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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

Diálogo sobre a paz e o sofrimento

Em grande parte das questões mais importantes deste mundo, o melhor seria não fazer nada.

Gold – Mina de Ouro Serra Pelada', fotografia de Sebastião Salgado
Gold – Mina de Ouro Serra Pelada', fotografia de Sebastião Salgado

Melatimos: Maldito mundo! (Escarra e cospe próximo aos pés de outro homem).

Euthimedes: Esse teu costume de cuspir é que é maldito, Melatimos!

Melatimos: Os sonhos aparecem das profundezas, Euthimedes, e nessa manhã, fui terrivelmente abatido pela lembrança de meus sonhos!

Euthimedes: Com o que sonhou, meu amigo?

Melatimos: Sonhei que o mundo era bom, que as pessoas eram boas e que a justiça imperava sobre todos nós!

Euthimedes: Ora, mas então teve um bom sonho!

Melatimos: Sim, evidentemente que tive, e isso porque só cultivo em meu espírito as mais belas virtudes e assim não poderia ter tido um mau sonho, pois embora esses não sigam nenhum princípio lógico bem estabelecido, seguimos sendo moralmente os mesmos, ainda que em sonhos.

Euthimedes: Ora, mas então qual foi o problema e por que chegastes cuspindo e blasfemando?

Melatimos: Ora, mas não é óbvio? É porque os conteúdos dos meus sonhos não estão em concordância com o mundo real. Não à toa e com muito acerto, disse o grande Mathias Aires: “tudo o que distinguimos ou sabemos é por comparação; não podendo comparar, não podemos conhecer”[1]. Tão logo acordei e olhei pela janela, já vi a primeira injustiça: um mendigo faminto pedia esmola e todos lhe ignoravam; não demorou, passou um cavalo puxando uma carroça enquanto um homem lhe fritava um chicote nos lombos; no momento em que tombava a erva na cuia e preparava o chimarrão, abri um noticiário e o presidente estava dizendo uma nova barbaridade sobre a forma de conduzir a política em relação à última tragédia natural. Em toda parte, só há choro e ranger de dentes[2]: a natureza é zoofágica e nada escapa da cadeia alimentar. A pobre plantinha é consumida pelo coelho, que é consumido pela cobra, que é consumida pelo gavião, que é consumido pela morte. Assim tudo se vai, pois tudo é hostilidade e variação. Antes de chegar até aqui, ainda pela manhã, vi um grupo de doutrinadores decepando o intelecto fresco e tenro de pobres criancinhas, guiando-as por um caminho que tinha a finalidade de chegar até uma igreja. Pobres criancinhas, pobrezinhas! Vi ainda, nesse lugar, o padre e sua vaidade serem aplaudidos por mentecaptos. Tal como na cadeia alimentar biológica, vê-se nos dogmas os padrecos consumindo a mente de senhorinhas, que consomem a mente de seus maridos, que consomem a mente de seus filhos, e assim, também no campo da intelectualidade se vê a hostilidade e tal como a vida biológica não segue livre de predadores, também não segue livre o intelecto dos charlatões doutrinadores. Fazem o mal sempre na impressão de estarem fazendo o bem. Em grande parte das questões mais importantes deste mundo, caro Euthimedes, o melhor seria não fazer nada e é por fazerem demais que os homens erraram tanto.

Euthimedes: Óh, como dizes bem, caro Melatimos! E emprega tão bem as palavras que, tal como Górgias, tua retórica cuida das “mais importantes coisas humanas”[3], pois assim o é teu discurso sobre o sofrimento; mas toma o devido cuidado, pois algo “não deve parecer verdadeiro apenas porque dito com eloquência”[4]. Olha também para as coisas belas da vida. O mundo não é apenas dor, mas há também nele certos oásis a que tu podes acalentar tua alma perturbada. Não é o mundo certamente tão belo quanto nos seus sonhos fantásticos e totalmente repletos da mais justa justiça, mas há sim, motivos para sorrir. Recorda, por exemplo, de quando tua filha Irianes nasceu: teu humor não se elevou e teus dentes não se mostraram para todos, cheios de alegria e verdadeiro deleite? O mesmo não ocorreu quando apareceu no teu mundo tua filha Lisandrina? Não ocorreu o mesmo, quando conheceste e viste pela primeira vez a tua amada esposa? Não é assim que ocorre, quando vês teus pais e teus amigos felizes quando compartilham alguma festividade? Recorda, pois, das vezes que viajaste com essas pessoas queridas e estiveram juntos nos lugares mais belos desenvolvidos pela natureza; recorda também de todos os belos dias, quando pela manhã acordas próximo de tua família e podes olhar essas pessoas queridas nos olhos e vê-las vivas e contentes. Que sonho justo poderia ser tão bom quanto essa realidade que para ti se apresenta? Tens tanto amor a tua volta, mas fixa tua atenção no sofrimento do mundo. Tu não podes e nem deves achar que o peso da dor dos outros deva afetar teu próprio ânimo e felicidade, especialmente porque quando teu ânimo está afetado, decorre disso, o fato de tornar afetado também o ânimo das pessoas que te amam. Cada um está no seu estágio evolutivo, mesmo os sofredores famintos e os pais órfãos de seus filhos e os filhos órfãos de seus pais. Cada história possui suas mazelas, mas também suas benesses; em certa medida, tudo depende da perspectiva que se encara as coisas. No fundo, tuas descrições do sofrimento me mostram também o teu caráter virtuoso: olhar tanto o sofrimento dos outros esconde que no fundo tu és um compassivo, não um rancoroso pessimista! Cuspir aqui e ali, próximo aos pés de teus amigos, não me parece fazer parte de tua personalidade; sorte a tua que não acertaste o meu dedo, deves, antes, abandonar essa máscara pesada. Que tua revolta seja legítima, óh, quanto a isso não tenho a menor dúvida, mas, por favor, tenta te controlar. Que tua revolta se torne compaixão aparente e ativa, que teus desgostos com o mundo, tornem-se em força para ajudá-lo e para amá-lo de fato, mas jamais para maldizê-lo, tornando-o assim ainda pior do que já é. Não venhas me pregar a etiqueta de otimista, pois sabes que não sou e nem poderia ser isso. O sofrimento também me afeta, mas apenas não faço dele a tônica das minhas condutas.

Melatimos: O que parece é que queres me convencer que o problema da existência não está entre o sofrimento da vida e a frugalidade dos prazeres, sempre inúteis e que escondem atrás de si tantas dores, mas sim que o problema está entre o sofrimento e os parcos momentos de alegria genuína. Mencionas Górgias como um elogio, mas sabe que, diferente dele, sou daqueles que persuadem objetivando o saber e não as crenças[5]. Minha retórica é para ensinar e para aprender e não para fazer crer em formulações vindas das nuvens: tudo que digo vi, ouvi e senti; não quero, portanto, convencer ninguém per fas et nefas. A verdade é que não quero convencer ninguém de nada e nem vencer nenhum debate. Há tempos já reconheci, com toda sinceridade, que há um prazer intrínseco no ato de reclamar, se assim não fosse sequer existiriam filósofos. Hei de reconhecer que apontar para as dores do mundo é uma forma, não apenas de se compadecer, mas de se aliviar. É obrigatória e incontornável a indignação pelas situações ruins que nos ocorrem íntima e pessoalmente, mas a indignação pela dor dos outros é voluntária e só se pode segui-la àqueles que pararam para olhar e refletir sobre o mundo e também os que estão inclinados a isso: se se está vivendo o mundo, sem nenhuma reflexão, apenas seguindo o curso natural das coisas, então se está no grupo da grande maioria, como pequenas gotas que compõem o curso de um grande rio agitado. Os momentos de alegria genuína que tu destacaste certamente são totalmente destituídos de sofrimento e eu os considero todos como os melhores que já vivi, mas tua descrição, novamente nos faz voltar ao estilo comparativo de se pensar, pois tens de concordar comigo que seria um bem se a vida fosse composta apenas dos bons momentos. Não haveria nenhum oásis, pois tudo seria genuinamente bom. E até já posso presumir o que vais dizer: que para o prazer ter o seu valor, precisaria antes estarmos carecendo dele; pois assim é como diz o nosso amado Heráclito, um predecessor da evolução científica, dada sua concepção geral de que tudo muda… “A doença faz da saúde coisa agradável e boa, a fome da saciedade, a fadiga do repouso”[6]. Para não falar de maneira abstrata, se considerarmos teu exemplo da viagem em família para um belo lugar e aplicássemos a isso a ideia de que a vida poderia ser genuinamente boa o tempo inteiro, se diria, nesse caso, que não se está viajando em família, mas que se vive como nômade, pois a todo instante haveria uma nova viagem, um novo belo lugar e, pelo desgaste do corpo e pelo espírito estar a contemplar demais as coisas belas, chegaríamos novamente a um estado de inquietação; se diria que é preciso moderação para fazer todas as coisas sem exageros. Mas se alguém assim proceder estaria me entendendo muito mal, Euthimedes, pois não penso em um hedonismo exagerado, onde tudo seria completamente belo e constituído de bondade o tempo inteiro, mas penso, sim, em um estado de normalidade geral, onde não se excederiam eventos catastróficos, não aconteceriam crises de ciúme pelas qualidades alheias e nem a negligência das dores de nossos irmãos: na maioria dos momentos a vida não é um agito constante, como querem as pessoas dar a entender. Em certa medida, a tranquilidade impera na maior parte do tempo, mas ainda assim se preserva um cansaço constante advindo dos estímulos do mundo. No fundo, não sou mesmo um pessimista, mas um mundanista, que quer ver o amor brilhar acima da dor, a abundância acima da pobreza e o altruísmo acima do egoísmo. Mas não é assim de forma alguma. Prevalece no mundo a ganância e a maldade. Da minha parte, faço meu melhor e ajudo o quanto posso, mas nem sempre é possível aguentar e suportar o peso de ser virtuoso; por isso, deixa-me exercer meu pessimismo antropológico. Ora, é ingenuidade esperar bom senso dos tolos e dos rudes e é exatamente por isso que blasfemo e até prefiro blasfemar (escarra e cospe mais uma vez, agora do outro lado, não mais próximo aos pés de seu amigo). Maldito mundo!

Euthimedes: Apenas cuido, meu caro amigo rancoroso, para que “não conjecturemos à toa acerca das grandes coisas”[7]. Sobre teu discurso, sobre a vida não ser em seus momentos individuais uma agitação constante, estou em pleno acordo. Mas deve-se lembrar que somos já bem velhos e podemos, por isso, estarmos com uma falsa impressão sobre as coisas. Além de velhos, voltados às letras, o que nos coloca em mais uma situação de desvantagem. Em todo caso, ainda concordo contigo, pois todo homem tem belos momentos de baixa energia durante seu dia. Falemos por nós mesmos: quando se está lendo um livro, está totalmente excitado e transbordando de prazer? Claramente que não. E quando está a cuidar das suas obrigações domésticas e familiares? Embora esteja em movimento, segue também uma rotina bem estabelecida, que em certos casos pode ser até lastimável, não pelo sofrimento, mas sim pela repetição. Mesmo os jovens que buscam vencer na vida por meio de uma ambição intemperada têm seus momentos diários de calma e aquietação. De fato, tu tens toda razão. Se posso contribuir para tuas sinceras e prazenteiras lamentações, diria até que há um valor positivo na preguiça. Sim! Percebe que grande coisa é essa. Pois em todos os tempos sempre se destacou o seu lado negativo e paralisante, mas nela há uma utilidade natural. E nem falo da preguiça dos ociosos, mas sim daquela dos justos, dos trabalhadores e dos filhos comuns da terra: que há de mal em se sentir preguiçoso depois de um longo dia de trabalho? A preguiça não é apenas o não querer fazer nada, mas também o cansaço por se ter feito muito. Há uma preguiça legítima, que advém dos trabalhadores, que sofrem mais na jornada de trabalho do que pelo peso de sua inércia e pelo tédio. O tédio profundo que leva até a contemplação, só afeta gente como a gente. Os trabalhadores, não das letras, mas das máquinas e ferramentas, antes de sentirem tédio, sentem uma legítima preguiça. E que sofrimento há nisso? Nenhum, caro amigo, nenhum. Que seja curioso que os homens nasçam chorando e que isso pareça atestar alguma tendência ao sofrimento nesse mundo é um argumento bem fraco, pois nascer chorando é uma verdadeira bênção! Bebês que não choram quando nascem estão mortos e engasgados. Não se poderia chegar nesse mundo com preguiça e em pura tranquilidade, não porque ele seja denso e cheio de sofrimentos, mas porque para se estar tranquilo e preguiçoso, é preciso, antes, merecer a preguiça e a tranquilidade. Um bebê também trabalha: tem de sorrir para os pais, gritar pela teta da mãe e cumprir devidamente com sua função de alegrar e fornecer amor a um lar. Do mesmo modo, nossa presença energética neste mundo tem a função de alegrá-lo, pois estamos aqui, apenas para evoluirmos e nada mais. Além disso, consola tua dor pensando na verdade da natureza: que ela é “desprovida de bondade, assim como de malícia; que ela nada mais faz do que seguir algumas leis necessárias e imutáveis, produzindo e destruindo os seres, às vezes fazendo sofrer aqueles que ela tornou sensíveis”[8]. Vê, pois, que um sofredor como tu, nada mais é que um objeto de sensibilidade da natureza! Deixa, pois, esse teu rancor, porque ele contigo não combina!

Melatimos: Honestamente, tu professaste agora, Euthimedes, a mais profunda das verdades. Depois disso, todo o resto do que tenho a dizer parece ter se tornado pequeno. É, sem dúvida, por falta de conhecimento sobre a natureza, que os homens causam tanto mal uns aos outros; mas ainda tenho de mencionar que a própria natureza traz uma carga enorme de sofrimentos. A luta começou no mesmo instante que a vida apareceu neste mundo. Há guerra em toda parte. Que essa seja uma verdade inquestionável, atesta o pessimismo científico, pois basta olhar para a nossa própria composição óssea e teremos a prova de que só somos como somos porque matamos e corrompemos muitas outras espécies. Todo animal é um vencedor. A propósito, “ao vencedor, as batatas”[9], é o mote que faz com que a literatura machadiana concorde com a ciência darwinista. Óh! Percebe, caro Euthimedes, quão prazeroso é olhar para o sofrimento do mundo. Em certo sentido, parece até mesmo um consolo para homens sensíveis… O ato de escrever belos livros podendo expor suas dores e profundas reflexões sobre tudo que dói em si e nos outros; o intelectual se alimenta da dor do mundo. Se queres saber, sinceramente, o porquê cuspo e escarro é pelo fato de isso me tornar eloquente e sedutor, dando-me certa graça aparentemente natural. No fundo, sei da importância de se teatralizar a vida. Isso, no entanto, não significa que eu seja indiferente às dores do mundo. Mas, deixa-me reclamar, por favor, Euthimedes, por favor… (Cospe novamente e gargalha).

Euthimedes: Que tua sinceridade seja a mais bela das tuas qualidades é algo que nenhum de nossos amigos deve contestar! Tu dizes exatamente o que eu poderia ter-te dito, porém tive medo de dizer, pois temia que pudesse ofender-te (ri prazenteiramente). Em todo caso, és um bom ator, Melatimos! Há, por ventura, algum bom filósofo que não seja melancólico? Será que ainda queres saber mais um elemento capaz de compor os momentos da vida em que não há nenhum sofrimento, além dos já mencionados legítimos oásis de alegria?

Melatimos: Não há nada que eu queira mais.

Euthimedes: Pois então pensa na criatividade. Dela toda produção artística e cultural depende. Todo filósofo precisa ser criativo em alguma medida. Sem criatividade não existiriam escultores, poetas e músicos. O espírito criativo é aquele capaz de fundir elementos estranhos: é pensar os medievais como dependentes dos antigos e os iluministas como dependentes dos medievais. A forma como lidamos e nos relacionamos com os livros depende muito de nossa criatividade, pois é pegando uma ideiazinha neste e outra naquele que formulamos as nossas próprias. Um ser criativo é uma esponja que absorve várias ideias, mas que, normalmente possui uma ideia geral e inicial que considera como sendo sua própria, pois essa decorre do seu próprio caráter: quer então, que tudo corrobore com o que ele é, que tudo ajude na manifestação natural de si mesmo e de sua ideia própria inicial. Entristece-se quando encontra nos outros as mesmas ideias que já teve, pois acreditava ser o primeiro a pensar naquilo; com a maturidade, acaba por compreender que a criatividade depende muito da atividade; então deixa de observar e passa a executar. O que se pensa e se observa deve ser feito, muitas vezes, pelo próprio impulso de criar e com pouca reflexão. Depois, basta lapidar e aprimorar. O que quero destacar, no entanto, é que enquanto se está a desenvolver qualquer tarefa por meio de uma genuína criatividade, não se está a sofrer. Durante o ato criativo pode se estar a dispender um grande esforço, o que leva ao cansaço e esgotamento da cabeça e do corpo, mas jamais ao sofrimento. Em verdade, pode-se até dizer que a criatividade é oposta ao sofrimento. Que grandes artistas cheguem ao suicídio não se trata da sua inclinação à criatividade, mas antes ao fato dessa inclinação estar perdida ou em desalinhamento com o mundo ou com a vida que se quer. Que a cultura de massas tenha relacionado o suicídio e a depressão dos artistas à sua alta capacidade criativa é a maior das canalhices: Jim Morrison e vários outros foram vítimas da cultura da depressão, que lucrou em cima deles. Quem pensa ser necessário a depressão e a melancolia para se ser criativo, deve antes olhar para os centros urbanos, em especial para os grandes prédios e imaginar, dentro deles, a quantidade imensa de jovens trancafiados que ali existem e ter a plena certeza que a esmagadora maioria deles se encontra depressiva, mas que infelizmente não serão nada de muito especial na vida. Não se deve sofrer pela falta de criatividade: quem a busca a encontra, e quem já a encontrou muitas vezes, certamente não se preocupa com o fato de ela por vezes se afastar, pois sabe que ela cedo retornará. Trata-se de uma luz iluminadora que tem seu tempo de chegada e de partida. O verdadeiro sábio não sofre quando ela se vai, ao contrário, até mesmo se alivia, pois pode assim respirar novos ares, para novamente se preparar para recebê-la outra vez. Ele sabe esperá-la com toda paciência e não se ilude pensando que são os vícios que irão trazê-la por meio da loucura ou da intemperança; por meio do vinho, do cigarro ou das drogas. O sábio vê o mundo inteiro como obra da criatividade e em consequência disso enxerga a si próprio como um ser criativo. Assim, em certa medida, nunca se encontra totalmente distante do seu espírito criador. Vê a si próprio como deus de sua vida e de sua obra. Naquilo que faz com amor, levanta sua cabeça e ali não vê nenhum sofrimento, mas sempre o deleite. O seu espírito criativo é puro prazer, pura moderação, pura prudência e a partir dele descobre a si mesmo, supera suas produções antigas e sorri perante as novas.

Melatimos: Diz muito bem e de modo belíssimo, caro amigo. Ao que me parece, até mesmo os criacionistas esquecem de aplicar a criatividade ao Deus criador e o fundo de teu discurso escondia justamente isso! Se seguirmos tuas reflexões, então concluiremos, antes de tudo, caso exista um Deus, que ele é um artista, pois nada se cria sem criatividade e dela toda arte depende. Me surpreende que tu não tenhas discorrido sobre isso, mas te conhecendo como conheço, poderia colocar a mão no fogo pela opinião de que ocultastes por querer esse ponto. O criacionismo depende de uma criatividade transcendente que, por conseguinte, depende da liberdade transcendental da vontade de Deus. Apenas assim, parece ser possível compatibilizar o Deus de Agostinho com o mundo categorial de Kant. Oh! Mas mesmo não crendo em fantasias religiosas, pensar na criatividade divina é um deleite e ainda mais do que isso: pensar que nossa própria criatividade possa depender dessa criatividade maior, é um pensamento ainda mais deleitoso. Eis uma ideiazinha dos deterministas quando refletem sobre a arte concebida por uma criatividade divina: o escritor se vê como um meio para uma finalidade, quando na verdade, amparadores, anjos e símbolos é que seguram sua pena e escolhem suas palavras; os pintores têm seu pincel colocado numa determinada cor na paleta de cores e depois arrastado com leveza na tela por um espírito sensível que prende à sua memória um êxtase imagético; o músico parece ter um anjo fora do tempo, que deixa todas as notas prontas e apenas as envia para cá. Se tem um modo de se definir a qualidade de uma arte, este é o método da sinceridade! Quando não puder perguntar para o próprio artista, pergunte para sua própria obra: isso foi inferido da realidade do mundo? Compare-se também a biografia do artista com sua composição artística! Deve haver a mais perfeita sincronia entre o que se fez da vida moral e o que produziu na vida intelectual. Uma música perversa, por exemplo, já pode ser descartada de ter sido por inspiração da criatividade divina, dado que Deus não pode ser perverso. Nisso já se exclui muito mais da metade das criações atuais. Dirão os mentecaptos, ouvintes de músicas tolas que tal pensamento é elitista, pois desqualifica a criação e a criatividade das músicas de favela e de diversas culturas, mas a esses, pode-se dizer com total segurança que quem ainda não entendeu o mundo como dividido por graus qualitativos e de complexidade, também não entendeu a própria vida. Ou será que se pode dizer que o elefante é um animal mais fraco que o coelho? Que a raposa seja mais lenta que a toupeira? Jamais! Pois cada coisa segue sua constituição natural e em decorrência disso toda a natureza é diferente e desigual. Como bem diz o pavoroso Nietzsche: “É a era da comparação! É seu orgulho, mas com muita justeza também o seu sofrimento. Não tenhamos medo desse sofrimento!”[10], e também que no caso dos gregos, “a arte era impensável sem a competição”[11], pois faziam versos, antes de tudo, para vencer. Pode a sinceridade habitar junto das músicas e das artes ruins em geral, porém, essas não chegam ao ponto de poderem ser relacionadas com a criatividade divina, desde que se creia de fato no controle dos anjos protetores e que a mão de Deus em tudo influencia e tudo manipula pelo talento instrumental dos artistas. Disso decorre que ao pensarmos na arte e na criatividade, a sinceridade também deve ser separada em graus, pois há aquela que só pode alcançar um pouco de força, presa à mente pequena de artistas limitados pelas suas poucas habilidades e pelo seu espaço cultural inferior, por vezes, reconhecidamente coisas que não são dependentes dele mesmo, pois não se escolheu seus próprios talentos naturais e nem tampouco seu local de origem e nascimento: que a cultura celta seja mais bela e elevada que o funk carioca é um pensamento objetivo que nada tem a ver com a dita síndrome de vira-lata sagazmente exposta por Nelson Rodrigues, referindo-se à ideia de que nós brasileiros sempre preferimos o que é internacional e que valorizamos mais a cultura externa do que a interna, pois do mesmo modo se poderia dizer que a banda de rock brasileira Sepultura é muito superior a muitas outras bandas de países predominantemente muito mais dominados pelo rock. Do lixo por vezes nascem flores, Euthimedes, e essas normalmente são as mais belas, pois para aparecerem precisaram se destacar e lutarem muito mais.

Euthimedes: Que seja possível um espírito divino para a criatividade é algo bonito de se pensar e tu disseste tudo muito bem. Agora, considera, por outro lado, não Deus, mas a natureza e a evolução. Tiremos de nossa reflexão qualquer inteligência transcendente que possa ser o motivo de nosso deleite criativo e lembremos que novas espécies surgem pela variação de suas qualidades: pelo uso e desuso das partes, pelo ambiente e pela luta e ajuda constante. O mundo está a todo momento criando ossos, montanhas e variações nas características; está também a repelir e a aniquilar aquilo que é fraco. É uma pena não existir um homem muitíssimo antigo para nos ensinar tudo que viu e o quanto é possível mudar. O caráter inteligível e imutável a que tanto gostamos de nos referir, disse o pavoroso Nietzsche, tal como tu a ele te referiste, trata-se de uma mera verdade alegórica, nunca uma verdade em sentido estrito: “se imaginássemos um homem de oitenta mil anos, então teríamos nele um caráter absolutamente mutável”[12]; isso é assim, apenas porque esse homem teria visto tantas culturas, tantos artistas e teria criado tantas obras que poderia a todo instante mudar sua personalidade: talvez vivendo mil anos como um ditador terrível, os próximos mil como um asceta, outros como libertino, os seguintes como padre, etc. Seria esse homem milenar capaz de uma ascensão constante à sabedoria ou ele, por querer, deixaria o mal aflorar por alguns instantes apenas para dar uma aquecida e agitada em sua existência? Que seria dele se não fosse a criatividade e o deleite de tirar de dentro de si mesmo uma ideia totalmente grandiosa, tal como sua longa idade? Ele teria tantas informações para comparar, mesclar e unir que perderia de vista alguma ideia que pudesse considerar inata e original para fixar sua atenção, pois, tendo diante de si tanto tempo vivido e ainda muito tempo para viver, se preocuparia muito pouco em honras póstumas e legados para a posteridade, pois ele seria o único a reconhecer e a validar ou invalidar os legados. Ele seria o dono da moralidade e por isso faria dela o que bem quisesse. Assim, podemos dizer que só damos um alto valor para nossas obras por conta de não termos muito tempo para produzi-las e menos ainda para delas desfrutarmos ou para vermos suas consequências. Com vinte anos se preocupa com a fruição dos gozos, com trinta, preocupa-se com o casamento, com quarenta já se começa a se preocupar com o fato de não deixar nada para os filhos; com cinquenta, muito da vida já perde seu sentido e, daí para frente, é um aguardar silencioso e modesto pela chegada da morte. Um homem que viva no máximo cem anos, quando dispende seis meses de muita atividade para compor sua obra, significa que dispendeu 0,5% de toda sua vida para tal coisa. Mas, seis meses dedicados à composição de uma obra em se tratando de um homem de oitenta mil anos, não significam quase nada. Os metafísicos mais profundos, creem sem nenhum problema que as obras da vida atual serão retomadas nas próximas, como se eles fossem se tornar os comentadores de seus próprios livros; tu, por exemplo, um seguidor de Heráclito, poderias bem considerar que em outra vida, tua alma tenha sido a do próprio Heráclito. Vá lá! Mas esse é um pensamento hostil, tão abstrato e alegórico que podemos deixá-lo adormecido. Importa-nos mesmo que a criatividade é um bem a ser exaltado, pois num mundo de dores e sofrimentos constantes, observáveis em toda parte, enquanto faz uso da sua criatividade, o ser humano torna-se o cume do universo, pois iguala seu poder e força com o próprio impulso primordial da evolução; em sua criatividade, o big-bang mostra que ainda não parou de explodir, pois não existe nada inerte no mundo e tudo é movimento. O que nos parece privado de movimento, na verdade, encontra-se apenas em um repouso relativo. Tudo que está em pé irá cair; o mais duro dos objetos nunca se encontra parado, mas, ao ser afetado pelo tempo, é afetado também pela mudança e, o que é afetado pela mudança está em constante evolução.

Melatimos: Dizes bem! E eu posso complementar o que dizes, mencionando o fogo, que a mim, parece ser o elemento que pode ser relacionado à criatividade, como aquele que melhor representa a evolução moral do ser humano. O fogo tudo reúne e tudo agrupa. O fundamento para isso é que se trata de uma fonte de eliminação e para forjar o novo é preciso desmantelar o antigo. Para muitos o fogo faz com que um pedaço de carne deixe de ser um cadáver para se tornar um alimento desejável; a partir dele, o aço bruto é forjado e martelado para formar espadas que perfuram o coração quente de homens brutos e guerrilheiros; com o fogo, caro amigo, a sílica é aquecida para se tornar vidro. O fogo que tudo reúne e agrupa, é fonte de transformação. Foi ele que reuniu o homem selvagem, é o princípio da moralidade do homem, pois se nossos ancestrais não tivessem dominado o fogo, ainda estaríamos nas profundezas da pré-história. A princípio, o selvagem nômade levava o fogo onde ia, mas aprendendo a dominar tudo a sua volta, crescendo sua criatividade quanto à agricultura e domesticação animal, fez do fogo a parte central do seu lar. O fogo doméstico não podia ser apagado. Cada família tinha o seu e, dentro do fogo, criaram-se os deuses. Mas se na natureza só podem existir causas naturais e, sendo o cérebro humano, parte da natureza, tendo Deus surgido no cérebro a partir da motivação do fogo, então, deveríamos conceber que tudo que aparece na fantasia seja natural e, portanto, todos os deuses existem? É algo a se pensar. Fogo e cérebro estão interligados. O fato de cada família ter seu próprio fogo e de ele ter de ser mantido e nunca apagado foi o que primeiro fortaleceu a fé, pois no empenho de manter o fogo sempre aceso e constante, extraíam a sua força de dominação e por conseguinte o poder cruel ou não de seus deuses. A primeira vez que duas ou mais famílias reuniram seus fogos em uma fogueira única, foi também a primeira vez que os deuses se casaram, então foi assim que surgiram as primeiras cidades, pois o fogo deixou de ser doméstico e se tornou público[13]. E o que isso tem a ver com a criatividade, caro amigo? Em verdade, tudo. Em toda transformação e modificação verdadeiramente essencial pela qual o ser humano passou houve sempre a presença do fogo e da fumaça. Oh! Imagina quantas canções foram inventadas enquanto dançavam louvando os deuses que habitavam o fogo? Quantas orações, quantos poemas épicos, epopeias e rituais? Pelo fogo ser fonte de aniquilação é que se poderia ver nele a fonte de passagem para o mundo dos mortos, tal como uma espécie de portal: por isso se faziam referências a ele, queimando inimigos e oferecendo pobres criaturas inocentes. O festejo e a dança dependiam exclusivamente do entretenimento causado pelas chamas e labaredas do fogo. Em um mundo sem nenhuma automação e tecnologia como o nosso a única coisa que se mexia de maneira rápida, imediata e por isso sedutora, era o fogo. Dele vinha todo o mistério e nele se fundiam casamentos e contratos; não à toa nosso grande Heráclito, o primeiro filósofo evolutivo, ter dito tão sábias palavras: “todas as coisas o fogo, sobrevindo, separará e empolgará”, e também: “todas as coisas trocam-se a partir do fogo e o fogo a partir de todas as coisas, como do ouro as mercadorias e das mercadorias o ouro”, e por que não mencionar ainda: “o cosmo, o mesmo para todos, não fez nenhum dos deuses e nem nenhum dos homens, mas sempre foi, é e será fogo sempre vivo, acendendo segundo medida e segundo medidas apagando-se”[14]. Quando várias cidades reuniram seus fogos, surgiram então nações e países. O fogo é como a capital de um Estado. Lá encontra-se sua força e origem, os fogos menores são as cidades e aqueles que se encontram longe da centralidade devem imaginá-la e fantasiá-la pelos relatos e pela oralidade dos outros concidadãos. Quantas invenções não devem ter sido proclamadas por homens fiéis ao fogo! Hoje podemos compreendê-las como meras fofocas, mas para o homem primitivo tais invenções da fantasia eram um atestado da sua inteligência e ele até se gabava da capacidade de inventá-las. Disso surgiram fábulas e mitos. Nesse sentido, pode-se dizer que a filosofia e os filósofos foram aqueles que tentaram controlar e organizar a expansão do fogo dado que o mundo se encontrava incendiado pelos mitos. Mas ainda hoje esse incêndio não se encontra completamente controlado e serão precisos, talvez, mais dois mil anos para começarmos a ver algum efeito positivo por parte da filosofia. Mesmo passado mais esse período de tempo, é possível que nada mude, pois infelizmente também ainda há filósofos que continuam profanando a sua origem e intenção inicial de ruptura com os mitos, e querem, assim, falar de uma filosofia da religião, mas isso é um disparate, um centauro. O que o filósofo fez e deve continuar a fazer, nada mais é do que abrir os olhos do povo, para que ajam com astuta consciência quanto às suas escolhas e crenças, se é que se pode, nesse mundo, escolher alguma coisa, pois nunca se deve esquecer “que é na natureza, na experiência e na verdade que é preciso buscar os remédios para os males da nossa espécie”[15]. Se quem escolhe aos deuses fixando-se às heranças tardias do fogo possui uma tendência de olhar mais para fora do mundo que para dentro, seja ou não uma coisa natural advinda do próprio cérebro é uma outra história e bem difícil de definir. É a ideia de Deus, natural ao homem? Por natural, quero dizer: ocorre a ele porque de fato Deus flui na vida e na realidade das ocorrências. Mas ainda seguindo a minha índole e personalidade, tenho que demarcar que talvez, mesmo da criatividade possa se derivar algum sofrimento, pois, pensa, caro Euthimedes, pensa! Quanta criação estranha e antinatural pôde ter sido derivada da mente fantasiosa dos homens e quão isso fez com que eles se afastassem da natureza, e sabemos muito bem que os homens sempre se enganam quando se deixam levar pela sua imaginação: a felicidade genuína, se é que ela existe de fato, é encontrada nas nossas inclinações naturais, jamais nas abstrações exageradas e extremadas, normalmente perpassadas pela criatividade! E quantos males se criaram! Oh! Quantas ditaduras e regimes totalitários foram primeiro imaginados pela cabeça estúpida de homens cruéis!

Euthimedes: Embora fale bem, Melatimos, deves, porém, não confundir as coisas. A criatividade de que falei no início não deve ser compreendida tão livre para ser aplicada a qualquer tipo de invenção. Ela, antes, trata-se de um elemento cheio de positividade.

Melatimos: Quer dizer que criações que tendem à maldade não advêm da criatividade?

Euthimedes: Exatamente. E para melhor me compreender, deves aplicar à criatividade o elemento da inspiração: esta, jamais pode ser ligada ao poder e a ambições externas. O verdadeiro artista e criador não pensa tanto no ganho que sua criação pode ter, mas sim em ser sincero quanto a ela. Penso que tu poderias concordar facilmente com isso, não é mesmo?

Melatimos: Claramente, sem sinceridade nenhuma criatividade pode ser honesta.

Euthimedes: De tal modo, poderia um ditador que pensa em um novo modo de admoestar e perseguir, fazendo sofrer uma nação inteira, ter agido pela criatividade?

Melatimos: Oh! Euthimedes! Evidentemente que não! Claramente me convencestes que na criatividade não há nenhum sofrimento.

Euthimedes: E ainda tenho mais a dizer, meu caro, pois da verdadeira criatividade que faz espalhar o bem e o justo pela terra é que, mais criatividade se pode extrair, como em um crescimento multiplicador; e isso é assim justamente porque nela não há nenhum sofrimento. Um homem criativo bebe da criatividade do outro e assim forma pelo fogo dos seus pensamentos novas ideias e obras. Por exemplo, sabes o que mais me espanta nos livros? É lê-los pensando: “o autor quase disse o que eu penso!”; “aqui, justamente aqui, ele quase alcançou a verdade!”. E então, o que fazemos? A partir de uma criatividade aquecida escrevemos nossos próprios livros para assim ajustarmos os autores que lemos, depois, os nossos leitores, o que fazem? Nos leem para nos corrigir. E não é uma lástima, pensar que se escreve sempre para não acertar o verdadeiro ponto? O leitor mais excitado, o discípulo mais fiel, irá, pois, revoltar-se e se tornar um infiel, porque de tanto se cansar em não encontrar em nós ou no seu autor favorito aquilo que quer e almeja ler e pensar, rebela-se de maneira justa e criativa dizendo assim: “gosto dele, mas não concordo com tudo o que ele diz, agora, preciso eu mesmo dizer o que quero!”. Quando negamos partes dos nossos autores favoritos, agimos tal como o fogo age com o aço, com a carne ou com a sílica. É assim também a forma como ocorre com as outras artes genuínas e elevadas do espírito humano, pois o pintor aprende a observar a natureza e assim que coloca o pincel na tela, trai a verdade de suas observações ainda que possa executá-las com muita fidelidade e exímio. Mas ao contrário do que possa parecer, a criatividade não se limita apenas às artes e as obras em geral, mas também pode ser despertada nos filhos comuns da terra: uma nova brincadeira que é pensada para agir com as crianças e com os filhos e a pedagogia da educação. Mesmo na arte da culinária se pode pensar na criatividade, pois assim que se modifica uma receita, pode-se estar diante de um novo gosto e uma nova comida. Há criatividade também na jardinagem e na engenharia.

Melatimos: Bem, mas e quando a criatividade é utilizada para a formação de objetos que possuem uma finalidade destrutiva, tal como armas brancas e armas de fogo? O que pensas?

Euthimedes: Oh! Mas fazes uma excelente pergunta, Melatimos! Penso que esses são os casos mais rudes, onde não há qualquer envolvimento da inspiração. Trata-se, portanto, de se pensar que a inspiração depende de graus para assim estimular o surgimento da criatividade. No caso da criação de armas, o grau é mínimo, no caso das artes da música, da poesia e da filosofia, a inspiração possui um grau máximo. Não posso dizer mais nada sobre isso, pois que seres humanos usem as armas ao invés da razão para controlarem seus embates é algo bastante lamentável e até mesmo incompreensível.

Melatimos: Percebe, então, que consegui uma brecha para estabelecer que a criatividade, embora seja crucial para compreender o adormecimento do sofrimento, ainda é possível que dela derive alguma malícia. Na criação das armas, os homens não são sinceros e nem tampouco inspirados, porém, ainda assim, criativos. A finalidade das armas é sempre a destruição e por isso poder-se-ia talvez dizer que foi o fogo da criatividade que fez com que os homens se matassem. A mente aquece para criar, mas também para destruir; o fogo foi um símbolo, mas também projetou muita dor e morte. Se queremos elevar a criatividade, devemos apenas fazer o adendo de que ela tem sua face perigosa, em especial naqueles que forjam espadas e criam armas.

Euthimedes: Por Deus, Melatimos! É exatamente assim que devemos proceder.

Melatimos: Se há um princípio último a que devemos discorrer e que pode ser absolutamente antagônico ao sofrimento, este talvez seja o amor.

Euthimedes: Mas isso é um clichê! Por Deus, Melatimos, um clichê!

Melatimos: Entendes cada vez melhor porque cheguei escarrando e cuspindo, Euthimedes. Não me falta amor. Há tanto amor em mim para formar o conteúdo de meus sonhos utópicos, tanta alegria, sinceridade e criatividade em tudo que faço, que, na vida pública e nos olhos dos outros homens, tenho de disfarçar tudo isso. Mas é assim apenas superficialmente, pois assim que se aprofunda comigo em sentimentos e diálogos sobre os deuses e demônios, me abro e me torno acessível. Vê só, estou agora mesmo a exercer essa estranha sinceridade que tanto falo e que não me abandona. Nos meus dias, meu amigo, cada pequena epifania é um ato de amor. Fixo o olhar nas estrelas, no borro do mate, nos erros da pintura da parede e em tudo isso vejo beleza. Só nos homens é que não encontro beleza alguma. Há sofrimento por toda parte e isso me afeta, especialmente porque não há sofrimento em mim, que sou um ser de puro amor. Até mesmo nas minhas doenças e nas minhas dores vejo certa redenção, e isso vem do amor. Oh! Sim, as dores me incomodam e disso pode-se dizer que está presente o sofrimento físico, mas ainda encontro nelas algo de positivo e sempre um ensinamento, normalmente, a ideiazinha difícil de lidar, de que tudo está determinado, dado que a natureza nada mais é que um todo vivente em que todas as partes colaboram necessariamente umas com as outras para uma expansão moralmente neutra: Oh! Euthimedes, é a máxima verdade o fato de que “não pode haver energia independente, causa isolada, ação desvinculada”, pois “todos os seres agem sem interrupção uns sobre os outros”[16], assim é que se pode dizer que a dor de cada um é a dor do todo, do mesmo modo que o amor de um é o amor de todos. E sendo o amor uma infinitude subjetiva, um sentimento que causa modificação, elevação e contribuição nos outros, todo o amor que se sente por si, é um amor que se sente pela humanidade e por tudo que vive e existe no mundo e no universo, tal como, todo amor que há em todo ser que vive e existe no universo contribui para o nosso próprio amor para nos elevar, influenciar e nos modificar. Apenas o amor pode furar o determinismo das ações, e não, não é porque ele é sobrenatural ou contrário à natureza, mas justamente por se mostrar em conformidade com ela. O sentimento que temos da liberdade de nossas ações, mesmo sabendo que elas estão vinculadas à natureza e ao nosso ser essencial, dado que não poderíamos agir de outra forma diante de um motivo, é o sentimento dos mais importantes, pois o amor que temos pelos outros e por nós mesmo vem disso. Há uma corrente de ações no mundo que fazem o sofrimento cessar. O mendigo que vi pela manhã, ao ser ajudado com uma esmolinha, por mais que esta não vá fazê-lo mudar estruturalmente sua vida e existência, é um pequeno ato de amor que faz parte dessa corrente de ações, o mesmo vale para aqueles que deixam suas crianças livres de dogmas, não imputando muito cedo nelas seus próprios preconceitos, para o fechar de boca diante de situações deploráveis e de grande sofrimento, pois às vezes a inércia é um ato de amor. Só se pode pensar em evolução moral porque no mundo não há amor suficiente para nos considerarmos de fato elevados moralmente. A disputa entre o sofrimento e o amor é constante e está em tudo. Não à toa que muitos antigos atribuíam ao amor a função de organização do caos. Caos, nesse caso, significa um mundo que evoluiu fisicamente para o presente estágio, donde a vida para chegar ao cume da racionalidade e do pensar a si própria na cabeça do homem, teve antes de galgar graus na escala das proteínas e calorias. O cérebro é um aglomerado de moléculas sensíveis que se agruparam para que um ser pudesse pensar a si mesmo e a ver a vida com o olhar da inteligência. Todo ser humano é a natureza olhando para si mesma; é disso que se decorre a ideia da frase: “o homem é infeliz se desconhece a natureza”, pois a natureza é o único caminho para a felicidade e para descobrir as próprias inclinações: conhecendo a natureza conhecerá a possibilidade de amar e de deixar o caos e o sofrimento constante, que nasceu da necessidade da própria vida em se manter viva. Que o sofrimento da evolução física e material tenha passado sutilmente para o mundo moral, assim que este apareceu nas relações humanas é algo terrível, mas deve-se considerar que com o aparecimento do sofrimento no mundo moral, veio também o amor. Um advém da necessidade de sobrevivência e da luta das espécies, o outro, da solidariedade, do sentimento que os pais têm pelos seus filhos e do prazer de se estar em família. É assim que se pode pensar em uma moralidade dos bichos. Ao dizermos “mundo moral”, o que está incluso aí é o mundo da relação dos homens, mas se pensarmos que os animais se comunicam pela sua linguagem apropriada e que se compreendem da sua maneira, então pode-se estender a moralidade para o mundo não humano. Falei, anteriormente, em sentido de destacar o ponto onde se é possível encontrar alguma redenção na natureza e naquilo que posso concluir de nosso diálogo: que o amor é o que podemos contrapor ao sofrimento. Para tornar isso ainda mais claro, talvez se possa aplicar a ele o argumento da simetria, normalmente utilizado para tratar do tema da morte, donde se diz: “quando a morte é, eu não sou, quando eu sou, a morte não é”, assim, no nosso caso, diríamos: “quando o amor é, o sofrimento não está, e quando o sofrimento está, o amor não é”. Sempre que se está sofrendo ou angustiado, pode-se saber exatamente que não se está sentindo amor, pois aí há qualquer coisa de diferente. E vou logo te antecipar, Euthimedes, pois sei exatamente que estás a pensar nos apaixonados que “sofrem por amor”, tal como se diz constantemente, mas que antes seria melhor colocado se disséssemos que “sofrem por paixão”, pois paixão é um sentimento corpóreo, de objetivação do corpo, que pouco tem a ver com o amor verdadeiro. A paixão pode ser um caminho para o amor dos seres que estão na finalidade de encontrar uma relação sexual, mas o próprio amor não faz sofrer. Em seu aspecto mais genuíno, ele é contrário ao sofrimento. Quando se diz que alguém “sofre por amor”, deve-se dar mais atenção à palavra “por”, do que à palavra “amor”, porque antes se quer dizer que essa pessoa “sofre (por não ter) amor”, ou por não ter o objeto amado. E ela sofre, justamente por conta da ausência do amor e não por tê-lo em excesso. É pelo sofrimento ser tão profundamente sentido que se confundiu o amor com ele, dado que esse outro, é também profundamente sentido. É até uma coisa poética pensarmos que em português as palavras amor e dor rimam; mas deve-se ter certo cuidado para não confundir sofrimento com dor. A dor pode ser mensurável e indicada, ela é física, mera resposta do sistema nervoso; é por isso que quando se diz “dor de amor”, temos um problema, dado que o amor é abstrato e não físico: que ele se objetive fisicamente e em ações solidárias, carinhos e ações apaixonadas é uma tentativa de estancar a falta ou de saciar um prazer; ao contrário, o sofrimento é emocional e psicológico, pode até ser espiritual e no cume, é filosófico pois tende ao universal: pode-se até pensar em um sofrimento cosmológico, mas não faz o menor sentido se falar em uma dor cósmica, é por esse motivo que a expressão “sofrimento de amor” é mais adequada, do mesmo modo, é mais adequado se falar em uma “paixão dos apaixonados” do que em um “amor dos apaixonados”. A discussão por palavras, porém, é pouco instrutiva e nos ater aos conceitos e sentimentos parece mais propício. Atente-se, pois, Euthimedes, que é facilmente aceitável que nem todo relacionamento romântico possui verdadeiro amor, e é nisso que reside o sofrimento. Quando duas ou mais pessoas se amam o que ocorre é um adormecimento do sofrimento, pois mesmo que se desentendam constantemente e tenham sempre que se ajustar pela política do lar, da educação dos filhos ou da rotina em geral, nunca disputam pela falta de amor. Quando um dos parceiros infere: “você não me ama mais”, quer dizer, na verdade, “você está sofrendo tanto que não vejo onde está seu amor”. O amor, claramente pode abandonar e partir, pois ele é tal como o fogo, de que antes discorríamos… ele precisa ser alimentado constantemente. Enquanto houver saúde na chama do amor, não haverá ali sofrimento, pois é função do amor queimar o sofrimento. Lamentamos, às cinzas, as coisas perdidas e temos a impressão de por isso estarmos a sofrer por amor, mas tal ideia é errônea. O amor jamais faz sofrer e não se sofre por amar demais, mas por falta de ajuste e sabedoria em relação ao que se sente de amor e o que se sente de sofrimento. Se tuas palavras anteriores puderam me ensinar algo, Euthimedes, foi o fato de que quem souber separar amor e sofrimento, verá claramente que mesmo nos momentos de angústia, há o oásis do amor, pois amor é paz.

Euthimedes: Bem, com isso vejo que não há nada mais que eu possa dizer. Fico feliz pela tua sinceridade e por extrair algo de meu aparente otimismo. Apenas não cuspas mais.

Melatimos: Prometo que vou tentar.


[Originalmente escrito em algum momento de 2023].


[1] Aires, M. Reflexões sobre a vaidade dos homens, s/d, p. 140.

[2] Mateus, 8:12.

[3] Górgias, 451d.

[4] Confissões, Livro V, VI, 10.

[5] Górgias, 454e.

[6] Heráclito, por Estobeu: Antologia, III, 1, 177 (Fragmentos contextualizados de Heráclito, Difel, 2002).

[7] Heráclito, exposto por Diógenes Laércio, XLVII, IX, 73.

[8] Barão de Holbach, Sistema da natureza, Cap. 1.

[9] Quincas Borba, VI.

[10] Humano, demasiado humano, Cap. I, 23.

[11] Idem, Cap. IV, 170.

[12] Idem, Cap. II, 41.

[13] Fustel de Coulanges, A cidade antiga.

[14] Fragmentos de Heráclito, respectivamente: XXV, XXVI e XXIV.

[15] Barão de Holbach, Sistema da natureza, Cap. 14.

[16] Idem, Cap. 4.

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