Pular para o conteúdo
Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

Uma possível transição da ética negativa para a ética minimalista

Dizemos 'sim' para a vida a cada momento que não nos matamos.

David Friedrich - O Viajante sobre o Mar de Névoa (1818)
David Friedrich - O Viajante sobre o Mar de Névoa (1818)

Os projetos de ética positiva (aqueles que buscam estabelecer como devemos viver, pense, por exemplo, na Bíblia ou na Fundamentação da metafísica dos costumes de Kant) tentam responder à pergunta: “Como devo viver?”. Um projeto de ética negativa[1], no entanto, não quer responder essa questão e menos ainda prescrever o que as pessoas devem fazer para viver bem. A atitude da ética negativa começa com uma índole de inspiração camusiana, portanto, com um raciocínio absurdo — “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”, conforme a primeira frase ultraclássica do livro O mito de Sísifo — e, então, pergunta-se de modo muito mais impactante “Devo viver?”. Suprimir o “Como” do início da questão muda tudo.

Matar-se, em certo sentido, e como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos […]. Trata-se apenas de confessar que isso ‘não vale a pena’. Viver, naturalmente, nunca é fácil. Continuamos fazendo os gestos que a existência impõe por muitos motivos, o primeiro dos quais é o costume. Morrer por vontade própria supõe que se reconheceu, mesmo instintivamente, o caráter ridículo desse costume, a ausência de qualquer motivo profundo para viver, o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento.

Camus, A. O mito de Sísifo. BestBolso: Rio de Janeiro, 2017, p. 21.

Todo dia que acordamos — por costume — optamos pela vida. Optar pela vida significa, em grande medida, optar pelo sofrimento intrínseco de sobreviver. Depois de acordar, deve-se ocupar com o que irá comer e beber; com como irá se proteger de perigos; com conseguir ser valorizado pelos outros para retirar vantagens deles e para que no dia seguinte tudo isso se repita de um modo mais fácil ou menos sofrível. Dizemos sim para a vida a cada momento que não nos matamos.

Um ponto, porém, fica suspenso e sem resposta: nada nos garante que a não existência seja melhor do que a existência e sua incessante luta pela sobrevivência. A rigor, não há um motivo claro que nos imponha que sobreviver seja necessário. O fazemos apenas pelo apego que temos ao costume de viver e por tomarmos a vida como condição indispensável para alcançar prazeres, realizações pessoais, felicidade e, enfim, seja o que for.

Fomos tirados pelos nossos pais da profundeza do Nada. Isso é análogo ao suposto movimento divino de criação de que seria melhor criar o mundo do que não criar o mundo, assim como, seria melhor nascer do que nunca ter nascido. Mas não há nenhum critério perfeitamente estabelecido que imponha qualquer validade para essas alegações. Pensar que deus nos salvou das garras do Nada ao ter criado o mundo é tão capcioso quanto pensar que escolhemos ter filhos por altruísmo. É nesse sentido que emerge da primeira questão da ética negativa — “Devo viver?” — uma segunda questão igualmente impactante, ela diz: “Devo ter filhos?”.

Quando um pai promete para seu filho uma vida feliz, nada garante que a vida que ele poderá dar ao filho será de fato feliz. Nenhum motivo deixa claro que o ato de ter um filho seja altruísta ao invés de egoísta. Antes, tem-se filhos na busca da felicidade própria de ser pai ou mãe do que pensando na felicidade que irá dar ao próprio filho. Em geral, as pessoas têm filhos para ter alguém para cuidar de si na velhice; para ter uma companhia de sofrimento; meramente pela curiosidade de saber como é a paternidade e a maternidade; para que alguém o filho dê sequência em suas obras e zele pela sua honra, etc.

O fato é que nunca se pensa em ter um filho pelo motivo de que seria melhor tirar alguém do Nada do que fazer com que esse alguém permaneça no Nada. Esse motivo com certeza não é pensado por ninguém. Em geral, a maioria das pessoas não acredita que exista um Nada de onde estivemos e para onde voltaremos após a morte; ocorre, no entanto, que não existe nenhuma crença transcendente que seja mais segura e correta do que a alegação de que do Nada viemos e para o Nada voltaremos. Toda parafernalha teológica sobre deuses, anjos e demonios são castelos de areia e bolhas de sabão. É um pensamento demasiado duro para mentes criadas em torno de fantasias, mas a realidade precisa impor-se diante da falsidade. Além disso, o acesso que temos a esse Nada é sempre relativo; em outras palavras, só podemos acessar o não-ser a partir do ser; é por isso que é fácil fantasiarmos sobre o Nada e tendermos a preenchê-lo com bobagens e futilidades que só existem em nós e em nossas fantasias. A ideia de que o ser é melhor do que o não-ser é como uma doutrina oficial fortemente estabelecida que todos aceitam de bom grado e sem questionamento. Mas será mesmo?

Diz Julio Cabrera, filósofo que inspira todas essas reflexões a partir de seu livro Projeto de ética negativa:

A bondade moral do pai provém, dentro da Ética afirmativa, do fato de ter salvo o filho das garras do não-ser. Mas o fato de nascer não nos tira realmente do nada, mas apenas nos coloca num vínculo novo com ele. A única diferença ontológica entre não nascer e ter nascido é que, no primeiro caso, eu estou no não-ser, e no segundo eu devo vivê-lo. O que habitualmente chama-se de morte, é apenas uma separação inessencial entre duas formas do não ser.

Cabrera, J. Projeto de ética negativa. Madacaru, 1990, p. 24.

Viver é uma forma de não-ser. Conforme entendo, não há valor algum na vida (não existe valores intrinsecos, não existem valores divinos, e menos ainda valores objetivos: todo valor que damos à vida é pessoal ou derivado das nossas relações sociais). A vida em si mesma não tem nenhum valor para o Universo ou para a história da evolução humana na Terra. Excetuando eu e as pessoas que tenho a minha volta, minha vida não possui valor algum. A Terra continuará girando depois de minha morte tal como girava antes e, um dia ela desaparecerá, tal como antes da formação planetária. Tudo isso será indiferente e sem valor algum. Só valorizamos nossa vida por conta do medo da morte e da vaidade; retire ou reduza ao mínimo essas coisas de um homem e ele não verá mais valor na vida humana e entenderá, finalmente, que o valor que dá a sua vida depende apenas dele próprio. Omnia vanitas; tudo é vaidade.

O Planeta está se esvaindo a cada dia. Isso aponta para a existência de um sofrimento inútil que só pode ser um problema moral para deus e para a parafernalha teológica que nós mesmos criamos, ou seja, não é um problema para o Planeta nem para o Universo em si. A verdade é que para a ética negativa é indiferente se vivo ou se tenho filhos. A única forma de encontrar valor na vida ou uma motivação para ter filhos é assumindo com clareza os próprios motivos morais para realizar tais coisas.

Deve-se ser sóbrio o bastante para assumir motivos reais (inclusive os motivos egoístas, dado que é melhor um egoísta consciente de seu egoísmo do que um que quer fazer seus atos egoístas se passarem por altruístas). Penso ser mais difícil encontrar motivos para viver quando não se atribui nenhum valor objetivo à vida. Por isso mesmo o desafio me interessa. Se eu for capaz de estabelecer motivos reais para viver e para ter filhos, poderei certamente criar para mim mesmo e para meus filhos uma maneira de viver mais livre, apreciativa e estilosa (um ideal estético; por amor à arte e pela vida, mas um tipo de amor indiferente e contingente: poderia não ser, mas eu escolho que seja). Interessa-me muito pouco uma vida intelectualmente simples e sem complicações. Complicar a vida para viver de modo mais interessante é tarefa do pequeno filósofo, conforme creio. Em outras palavras, como escolho viver — como escolho não me matar — devo, por conseguinte, estabelecer o “como devo viver”.

Louvável tal movimento…

De definir o Como viver

Apenas e tão somente após definir se Devo viver.

Penso que Holbach pode nos ajudar a explicar o projeto de ética negativa de Julio Cabrera. Para Holbach, a moral deve ser inteiramente física. Ele invoca a máxima de Juvenal mens sana in corpore sano (mente sã em corpo são) e dela já se pode estabelecer o fundamento para uma vida virtuosa. Não há recompensas além dessa vida; o que fazemos aqui deve ser justificado aqui. Promessas transcendentais são inúteis e a elaboração de conceitos que brincam com a imaterialidade apenas fazem ofuscar a verdade. Para Holbach, a ideia de uma alma imaterial, por exemplo, serviu apenas para sustentar uma política rasteira onde se visava recompensas ou castigos em um plano espiritual, igualmente imaterial. Coisa de padrecos.

Em suma, Holbach está dizendo que a moralidade deve ser buscada na Terra, pois o mundo moral é uma consequência do mundo físico; Cabrera, por outro lado, parece dizer que é impossível responder ao “como se deve viver” sem antes ter um motivo claro para responder se “devo viver” e, por isso, toda ética é sempre impossível no sentido afirmativo.

Para responder à questão “Devo viver?”, deve-se, antes de tudo, excluir motivações externas. Em outras palavras, não é porque Kant disse e nem porque os velhotes babões que escreveram a Bíblia recomendaram o “não matarás”, o “não roubarás” ou o “não se matarás” que eu não matarei, nem roubarei e nem tirarei minha própria vida. Por temor à sociedade, temor a deus ou respeito a própria honra, fez-se todo tipo de lei para impedir que as pessoas agissem da maneira que quisessem em nome de uma suposta ordem que, certamente teria existido mesmo sem nenhum código claro de prescrição ética. Antes, escolho não matar porque sinto que viver é bom e desejável (minha consciência é sã para chegar a essa conclusão sem Kant e sem Bíblia alguma); é porque sinto que roubar é um ato reprovável que não roubo e é porque minha própria consciência impõe limites dos quais pretendo respeitar que não tiro minha própria vida.

É verdade que Holbach escreveu uma ética positiva dos deveres e nesse ponto sua reflexão não acompanha Cabrera. Em todo caso, a moralidade em Holbach é fundada a partir dos “deveres do homem fundamentados na sua natureza”. Assim, entre esses termos supracitados, “ética negativa” e “ética positiva”, penso que poderíamos conceber a moral de Holbach como uma “ética minimalista”. Apenas por ser uma ética afirmativa ela se inclui como positiva. Ela legisla sobre como devemos viver, mas por não colocar nada acima da própria natureza e da materialidade humana, torna-se minimalista.

Uma consciência esclarecida é o guia do homem moral […] Muitas pessoas fazem o mal e cometem até mesmo alguns crimes com tranquilidade de consciência, porque sua consciência está falseada por alguns preceitos.

Holbach, B. A moral universal ou os deveres do homem fundamentados na sua natureza. Martins Fontes: São Paulo, 2014, p. 57-58.

E sobre os filhos, o que Holbach tem a dizer? Em primeiro lugar, a sua moralidade com tendências naturalistas estabelece que nos animais o sentimento de amor pelos filhos também pode ser vislumbrado. Como um protoevolucionista, Holbach estava a frente do seu tempo (conversa para outro texto). E assim ele diz:

O amor dos pais e mães por seus filhos é um sentimento que se encontra mesmo nos animais mais selvagens; nós os vemos cheios da mais terna atenção com a sua prole. Esse sentimento deve ser ainda mais intenso no homem, que vê, em sua posteridade, colaboradores para os seus trabalhos, amigos ligados a ele pelos mesmos interesses e sustentáculos para sua velhice […] A existência só é um bem quando ela é feliz. A vida seria um presente fatal se fosse continuamente miserável. Portanto, não é por ter recebido a vida de seus pais que um filho lhes deve a sua gratidão. Essa vida pode ser apenas o efeito da volúpia ou de um apetite cego que não procura senão se satisfazer. A ternura, a devoção filial e a gratidão do filho só podem ser solidamente estabelecidas com base no cuidado que seus pais tiveram com a sua felicidade.

Holbach, B. A moral universal ou os deveres do homem fundamentados na sua natureza. Martins Fontes: São Paulo, 2014, p. 631-632.

Eureka! Aqui jaz um bom motivo para ter filhos: porque sou egoísta o bastante para me satisfazer com o prazer de ser objeto de devoção de uma criança; porque pretendo criar um ser que me ame e porque quero exercer poder sobre alguém que tirarei do Nada, exigindo que esse alguém seja grato por isso. A coisa vai se tornando mais nauseante conforme os motivos mais baixos vão surgindo. “Por que tratar de um assunto tão sensível? Não basta apenas amar os filhos e fingir que isso é um ato muito louvável? Para que problematizar algo tão divino?” Pensará alguém. Além de minha resposta normalmente sacana — Porque sou pequeno filósofo e gosto de escrever atrocidades — também poderei responder conforme as palavras de Cabrera: devo saber o motivo do porque procriar para tornar a minha atitude perante a vida “mais sutil e mais profunda”. Isso pode ser pouco e tolo para muita gente, mas para mim é tudo de que necessito.

_______________

[1]: Todo este texto parte do livro Projeto de ética negativa, de Julio Cabrera. Diz ele, de modo muito importante: “A palavra Projeto poderia induzir à tentação de pensar numa Ética futura, mas o conteúdo do livro mostra inequivocamente que tal projeto jamais poderá ser uma Ética, nem ‘positiva’ nem ‘negativa’. Mas, ao mesmo tempo o texto mostra, igualmente, que - enquanto nos mantivermos na vida - não poderemos deixar de colocar esse tipo de projeto [como possível]” (p. 7).

Tópicos