. Discordo do conceito de “gênio” popularizado na Europa no século 19. Penso que um filósofo é formado menos pela sua genialidade do que pelas condições sociais e pelo ambiente que o rodeia. Devemos nos perguntar: as pessoas da sociedade em que ele vive, leem filosofia? As pessoas a sua volta se importam com a opinião dos filósofos? Minha mãe, tentando me dissuadir a mudar de cidade — ela falhou —, dizia, com alguma razão: “floreça onde está plantado”. A frase é imprecisa, dado que não somos plantas e nem devemos aceitar sê-lo, mas a parte importante é que no lugar onde estamos, só poderemos florescer se as condições ambientais forem favoráveis (há água e luz para que essa planta cresça?). Na falta de água, essa planta será apenas uma pequena planta. É por isso que a escolha não é entre ser um grande filósofo ou um grande comentador, mas sim entre ser um pequeno filósofo e um grande comentador. Em outras palavras, temos de partir, antes de tudo, de um ambiente desfavorável e jogar o jogo com aquilo que temos. No meu caso, um blog/site que ninguém lê — você está nele —, que, pode ser análogo a uma planta que recebe pouca luz solar. Ainda sobre o conceito de “gênio”… Não tenho dúvida que uma porção deles foi enterrado sem que o mundo tivesse qualquer notícia de sua obra. Elas devem estar nas bibliotecas, mas completamente esquecidas porque não foram capazes de formar grupos de grandes comentadores ao seu redor. Imagine que bobagem ter que depender de grandes comentadores para ser filósofo? Melhor mesmo, ser pequeno filósofo, conforme eu escolhi ser.

  12. Sou muito esquecido e, ser grande comentador exige lembrar dos comentários que se fez no passado para não cair em contradições com os comentários que pretende fazer no futuro. Facilmente posso mudar de posições e não reconheço meu eu atual com meu eu de cinco anos atrás. Daqui a cinco anos pretendo ser outro. Sei que o outro que pretendo ser não será ser grande comentador, mas sim algo próximo de pequeno filósofo.

  13. Não me importo com a opinião alheia, embora saiba que dependa dela para que receba alguma validação. Mas tudo que se faz na vida é assim, certo? O padre precisa da aprovação das senhorinhas das primeiras fileiras (não venha dizer que exista outro tipo de pessoa nas primeiras fileiras - você está errado); o mecânico precisa da aprovação do dono do veículo; o vendedor, da aprovação do comprador, etc. Ser aprovado e elogiado é uma maravilha. Quem não gosta? O sucesso de ser grande comentador ou pequeno filósofo passa por esse requisito. Acontece que — retomando o ponto 2 —, prefiro a oportunidade de fracassar na tentativa de ser pequeno filósofo do que o sucesso de ser grande comentador.

    Bem… Não quero dizer mais nada. O que até aqui está posto já é o suficiente para chocar algumas cabeças. O pequeno filósofo, é claro, ama chocar os outros. “Ele quer atenção”, dirão. Eu digo, ao contrário, que “não poderia ser de outra maneira”.

    [1]: Esse “em geral” é importante, porque, nem todo grande comentador recebe gordos salários, além de que, alguns dos que recebem grandes salários não se limitam a ser apenas grandes comentadores, embora talvez só recebam grandes salários porque são grandes comentadores antes de ser qualquer outra coisa.

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