Ensaio
A fuga de Flávio Bolsonaro analisada a partir de Sócrates
Quem não deve não teme.
Neste textinho, trato de duas personalidades famosas, uma boa e a outra má. Utilizo aqui o que normalmente chamo de argumento do contraste. Isso significa basicamente dizer que, ao tratar de x, podemos entender y. Em outras palavras, ao tratarmos da personalidade boa, entenderemos a má. Se o leitor estiver em dúvida sobre qual a personalidade boa e qual a má entre Flávio Bolsonaro e Sócrates, é porque ou não conhece Sócrates, ou conhece muito mal Flávio Bolsonaro. Este último será entendido a partir de Sócrates e de um breve recorte de sua história.
“Quem não deve não teme” é uma das lições mais básicas que um aluno de Filosofia aprende. Supõe-se que a História da Filosofia exija que o estudante tenha de lidar com a história de Sócrates, não apenas para entender quem ele foi, mas também por conta da força de seus argumentos e da maneira com que combateu seus arguidores. Em geral, essa maneira é estabelecida pelo método da maiêutica. A maiêutica é uma analogia materna, em que, como se sabe, a mãe de nossa boa personalidade era uma parteira de bebês e nosso figurão grego, um parteiro de ideias. Com isso, seu método pretendia fazer com que seus inimigos intelectuais chegassem por si mesmos a conclusões boas e verdadeiras: “O mais importante dessa minha arte”, diz Sócrates, “é poder verificar se o pensamento do jovem pariu uma fantasia ou uma mentira, ou se foi capaz de gerar também uma autêntica verdade” (Teeteto, 150b).
Normalmente a verdade costuma aparecer nua e é por isso que ela choca e assusta. A filosofia é desestabilizadora e quebradora de paradigmas; em geral, ela serve justamente para descortinar mentiras e fantasias. Ela traz o ridículo à tona e, muitas vezes, trabalha com obviedades que foram ocultadas pelos pensamentos mais tolos e fugazes que infinitas gerações tomaram como verdades inquestionáveis. Sócrates foi condenado à morte exatamente por ter parido verdades incômodas da mente da juventude ateniense, desestabilizando assim a normalidade política e social. Formalmente ficou estabelecido que ele deveria ser responsabilizado por corromper a juventude e por ateísmo (essa última é falsa, ele apenas deixou de ser politeísta e passou a ser monoteísta, embora seja válido dizer que isso seja um objeto de disputa entre comentadores).
Se os mesmos critérios gregos fossem utilizados no Brasil atual para punir as pessoas, eu já estaria condenado há muito tempo. Penso na vez em que ensinei sobre Aleister Crowley para um sobrinho de dez anos e também quando levantei a voz contra os devaneios fantasiosos da professora de Ensino Religioso, que queria fazer passar por verdadeira a história da carochinha de que um tal Jonas havia sido engolido por uma baleia e depois sobrevivido. Pois bem, fui um menino intransigente desde cedo; um pequeno filósofo, como sabem os meus leitores. Mas voltemos ao que importa.
Críton foi o amigo de Sócrates que tentou convencê-lo a fugir do cárcere e da condenação de suicídio altruísta com o cálice de cicuta, um veneno muito potente (na Grécia, devia-se ter a hombridade de tirar a própria vida mostrando respeito, seriedade e arrependimento pelo próprio crime; desse modo, dispensava-se a barbárie da existência de um carrasco). Críton utilizou três argumentos para tentar convencer Sócrates a dar no pé:
1) Se ele não fugisse, as pessoas detestariam seus amigos por não tê-lo ajudado (Críton, 44b-d);
2) Todas as dificuldades práticas comportadas pela fuga são superáveis, por exemplo o exílio (idem, 44e-45c);
3) Permanecendo no cárcere, Sócrates prejudicaria a si mesmo, seus filhos e amigos (ibidem, 44c-46a).
Sócrates, em contrariedade ao amigo, apresenta-lhe três contra-argumentos:
1) A vida de um homem deve ser coerente com a sua doutrina (Críton, 46b-47a);
2) Não se deve seguir a opinião de todos, mas apenas daquele que sabe (idem, 47a-d);
3) Não se deve supervalorizar a vida ao ponto de não vivê-la segundo a virtude e a justiça (ibidem, 47d-48b).
Se fizermos um balanço dos três argumentos utilizados por Críton para convencer Sócrates a fugir e dos três contra-argumentos de Sócrates para não fugir e os aplicarmos ao caso de Flávio Bolsonaro, que ontem, na surdina da madrugada, zarpou do Brasil, chegaremos facilmente às seguintes ideias:
I — Flávio Bolsonaro aceitaria todos os argumentos de Críton porque certamente seus amigos ficariam furiosos caso ele não fugisse (seu próprio irmão, Eduardo Bolsonaro, dois dias antes das eleições defendeu que Flávio deveria fugir caso perdesse a disputa). Imaginem só a patifaria grega que isso seria se, antes mesmo de Sócrates proferir seus exímios discursos em praça pública, seus amigos lhe dissessem algo como “Ó, Sócrates, cuidado com o que dizes, pois poderás um dia ser preso e, se um dia fores preso, nós lhe recomendaremos que fuja”. Seria ridículo, porque é ridículo. Aliás, quem em sã consciência poderia exaltar alguém por fugir? “Ó, vejam, que heroico… Ele fugiu!”. Grosso modo, isso não é tão absurdo, dado que há, neste momento, bolsonaristas elogiando a fuga de Flávio sob o pretexto de que ele foi esperto, pois está fugindo de uma ditadura. Pasmem: uma ditadura em que o partido de Flávio tem a maioria no senado e mantêm madrasta e irmãos como senadores e deputados eleitos; uma ditadura em que ele foi votado por mais de 50 milhões de pessoas. Flávio, portanto, não fugiu de uma ditadura, mas sim de uma democracia.
II — Com certeza Flávio foi convencido de que as dificuldades da fuga seriam superáveis (se é que haveriam dificuldades). Ora, nos Estados Unidos, local de seu refúgio, já prepararam o terreno para uma vida muito tranquila. O governo Trump até mesmo prometeu-lhe um visto e o ICE não se importará com a presença deste latino-americano que nega ser latino, embora, tal qual vira-latas, adore latir.
III — Sem nenhuma dúvida, Flávio tremeu apenas de imaginar o cárcere. A prisão, conforme aponta Julio Cabrera, é um descortinamento da ocultação do ser; em outras palavras, é onde o prisioneiro se encontra consigo mesmo e com a sua terminalidade estrutural, ou seja, com sua fragilidade e pequenez diante da existência. Disso deriva que quem foge normalmente tem culpa, dado que quem não se sente culpado não tem por que fugir. Quem não é culpado enfrenta o cárcere de consciência limpa. Foi assim com Sócrates, que entendia sua culpa a partir da lógica do Estado grego, mas sabia que não havia lógica a partir do estatuto da consciência humana (ora, só há mal em fazer os jovens pensarem e causar instabilidade na comunidade social para o Estado grego, mas para o estatuto da consciência humana não há nenhuma imoralidade em praticar tais ações).
Enquanto com Sócrates aprendemos que a vida de um homem deve ser coerente com suas ideias, que não se deve seguir a opinião de todos e que a vida é menos importante que a virtude, com Flávio podemos aprender as mesmas coisas se formos capazes de fazer um giro epistêmico (ou seja, se formos capazes de aplicar o que antes foi chamado de argumento do contraste).
Basta pensar que, diferentemente de Sócrates, Flávio não foi coerente com suas palavras (um dia antes de fugir, dizia que faria resistência contra a oposição petista), não foi autêntico o suficiente para não seguir opiniões alheias (ora, ele seguiu o que seu irmão Eduardo havia sugerido dias antes, conforme já apontei acima) e, claro, não foi capaz de valorizar a virtude e a justiça acima da vida, pois, se assim o fizesse, poderia ter optado por outros caminhos. Por exemplo, Flávio ainda é um senador em exercício, então nada o impediria de usar seu poder e ir até a tribuna discursar contra a “perseguição” que sofreu tanto da Polícia Federal quanto do STF; ele poderia mobilizar seus eleitores contra isso, poderia ter tido a hombridade de tentar qualquer coisa mais honrada do que a fuga e a forçação de uma narrativa (falsa) de que vivemos uma ditadura.
Antes de beber seu delicioso cálice de veneno, Sócrates tomou banho para evitar que seus amigos tivessem o trabalho de lavar seu corpo; depois de bebê-lo, ainda fez piada: “lembrei-me de uma dívida, por favor, meus amigos, vocês devem pagá-la, pois, como sabem, logo estarei morto e não poderei fazer isso” (cf. Fédon, 118a), e, tendo dito isso, apontou exatamente a quem devia e o que devia. Sócrates estava preocupado em ser justo, mesmo quando a cicuta já circulava em suas veias. Por outro lado, Flávio e sua família de malandros não estão apenas longe da morte, mas longe da pátria.
Penso que a direita democrática precisa se reinventar e ficar cada vez mais longe das esdrúxulas e mesquinhas ações bolsonaristas, do contrário, perderá também em 2030, 2034, 2038… Não vejo tal coisa com bons olhos. A alternância de poderes é positiva para a democracia, mas apenas se as políticas e partidos que competem pelo pleito não forem excludentes. Não é o caso do bolsonarismo, que exclui toda sexualidade que não seja a cisgênero, toda expressão de gênero que fuja do binário, toda religiosidade de matriz africana, todo indígena que reivindique seu território, toda pessoa com deficiência que exija escola inclusiva, toda mulher que paute seu corpo e sua autonomia, todo quilombola que cobre titulação, todo trabalhador rural sem terra que demande reforma agrária, todo jovem que questione a militarização da educação, todo servidor público que defenda a laicidade do Estado, todo pesquisador que produza ciência sem submissão a dogmas, todo artista que incomode, todo jornalista que investigue, toda população periférica que reclame saneamento e segurança cidadã em vez de fuzis e policiais sem câmeras e sem código de registro em suas munições… Como podem ver, a lista é enorme e ainda poderíamos aumentá-la! Enfim, termino dizendo o seguinte: no país do Carnaval e da antropofagia filosófica, políticas excludentes, felizmente, estão fora de moda. Que assim permaneça, até que uma nova direita mais autêntica se reinvente.