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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

O homem do subsolo e sua dor de dentes

A dor de dentes do homem do subsolo é uma prova existencial. Em vez de evitá-la, ele a saboreia, desfrutando do prazer de gemer — O texto a seguir, trata-se de um pequeno ensaio sobre a seção IV, capítulo 1, de Memórias do Subsolo, de Dostoiésvki.

O homem do subsolo e sua dor de dentes

Ao nos deparar com o homem do subsolo (metáfora dostoiévskiana para um profundo mal-estar psíquico), estamos, por conseguinte, diante de “um homem que não se respeita”; “instruído o bastante para não ter superstições, mas que mesmo assim as tem”; “rancoroso por escolha”; uma pessoa sem caráter, porque, ter caráter é “limitar-se”; alguém que se vangloria da própria doença; que reveste sua saúde de uma “consciência hipertrofiada”; alguém, que, enfim, “tomou a pena em mãos” para explicar o prazer”, em verdade, “o prazer na própria desgraça”. Trata-se de um paradoxalista porque, dentre tantas outras coisas, confessa sentir prazer em magoar os outros, mas volta atrás para dizer que mentiu e que, no fundo, é bom o bastante para se compadecer e que magoar os outros não é parte de seu espírito. Percebe-se, então, o que é uma “consciência hipertrofiada”: aquilo que é capaz de se alargar o bastante para não se conformar nem com ser mal e nem com ser bom, mas paradoxal para sentir o que quiser, quando quiser, mesmo que seja prazer numa dor de dentes.

Seria um tipo de prazer teatral, tal como uma criança birrenta que grita no mercado, pendurada nas pernas de sua mãe. “Mamãe, quero ir embora, quero ir embora”, diz nosso menininho birrento. Conforme a opinião dos outros clientes do mercado, que observam a cena, o menininho poderia se conter se; 1) tivesse sido mais bem educado pela sua mãe; 2) se não estivesse morrendo de sono; 3) se as filas do mercado estivessem menores; 4) se não fosse apenas uma criança, porque “isso é coisa de criança”, diria uma senhorinha, etc.

Acontece que, compadecido com a cena humilhante, o homem do subsolo sentiria certa altivez. Talvez responderia que a criança chora e insiste em causar pampeiro porque isso lhe enche de prazer e, então, em resposta ao senso comum, diria: 1) o pobrezinho não pediu para vir ao mundo, mesmo assim sua mãe, agindo de modo egoísta, quis trazê-lo para a existência; 2) para ressarcir os juros do prejuízo de existir sem ter escolhido existir, o coitado castiga sua mãe, sendo, a cada instante, um demoniozinho; 3) como filho, ele tem o direito de escolher ser inconveniente porque sabe que o amor de pai e mãe deve — supostamente — ser ilimitado e, agindo assim, quer testar os limites desse amor; finalmente, então, temos o mais importante: 4) porque fazer birra lhe dá um prazer enorme e, porque fazendo isso, ele dá um tremendo show de horrores no mercado; faz aquela ida ao mercado não passar despercebida, recebendo atenção da mãe, dos funcionários e de todos os clientes; aquela cena toda é seu palco da existência: grita sua dor (mesmo que seja, objetivamente falando, apenas uma dorzinha), como um modo de afirmar sua existência.

A dor de dentes do homem do subsolo é uma prova existencial. Em vez de evitá-la, ele a saboreia, desfrutando do prazer de gemer. Mas o gemido por si mesmo não tem função alguma. Se a pessoa que sente dor de dentes estivesse sozinha em casa, gemeria menos ou até mesmo não gemeria. Mas basta estar na presença da família e dos amigos que o gemido começa. “Oh, dói, dói demais!”. Dostoiévski não diz isso, mas talvez o gemido seja uma forma de compartilhar e, por conseguinte, reduzir a força da dor. Gemer significa: “por favor, pegue um pouquinho dessa dor terrível para você, porque, sozinho não posso suportá-la”. Há prazer em compartilhar a dor.

Mas vamos um pouco além…

E se a pessoa que escuta nosso gemido, ao invés de se compadecer, enraivecer-se conosco? “Cale a maldita boca, pare de gemer, tenha modos e aguente a sua dor”. O maldito homem do subsolo, cabeçudo e rancoroso que é, sentiria uma fala dessas como uma bofetada na cara e, de novo, reivindicaria sua parcela de prazer. Fechando-se no seu mundinho, diria para si mesmo “ele foi maldoso comigo, que gostoso!”; “ele foi maldoso comigo e, de tal modo, também pude sentir alívio pela minha dor, porque, mesmo que ele não tenha se compadecido, se enraiveceu e isso significa que minha queixa, de uma forma ou de outra, o atingiu”.

Há uma espécie de masoquismo psíquico nos ideais do homem do subsolo. Ele não quer ir ao dentista. Prefere acreditar que sua dor de dentes irá acabar sozinha, ou melhor, que irá acabar sendo castigado e castigando a si mesmo e as pessoas que estão à sua volta. Ele é como um velho que se recusa ir ao médico pelo prazer de ser rabujento: “Os médicos… Ao inferno! Posso cuidar sozinho da minha dor… Ah, e como eu minha dor…”.

A dor é o motivo pelo qual a consciência pode se sentir hipertrofiada, além disso, sem dores, o paradoxalismo do subsolo termina. “Quem é que vive além dos quarenta?”, se pergunta o homem do subsolo. E responde: “Os imbecis e os canalhas”. Então, finalmente, logo em seguida, diz com toda paixão: “eu mesmo hei de viver até os sessenta, setenta, oitenta anos”. Em outros termos, isso quer dizer que o homem do subsolo se reconhece como um canalha; um doente por escolha; alguém que aceita a existência, apenas e exclusivamente porque é nela que se tem a oportunidade de sentir todas as dores. Diante da morte, talvez, ele não gemerá por medo e nem por dor física, mas para ter a oportunidade de morrer com dramaticidade, fazendo de cada instante de sua vida, um escândalo pessoal e social.

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