Ensaio
O vigário saboiano e o bêbado maringaense
O que é um brasileiro? Um povo que se tornou um sentimento. O presente texto é uma crítica irônica contra Rousseau em seu texto "Profissão de fé do vigário saboiano", que compõe um longo trecho do livro Emílio ou da Educação.
O vigário saboiano – Quantos meandros escritos e quanta parafernália um homem faz para se parecer um sábio e justificar seu amor a Deus. Rousseau seria mais sábio e seu livro teria queimado melhor, se não fosse um teísta. Vamos aqui blasfemar contra os três artigos de fé do vigário saboiano (um padre, e, como tal, um ser que não ama a vida). O primeiro deles diz que há uma vontade que move o Universo; o segundo, que essa vontade é inteligente, pois ela move a matéria por meio da vontade e de leis; o terceiro, que o homem é totalmente livre em suas ações e que a vontade é irrestritamente livre. O vigário nega uma vontade cega e irracional. Bem, talvez também possamos negá-la, mas não em favor de um primeiro motor inteligente munido de uma vontade racional, mas sim em favor do nada. Com que direito o intelecto filosófico pode se elevar sobre a Terra para anunciar seus argumentos justificantes para explicar o inexplicável? A antinomia se impõe: é tão improvável que exista uma vontade inteligente como é improvável que exista uma vontade cega. Nos limites da linguagem, fecha-se essa discussão: a razão humana, fruto da evolução, impõe à nossa ética evolucionista que qualquer argumento que chega até uma antinomia é também uma limitação da própria capacidade evolutiva; a razão explica ou é explicada pela evolução? Podemos realmente confiar na razão para compreender a própria teoria da evolução? Mais uma antinomia, pois a resposta é sim e não. O máximo que os argumentos podem fazer é alargar o entendimento de nossa espécie sobre o determinado problema; aí, então, tudo que se diz em detrimento de se defender o próprio ponto de vista é ornamentado com muita persuasão e poder de seduzir. Meu partido nessa questão, portanto, é o do indiferentismo: não importa se há uma vontade inteligente ou não, pois meus sentimentos continuam sendo angustiantes independentemente disso. Trata-se, portanto, de uma questão menor e menos importante. Interesso-me muito mais por mim mesmo do que por inventar razões para justificar questões irresolutas. Eis meu jeito de fugir da dificuldade, dirá um leitor rebelde. Portanto, para não parecer um covarde, diria o seguinte: tal como o filósofo é um doente, a inteligência suprema que possivelmente possa existir também é doente: ela é racional, mas sua razão é turvada: a loucura e a insanidade fazem parte dos seus atributos: a razão que é justificada e que justifica a evolução é fruto da loucura, que jaz nos indivíduos que criaram Deus, tanto quanto no Deus que eles criaram. Quem foi que atribuiu perfeição à divindade estava redondamente enganado, ou mais precisamente falando, estava loucamente seduzido pela sua criação (talvez se tenha feito isso apenas para mostrar o poder bélico de seu deus em favor do poder menor no deus de seus vizinhos inimigos). Deus, objetivamente falando, é totalmente imperfeito, canalha e sádico. E não é esse um Deus melhor? Mais amigo, mais irmão, mais compreensivo, mais acessível? O vigário saboiano é a voz do próprio Deus, pois tudo o que diz é um longo sermão: o filho louco falando de seu pai, um velho ainda mais louco; um padre que quer se tornar Deus. Há uma vontade que move o Universo? Sim e não. Ela é inteligente? Sim e não. Queres uma resposta só, caro leitor? Não terás. Parodiando o sábio rousseauniano, ouça, pois, o meu sábio (não vejo muita diferença entre ele e o padreco de Rousseau!). Encontrei-o em um dia gelado, na aurora de um junho qualquer, encostado na parede duma esquina movimentada. Chamá-lo-ei de bêbado maringaense. O homem, pois, falou-me assim…
Profissão de miséria do bêbado maringaense — Meu filho, não espere de mim nem o melhor nem o pior, vim da escuridão noturna, andei pelos trilhos do trem, embriaguei-me pelas luzes da cidade, voou alto minha consciência e a essas horas da manhã, tudo tanto faz como tanto fez. A noite que acaba de terminar foi das mais alucinantes e nela vi tantos fantasmas e tive tantas revelações que dificilmente poderei superá-la. Para começar, quase pulei do décimo terceiro andar. Tantas vezes tentei, faltou-me apenas a coragem. Se estou aqui, não era para estar; se estivesse morto, quem ia ligar? Decidi, novamente, dar mais uma chance para a vida. Não podendo pular do prédio, pus o corpo para vivenciar o seu limite. O pouco que ainda tinha, gastei onde não devia. Não devia? Antes da meia-noite já havia traçado duas putas, antes da uma hora, muito pó, às três da manhã conheci Lúcifer. Ele me trouxe uma mensagem de fé: “tente de novo”. Pois, dessa vez, já encorajado e com as vontades carnais bastante resolvidas, voltei ao apartamento. Noite calma, todos na cidade dormiam, estava decidido: vou pular. Pois, vê, não pulei. Só pude mesmo chorar. Tentei de novo dar mais uma chance para a vida. Cheirei mais um pouco. Nem percebi e o dia amanheceu, então, aqui estou. Mas e Deus, onde está? Preso, meu querido amigo, preso no alto daquela nuvem. Não vê minha angústia, fecha-se para minhas súplicas. Que faço? Ouço novamente Lúcifer? Tento mais uma vez? Certamente, certamente, és uma boa ideia. Mas me conheço, meu amigo, me conheço. Vou fraquejar e não vou conseguir pular. Mas seria, de fato, um belo estardalhaço: toda a família chocada com meu salto; toda a rua parada por algumas horas, o pessoal comentando, os legistas, o velório, o enterro. Tudo se resolveria rápido. Em pouco tempo, ninguém mais se lembraria. Lembraria? Não lembraria. Vê só! Não é preciso muita coragem para se sentar ao lado de Deus. Sim! Estou convencido, para encontrá-lo, basta saltar daquele prédio. Não seria uma queda e tanto? Todos os discursos, todas as consultas, todos os remédios, todos os problemas, reduzidos a nada. Quer saber? Gosto dos seus ouvidos, gosto dos seus olhos, gosto de como me encara: me sinto muito à vontade em falar, mesmo nunca tendo o visto antes. Não vai me interromper com admoestações inúteis, com medo e prevenindo-me para não pular? Oh! Mas já sei o que pensa: pensa que sou esclarecido. Pois está correto. Sou esclarecido, sim, dou aulas e não ganho pouco. Tenho mulheres e passo bem a maior parte dos dias. No entanto, o que me incomoda é apenas a vida e o vazio que de Deus recebo. Há em mim, é claro, um distúrbio grave e é claro que não posso ter certeza se você é real ou é Lúcifer de novo. “Tente de novo”, sim, sim, já posso te ouvir. Mas, seja, pois, mais específico. Tente de novo, exatamente o quê? Pular? Não, não posso mais aguentar ser covarde comigo mesmo: o instante que me separa do chão é tão absurdo que acabo me dissuadindo com motivos melhores: consumir toda minha vida numa nova garrafa, numa nova noite de regalos! Por que não? “Tente de novo”, talvez se refira ao meu empenho em vender meu apartamento e comprar uma casa, assim, não me sentirei tão seduzido pela minha sacada. Ela é que me chama, ela é que torna tudo fácil! Sim, veja, olho para ela, ela olha para mim e então, tudo se apresenta muito fácil para alcançar um novo estado, uma nova forma, uma outra vida. Quem sabe? Preciso tentar. Tentar de novo, sim, vender o apartamento. Ficar longe da sacada, longe da destruição. “Tente de novo”, o quê? Meios de ficar mais tranquilo, mais sóbrio, menos louco? Não há mais volta, já converso com o próprio Lúcifer, por isso, daqui em diante, tudo que se faça ou se diga é indiferente. Tudo está perdido. Na loucura da minha inconsciência encontro um prazer tão grande que a alimento com a própria imagem do meu corpo caindo… Do décimo terceiro para o décimo segundo, do décimo segundo para o décimo primeiro andar e assim por diante. Uma queda livre, um jogar-se ao nada. Que se passa na mente dos homens que viveram esse instante? Não é uma imagem e tanto? Um instante e tanto? Quer dar razões lógicas para alguém? Convença o suicida e não os filósofos! Convença os pobres e não os ociosos! Quer realmente dar sentido para o sim e para o não? Não diga nada, sinta. Em todo caso, já vou embora. Preciso logo tentar outra vez… Assim me falou o bêbado maringaense.
Alguns dias se passaram e encontrei novamente o mesmo homem, no mesmo local e na mesma situação; completamente bêbado e varrido. Me aproximei dele sem que ele percebesse e como quem não quer nada. Não lhe disse nada e apenas o olhei com cordialidade e ouvidos abertos, impressionado por ainda encontrá-lo vivo. Por um instante, tive a impressão de que ele sentiu o peso da minha admiração, mas disso não posso ter certeza. O homem, pois, falou-me assim… É um belo dia, não? Carros por toda parte, mulheres bonitas desfilando para lá e para cá, o céu está lindo, o outono se aproxima, as árvores, veja, todas estão rosas e carregadas de flores. A primavera que se aproxima é o meu remédio e minha metanoia. Transforma meu espírito, meu caro jovem, transforma muito. Ontem mesmo, enquanto bebericava um vinhozinho no décimo terceiro andar, tive uma visão das mais incríveis. Acredita nessas coisas? Bem, não importa. Vou lhe contar de qualquer forma: vi o céu se abrir e dele vinha um homem em meio a uma luz muito forte, ele falava com todos os seres humanos, de todos os lugares e tudo o que dizia parecia ser compreendido por todos, sem exceção, da formiga ao mais importante diplomata. E ele dizia: irmãos, aproveitai a vida, pois é deveras breve; irmãos, eu vi Deus e ele era luz, agora o vejo no rosto de cada um de vós; irmãos, sigam-me, pois sei o caminho para o melhor dos prazeres; irmãos, um pequeno gozo na Terra não vale um milésimo de segundo do gozo que tive ao lado Dele; Deus é prazer, vi nele tudo ao mesmo tempo: o bem e o mal, o sagrado e o profano, o dizível e o indizível, o são e o louco; juro-lhes, juro-lhes, jamais vi tanta dança, tantos corpos, tanta materialidade misturada com tanta luz; tanta gente feia e triste misturada com gente bonita e feliz… E depois, que o céu se abriu e o homem dizia aquelas coisas, raios e trovões fizeram o céu pegar fogo, a Terra estremeceu e vários outros planetas surgiram no céu; todas as imagens anunciadas pelo homem surgiram para mim, todas as pessoas dançavam, os planetas giravam, as pessoas, todas nuas, pulavam sobre fogueiras estrelares e uma música animada ecoava de um ser de mil braços: ele tocava todos os instrumentos conhecidos e alguns que eu nunca antes havia visto; a suprema música era tocada e eu sabia e sentia que era ela que animava todos os seres; todos falavam a mesma língua, a comida era jogada para todos os lados; sexo e fantasia pulsavam por toda a parte numa harmonia incrível; nunca vi uma cena tão hedonista, mas ao mesmo tempo tão carregada de sabedoria e tranquilidade: a moralidade, povo da Terra, não existia… E tudo isso, meu caro, juro-lhes! Vi tudo acordado, com os olhos bem abertos. Nenhuma droga, nenhuma angústia, nenhuma oração. Sim, tudo de coração limpo. Ontem vi Deus e meu coração se alegrou. Foi a máxima transformação espiritual que alcancei na vida. Agora um novo mundo se apresenta para mim: com tal imagem e aparição, Deus me salvou. Não há vida e não há morte; há apenas o ser de mil braços. Queres saber mais sobre o ser de mil braços? Pois posso te contar, pois ainda posso vê-lo por cima da cidade. Vê aqueles prédios? Além deles, eu vejo também o ser de mil braços. A música não para, meu companheiro, não para; é ela que nos mostra que tudo é maravilhoso. Se vou viver amanhã? Não quero saber, não me importa mais. Agora quero apenas a vida, nada de morte, nada de saúde, nada de maldade, nada de bondade, interessa-me apenas o tempo, o agora, o discurso e, claro, a embriaguez… Assim me falou o bêbado maringaense.
Tendo, pois, aquele miserável homem parado um instante em seus devaneios, sentou-se no chão e passou a fitar uma fresta na calçada. Tirou um cigarro do bolso, acendeu-o com agilidade e começou a rir sadicamente; ele gritava e todos os transeuntes lhe lançavam olhares reprobatórios. Apenas eu me interessava por ele. Então, ele falou-me assim… Disse-me o deus de mil braços que o supremo gozo está no contentamento consigo mesmo. Mesmo a minha bipolaridade não impede tal coisa. Hoje sou um, ontem eu era outro e amanhã serei mais um, mas nada disso importa desde que cada uma das minhas personalidades estiver gozando contentamento: uma vê na morte uma alegria, outra vê alegria no dinheiro, nas drogas, nas mundanidades. Vê! Todos são doentes e tal como o deus de mil braços se articula por todo canto, eu uso cada dia da vida para ser um ser diferente, para cantar uma nova música, para ver novas cores, para blefar, gritar, louvar o novo e ser um inimigo da rotina. Não me importa a liberdade, mas a novidade; não me importa nem mesmo a bebida, se quisesse, pararia amanhã, mas acontece que eu não quero. O cigarro? Poderia apagá-lo no dedo, mas acontece que eu não quero. É um privilégio ser sozinho e não ter de me ocupar com os cuidados de ninguém: o que faço é sempre para mim e assim, não necessito de continuidade em nada, pois há muito tempo abracei-me com a queda e estou muito bem assim. O sofrimento? Aprendi a dele extrair prazer e mesmo nele, por vezes encontro certas ilhas de paz. Meu pai eu matei, minha mãe deixei para trás. Meus irmãos não sei mais onde estão… Assim me falou o bêbado maringaense.
Percebendo-o então, em uma situação de fragilidade emocional, sentei-me ao seu lado. Ele chorou, mas sem perder o riso que antes trazia no rosto. Acendeu um novo cigarro, continuou fitando o nada, mas sua fisionomia não era vazia; parecia de fato estar a ver algo muito interessante. Ainda com aquele estranho semblante de encanto e devaneio, subitamente virou para mim e olhou-me nos olhos e se assustou muito. Trêmulo e horrorizado, pareceu ver em mim a figura de um inimigo, afastou seu corpo, e foi se levantando muito rapidamente, sem deixar de me fitar profundamente e de modo assustador; então, ele seguiu andando até sumir entre carros e pessoas. Vãs filosofias sem virtude essas que se encontram nas bocas dos bêbados! Mas ao mesmo tempo, quão decolonial, quão brasileiro era ele! Quão livre de qualquer sinal europeu! Quão livre do professorado, quão cheio de vivências, quão despreocupado com os livros! Não tardou, topei novamente com o homem; como das outras vezes, ele não se lembrava de mim; ao passo que já via nele um louco; certamente sequer existia qualquer apartamento no décimo terceiro andar; sequer ele próprio sabia quem era, mas o fato é que aquele corpo feio carregava aquela consciência perturbada que tanto me interessava. Parei ao seu lado mais uma vez e o homem, pois, falou-me assim… Por toda parte vejo chagas e carniças: marcos da consciência individual de cada pessoa para tornar suas ações simbólicas e dar a elas um sentido geral; esses marcos são desesperos constantes, aflições irremediáveis, sofrimentos desnecessários e injustiça contra os mais frágeis. Toda ação, portanto, timbra dor na pele do agente, que troca seu próprio tempo fazendo isto e não aquilo; vivendo desta forma e não daquela outra; seu ser, portanto, toma para si essas carniças e não àquelas. Por toda parte, vale a mesma regra: tempo e energia gastos apenas atestam e revelam onde o sofrimento foi investido e nenhuma ação está livre da dor. Intrigante as pessoas são, maleável o mundo é; nenhum dia é igual ao outro, todo instante é uma oportunidade de criar; jogar-se ao destino é o que todos deviam fazer, mas é também justamente o que as pessoas desaprenderam em troca da cultura; antes, deus é que queria me matar, depois, ele me salvou, agora, eu é que quero a cabeça Dele. Ascendo à minha profissão de fé: crer na mutabilidade constante e no devir inegociável da natureza; há tantos em mim que por vezes penso que eu mesmo é que sou o ser de mil braços: tanto eu poderia criar, tanto poderia falar, tanto poderia contribuir… Oh! Tão longas minhas capacidades! Mas quem com elas se importa? Quanto mais mostro que sei, mais desprezado sou, ao contrário, quanto menos mostro que sei, mais me ouvem. Criei atrás de mim uma legião de imbecis: abandonei-os nas cidades vizinhas. Eles ainda me perseguem e são devotos e eu estive a apenas um passo de me tornar um santo; mas cansei de praticar caridades e do olhar mórbido dos pobres: quanto mais pobres ajudava, mais pobres apareciam e a quantidade de pobres crescia tanto mais crescia minha solidariedade e benevolência: há uma quantidade ilimitada de miseráveis no mundo, de tal modo que, cansado de ser o santo virtuoso, o religioso comportado, o bom samaritano, transformei-me, pois, no próprio demônio. Foi assim que entendi como os miseráveis são fabricados: só são miseráveis pois aprenderam a se comparar com aqueles que não são. Retire a capacidade de comparação das mentes dos homens: essa é a única forma de se alcançar a igualdade moral. Sou, pois, um inventor de enredos, de situações curtas e compridas; em certas horas me restrinjo ao uso de um personagem e a atuação do meu ideamento; ontem fui ateu, hoje sou cristão, amanhã, maometano; sou, fui e vou. O que busco? Privacidade em minha fabulação, mas sem jamais ofender minha realidade. Quem me julga? Todos e ninguém. Mas quem governa minha conduta fantasiosa? Eu e mais ninguém. Sou, pois, um protagonista dos devaneios. Vulgar quando é necessário, sábio com as crianças, adulador daqueles de quem dependo, malicioso contra os fanáticos. Moldo-me conforme o lugar, conforme a época e conforme as pessoas que me cercam. Onde estou? Tal como a filosofia, estou em todos os lugares e nada pode me parar. Sou, pois, um corajoso acovardado, um tesouro barato, um charlatão escancarado, um anti-ismos. Sou, pois, aquele que considera a vida mental como uma oficina da criação e ao fundo de tudo que eu faço, há um eterno jazz saxofônico que torna todos os meus movimentos leves e sorrateiros; a cada passo, deixo uma marca de meu estilo. Uso toucas em dias frios, chinelos velhos nos dias de calor; como arroz com feijão enquanto seguro meu coração; sinto os cheiros das casas entorpecendo meu nariz e toda visão urbana excita meu espírito tanto quanto aquelas visões rurais. Sou, pois, o puro contraste, a devastação, a corrupção, o bem, o mal. Todas as palavras me interessam, todas as pessoas me ensinam. Jamais fui capaz de ficar sozinho em um quarto por mais de um minuto: sem livros, sem televisão, sem nada além de paredes brancas. Não me culpo por não aturar ficar sozinho comigo mesmo, antes, admiro minha incapacidade de ser tão solipsista ou considerar a sabedoria como joguete de sábios individualistas que se vangloriam por desfrutarem de uma paz inalcançável; antes, orgulho-me de minhas falhas, dos meus costumes vãos, do modo como reside em mim um macaco introspectivo que ri um sorriso largo e profundo, fitando em toda parte um mistério. Sou, pois, aquele que discursa para vagabundos, pois não almejo nada além de dar e receber prazer; prazer mental, é claro, pois é esse o único que excita os velhos e também o melhor de todos de ser sentido. Assim me falou o bêbado maringaense.
Oh! Que discurso mais aloprado eu ouvia, mas quanto prazer ele me dava. Estava, de fato, diante do homem cordial, um brasileiro mais brasileiro eu até então não havia topado. Na próxima vez que o encontrei, no entanto, estava acompanhado. Estava junto de outro homenzinho, um baixinho esquecido de andar desengonçado. Escorados naquela mesma esquina, os dois riam e conversavam alto. Me aproximei na paz e no silêncio, como quem não quer nada além de ouvir. Senti-me como Platão, isto é, um ouvinte atento em relação ao discurso dos homens. Mas esse pensamento funesto e indigesto logo se dissipou. Que importância me teria um grego quando estava diante de dois brasileiros cordiais! Ouvi de ambos a mais macia e marota das filosofias. Poucas palavras e muito riso; pouca preocupação e muito deleite; nenhum argumento, mas muita contemplação. O brasileiro é mesmo um tipo de gente que não perde tempo pensando em como viver, antes, ele vive, ele pega, ele se apropria dos sentimentos; torna-se, então, sentimento. Qual povo pode ser tão sofredor e ao mesmo tempo ser tão feliz? Não existe isso em nenhum outro lugar. O nosso espírito é o melhor, o mais acessível e mais reconfortante. Eliminamos tudo o que é bom e colocamos para debaixo do tapete tudo o que é mau. O ecletismo nos domina, mas não vejamos mal nisso. Deixemos que dele brote uma flor original, uma nova espécie de ideia, uma poesia criativa, um jeito diferente de amar e conviver. Enquanto eles pensam, a gente sorri. Seguimos o mote de Macunaíma: “Ai, que preguiça!”. Não porque somos preguiçosos, mas porque é difícil demais deixar de dançar o carnaval; preferimos, portanto, que o hedonismo radical domine nos sete dias da semana e não somente nos dois que o capitalismo e o calendário por pena nos deram. O eterno carnaval brilha em nosso rosto. Isso ocorre porque não nos ocupamos de micharias, sabemos que Deus é brasileiro e isso vem antes de tudo; sabemos que sempre iremos vencer, seja cedo ou seja tarde, pois não desistimos nunca. Sabemos seduzir como ninguém e o nosso único mal é nos compararmos demais, especialmente com aqueles que não possuem metade do que possuímos. Em verdade, não somos nem preguiçosos, nem cordiais, nem alegres o tempo inteiro; mas fazemos dessas disposições a nossa máscara para conseguirmos viver da maneira menos sofrível possível essa existência estarrecedora. O sol nos queima a cabeça enquanto a farofinha de domingo nos abraça o estômago, então tudo segue muito bem. O que é um brasileiro? Um povo que se tornou um sentimento (que prefere uma vivência afetuosa e menos calcada na produtividade). O que lhe falta? Dizer não ao centro do mundo e encontrar-se enquanto um ser sentimental. Se na filosofia alguns homens foram capazes de se tornar sentimentos (como é o caso com Nietzsche), nós somos uma nação sentimental. Carece, é claro, esclarecer o que significa o sentimento que somos: um tal sentimento não nomeável e todas as vezes que um brasileiro diz não ao que é culturalmente externo ele se fortalece e seu sentimento torna-se mais apreensível. O brasileiro é um ser manso na mente, forte nos braços, guerreiro com as mãos; ele tem sido, até então, um conformado. Não é meu caso e nem tampouco de meu leitor de edícula: por dizermos (ou ao menos tentarmos dizer) não a essas influências nos tornamos inconformados: a toda a educação europeia que nos foi dada, por tudo que nos empurraram e pela dificuldade que encontramos em descobrir o que está perto em detrimento da facilidade em descobrir o que está geograficamente longe: em verdade, nós perdemos o desejo de ser europeus porque encontramos em nós mesmos algo muito maior; não nos ocupamos mais da centralidade ou descentralidade, da posição ou sermos melhores ou piores. Quando nos percebemos como sentimento, deixamos, por conseguinte, de classificar, definir ou comparar; o brasileiro livre, portanto, é aquele que, cansado do passado, almeja um futuro seu. Somos o que queremos. O que queremos? Ser o que somos. O que somos? Sentimento. Que sentimento? O sentimento que quisermos. Quem quer? O macaco. Que macaco? Aquele que jaz no humano, não apenas no brasileiro. Ora, pois, se os homens de lá, sejam os de Saboia ou os que passaram por Sorbonne, encontraram um sentido todo pomposo e elevado, fino e inteligente, nós, por meio da luta contra nós mesmos, pelo nosso espírito de colonizado, pela miscigenação, pelo jeito e pela cordialidade, faremos uma espécie de espírito original, formado de um ecletismo psicológico (e não um mero ecletismo intelectual de livros europeus). Tantas são as características insidiosas de um brasileiro, tantos são os seus modos estranhos, humorados e sorridentes e há tanta vantagem em se apropriar sempre do que há de melhor, que, cada vez mais, sinto um certo orgulho de ser brasileiro; mas disso é preciso ter muito cuidado, pois devemos ter um nojo eterno de ufanismos (adoração à bandeira, militarização barata, falta de estilo, tentativa de imitar um modelo que já existia na Europa – não seja esse, pois, nosso interesse!). Foquemos apenas no sentimento (de alegria, de saúde, de paz, de força, de coragem, de sofrimento). Porque interessa-nos mais a psicologia do espírito do que as ações do corpo. Ações do corpo são perigosas quando se quer estimular um tipo de personalidade nacional: nego-as em totalidade, pois são assuntos da burocracia e mudam a cada época, normalmente mudanças sutis, mas sempre prejudiciais para a sanidade; queremos, antes, um otimismo espiritual, uma união embriagante, um crescimento sentimental, a ampliação da gentileza, da cordialidade e do amor que nunca nos foi permitido dar ou receber: fraternidade, igualdade, direitos, filosofia profunda e livres de poderes que castram, cegam e desestimulam. Somos, pois, os brasileiros corajosos e assumidamente sentimentais; não somos mais carentes de sentido, encontramos o nosso e todo dia o fazemos crescer com uma tremenda e invejável sapiência. Enfim, aceitamos que somos o que somos e que queremos ser o que somos.
Texto escrito em algum momento de 2023.