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Antonio Alves Ensaios e reflexões filosóficas

Ensaio

O ato de escrever

Escrever é um ato revolucionário

O ato de escrever

Desde sempre, o ato de escrever foi um ato de privilegiados, ou para dizer o mínimo, um ato para ociosos. Em nossa contemporaneidade quem se lança nesta empreitada, tem antes de estar cônscio de dois fatores específicos: i) que dificilmente será lido (não só pelo número excessivo de escritores, mas também pelo número reduzido de leitores, dado que, para ler, também é necessário o ócio), ii) que mesmo que seja lido, mais dificilmente ainda será capaz de sobreviver da venda de livros. Por esses motivos, todo intelectual de nossos dias é também um idealista, pois se persiste escrevendo, expõe seu amor em falar para ninguém. Escrever, então, torna-se um ato de ser ouvido por si mesmo. Com sorte, passa-se a ser lido pelos outros, primeiro pelos amigos, depois por algum público específico, quiçá pelo país e quando muito, ser traduzido para outras línguas. Mas o mais importante é estar ciente de que o ato de escrever é uma tendência natural; nasce conosco e nos acompanha durante toda a vida. Se pode, claramente, apurar a técnica e aprender a escrever melhor. A escrita, como sendo uma habilidade, é passível de ser aprimorada, mas já que aquilo que somos em essencial, é o que há de mais profundo e imutável em nosso caráter moral, apenas escreveremos bem e nos tornaremos bons escritores se estivermos naturalmente inclinados a isso. Do mesmo modo funciona com o ato de cantar: pode-se cantar cada vez melhor, aprimorando a técnica de canto, mas o timbre de voz nunca pode mudar. Se o timbre de voz for feio, por mais que a técnica seja requintada, continuará sempre sendo um cantor indesejável de ser ouvido. Assim, o bom cantor é tal como o bom escritor: canta-se bem mesmo sem técnica alguma, tal como se escreve bem sem nunca ter estudado a escrita. Aprende-se pela experiência dos bons livros lidos, tal como pela experiência das boas audições dos bons cantores. Mas esse aprendizado é meramente um estímulo para aflorar e deixar fluir a técnica, que é natural e essencial nos bons escritores e cantores. O que de fato atrapalha toda a arte e desenvoltura da cultura de nossos dias, antes de tudo, é o tempo que temos de despender ao trabalho e a sobrevivência. Mesmos os grandes gênios ociosos parecem ter sido capturados pela necessidade de trabalho excessivo. Não trabalhamos para o bem da humanidade, mas para o nosso próprio bem. É uma sorte muito grande quando podemos trabalhar para acumular e não apenas para sobreviver. São muitos os escritores e artistas que devem existir no mundo, mas não podem surgir e vir a público, pois estão capturados pela labuta da sobrevivência. Apenas o que é lucrativo tem valor, e, escrever, é um ato que foi lucrativo para poucos homens, porém, uma legião de escritores muito famosos jamais ganhou dinheiro com seus textos, a saber, Kafka, Edgar Allan Poe, Herman Melville, etc., a regra geral é que os grandes autores possuem vidas modestas e solitárias. Não seria assim se trabalhassem para o bem da humanidade e para o avanço do coletivo. Mas não é assim de forma alguma e, dado a natureza egóica do ser humano, jamais será. Mais fácil seria a ocorrência de uma nova guerra que dissipasse milhões de pessoas do que uma humanidade coletivista. Disso decorre que o sofrimento humano é o que há de mais interessante para se expor em palavras e prosa. Todo bom livro tem como tema central o sofrimento. Os bons escritores não querem melhorar ninguém, eles partem, ao contrário, de um princípio de indiferença quanto aos seus leitores ou quanto a si mesmos: importam-se pouco com o julgamento alheio e menos ainda com a quantidade da audiência. Deixam o próprio ego aparecer para si mesmos e contam com a sorte (ou azar) de serem lidos por algumas pessoas. Escreve-se, portanto, por amor próprio: primeiro para ver as palavras mancharem o papel, depois, para verem a si mesmos publicados. A solidão está implícita no ato de escrever. Ao entrarmos numa biblioteca e nos depararmos com os livros expostos nas estantes, cada um deles nos dá testemunho de que um ser humano investiu seu sagrado tempo à solidão, à autorreflexão e pesquisa. Ser poeta, romancista ou filósofo é uma condição natural do caráter. Há um prazer contido em ser e fruir em cada uma dessas inclinações e é por meio deste prazer, em especial nos dias atuais, que se pode dizer que escrever é um ato revolucionário, pois escrever significa amar o ego ao ponto de não se importar em não ser lido e com não ganhar dinheiro escrevendo. Todos que escrevem um livro, mostram aos seus poucos leitores a seguinte mensagem: “eis aí um corajoso, manteve-se fiel às próprias ideias e foi capaz de escrever um livro inteiro!”, mas em sua maioria os leitores são ingratos, pois são incapazes de ler um livro até o final (incluem-se aí os escritores). Em geral, não apenas pela falta de tempo, mas também pela sua fraqueza de espírito, a que preferem fazer qualquer outra coisa ao invés de gastarem seu tempo pensando com a cabeça do autor. Isso torna-se ainda mais evidente com nosso mundo moderno e imediatista, onde as telas dominam e a bestialidade reina não apenas na moral, mas na intelectualidade. No caso das pessoas ordinárias, todo tempo livre é a oportunidade para balançar os seus desejos em prol de futilidades. Mas já há tantos livros criticando a banalidade das telas e sobre como as pessoas adoram viver em novas cavernas contemporâneas, que esse tema se tornou também um empecilho obsoleto para os próprios escritores. Escrever a respeito da banalidade do mundo só faria sentido se essa escrita pudesse atingir os mestres da banalidade, (em especial os mentecaptos que assistem storys e veem bobagens na internet o dia todo), mas não sendo este o caso, fica, antes, a critério do leitor, despender a sua própria raiva à banalidade do mundo; em termos estilísticos, pretendo superar parcialmente essa dita pressa contemporânea adotando também um estilo parcialmente apressado, por vezes semelhante àquela linguagem telegráfica adotada por Oswald de Andrade em Memórias sentimentais de João Miramar; tal linguagem imita a velocidade moderna, porém, em meu caso, com menos penumbrosas letraduras e mais simplicidade filosófica. Importa-me, na verdade, o sofrimento, fora isso, não pretendo escrever tão só e unicamente para uma bolha de pesquisadores engajados, mas direciono-me, antes de tudo, ao meu próprio ego, e depois, ao mundo e todos que nele vivem. Assim, se parto de um tema em específico, este só pode ser o sofrimento humano. Se aprofundo hora aqui e hora ali, antes faço para o meu próprio prazer do que para o prazer do leitor, que, por hora, enquanto escrevo, é inexistente. Não penso, portanto, no que será deste texto, mas no que ele é para mim enquanto seu autor e acima de tudo, seu adorador e criador. Essa sinceridade é um tiro contra minha própria honra: tal como Deus ama sua própria obra, os escritores e artistas também amam as suas. Esse amor não pode ser direcionado ao que os outros acharão ou em como a opinião deles poderá afetar a desenvoltura do projeto: é bem difícil se equilibrar sobre essa corda sem se exceder; mas é justamente onde um escritor se excede que ele mostra quem é, porquê vive e qual sua real contribuição. O intelecto autônomo do escritor que confia no que diz e no que quer dizer se preocupa mais com a retidão e com a não oscilação do seu próprio caráter e inclinação natural para a boa escrita do que com a opinião dos leitores. Os leitores são bem-vindos, mas são consequências da minha boa desenvoltura e trabalho, agora. Importa-me, também, as contradições. Sendo assim, cometi a blasfêmia intelectual de chamar o ato de escrever de “trabalho”, sendo que, creio profundamente, e sempre cri, que não se trata de trabalho, mas sim de persuadir e de envolver o leitor, não apenas para convencê-lo, mas para captá-lo. O leitor torce para o escritor: quer que ele diga o que se espera que ele diga, ou ainda, pior do que isso, que ele confirme suas próprias crenças. A mim, não importa isso. O leitor está sempre convidado a se retirar se quiser, e é nesse sentido que espero envolvê-lo com tudo que quero e tenho a dizer.

Há escritores que pensam com a caneta na mão. Já tratei sobre isso em outro texto (1). Há aqueles que defendem que pensar com a caneta na mão é um mal, porquê, assim fazendo, tem-se apenas uma fruição de ideias, que se deixa aparecer na folha, por um imediatismo, tal como uma associação livre, onde o papel é o analista e o escritor o analisando (é o que realmente acontece no caso daqueles que, como eu, possuem o bom hábito de manterem um diário pessoal); ao contrário, há outros que criticam essa prática, já que o correto seria pensarmos muito antes de colocarmos a caneta no papel. Mas há diferentes tipos de escrita. Em alguns momentos é a hora de deixar fluir e pensar enquanto se escreve – deixar de fato o papel nos analisar –, em outros, é preciso alcançar uma ideia, com um encadeamento de pensamentos, que só se tornam prontos após um longo tempo de reflexão. Em verdade, todo escritor pensa muito antes de colocar as palavras no papel, mesmo que se pareça espontâneo e corajoso. Todos, no fundo, são um pouco frangalhões e morrem de medo de ser mal julgados pelos seus leitores: perco parcialmente esse medo toda vez que reflito profundamente sobre a brevidade da vida. Quantos dias uma pessoa de 80 anos vive? São apenas 29.200 dias. Os escritores fazem de tudo para iludir e confundir seus leitores, passando a eles, ares de que sabem muito, quando na verdade, não sabem nada. Dizem de maneira complexa o que poderiam dizer de maneira simples. São mais desonestos ainda, aqueles que roubam ideias e não dizem suas influências. Para não cair nesse erro e desonestidade, digo logo agora, no início, que Schopenhauer é a minha máxima e mais importante influência. O único escritor que me despertou profundamente e me fez conhecer quem sou. Todo o restante das coisas que li, da Bíblia até Darwin; de Machado de Assis a Dostoiévski, não puderam exercer sobre o meu caráter a mesma influência. Mas sou menos grato às minhas influências literais e mais grato às experiências de vida e às horas despendidas às duras reflexões introspectivas. Para um escritor, falar de suas influências literárias é sempre um pesar, dado que nisso vemos os elementos centrais de sua formação e educação. Como não quero confundir ninguém, dou grande valor a honestidade. Na verdade, o escritor que quer passar a ideia de original, apenas escondeu bem suas influências ou elas são tão obscuras que por isso não são identificadas pelos leitores. Mas não tenho tempo para ficar me desviando do que sou, do que me influência e do que me formou intelectualmente, nem tampouco quero enfeitar aquilo que por si mesmo já possui uma magia intrínseca: refiro-me ao próprio ato de escrever. Despender energia para letras surgirem no papel, organizar parágrafos, ler as próprias ideias em voz alta e, enfim, chegar até a conclusão de que elas soam bem, eis algo mágico por si. A parte estética da escrita é agradável e viciante. Ver a organização cadente de um livro, a forma como a exposição das ideias se sobressai umas sobre as outras, o tamanho dos parágrafos e como as letras se encaixam, soando, vez ou outra de forma poética, eis um empreendimento que surpreendeu e encantou escritores desde os tempos primordiais das línguas, dos alfabetos e, por conseguinte, da história.

Em um mundo bagunçado e que não lê mais, apenas textos bagunçados e viscerais podem fazer sentido e valerem a pena para se perder o sagrado tempo, gastando-o com a leitura. Esse é o motivo de em grande parte do tempo lermos livros antigos, pois esses eram escritos para os homens do futuro, que somos nós, enquanto que, os textos do presente, serão melhores lidos pelas próximas gerações. Atualmente, ia dizer, o estilo visceral é essencial, porque tudo o que se poderia escrever de maneira estrutural parece já ter sido dito e é unânime entre os intelectuais, a opinião de que a ciência, a literatura e principalmente a filosofia se encontram desgastadas. A cada século que se passa, torna-se cada vez mais difícil tornar-se um intelectual de destaque, mas fixando-nos aos problemas e sofrimentos universais – que atingem todas as épocas e povos – temos a oportunidade de almejar alguma originalidade, que é essencial ao bom escritor (isso porque por mais que os sofrimentos sejam os mesmos em um sentido universal, são sentidos de modos diferentes no nível individual). Assim é que se pode dizer que ainda é e sempre será uma função do filósofo explicar o que é o sofrimento e por conseguinte, a felicidade. É justamente pelo fato de cada caráter individual ser único que cada filósofo pode fornecer uma explicação original para os problemas universais, mas com a condição de que deixe suas vísceras surgir no texto, pois ao contrário disso, surgirão apenas trabalhos de compilação, que nada acrescentam a não ser o fato de ampliar e aprofundar o leque e repertório de pessoas que já são especialistas e que mais julgam do que desfrutam do escritor: é exatamente o que ocorre com as dissertações e teses de mestrado e doutorado, produzidas em especial pelas ciências humanas (embora isso também valha em menor medida para outras áreas). Assim, ainda que essas pesquisas e escritos tenham algum valor, residindo este, muito mais na formação de um novo pesquisador do que para dar prazer ao leitor, essas pesquisas se tornam empoeiradas assim que são apresentadas, pois ninguém as lê sem o interesse de fazer somar uma nova referência bibliográfica a sua própria pesquisa, ou, pior ainda, apenas para poderem citar uma boa fonte, ou por assim dizer, “uma grande autoridade naquele determinado assunto” – há algo mais repugnante? O requisito mínimo para fazer uma boa tese é esconder as vísceras, ou seja, aquilo que se é; mas para produzir livros possivelmente eternos e que comungam com o coração da humanidade e do leitor, a fórmula é justamente a oposta. Neste caso, deve imperar a sinceridade: o escritor deve agir como se aquilo que escreve o fizesse muito mais perder do que ganhar. A máxima aqui é aquela que já apontei no meu ensaio sobre a sinceridade (2): se eu nada tivesse dito, nada teria perdido. A maior intransigência de um autor que escreve sobre como agem os bons escritores é se incluir nesse grupo, dado que tal fato já se encontra implícito no próprio texto. É assim que funciona a sinceridade. A título de demonstração, farei essa sincera intransigência: eu sou um ótimo escritor – e aí, o leitor poderá aplicar em mim, a máxima acima posta, pois se eu não tivesse dito isso, também não estaria agora, na consciência do leitor, me colocado nesse apuro e nesta saia-justa. “Maldito patife! Diz assim, na cara, que se considera um ótimo escritor!”. Pois digo de novo: eu sou um ótimo escritor.

A arrogância que as vezes brota de meus textos é um sintoma da doença daquilo que considero ser filósofo. Mas essa arrogância, como eu espero, não deve causar mal a ninguém além de mim mesmo (3), pois eu poderia reparar as sobras nos momentos em que ela salta aos olhos, mas prefiro não fazer isso para manter a redação com a coragem e intimidade original em que foi produzida. A arrogância é a consequência da sinceridade, no entanto, a sinceridade pode ser uma desculpa para se ser arrogante. Meu eu que escreve vive no limite desses dois sentimentos, em partes para esconder o vazio que sinto: pois no fundo sei que sou bem menos inteligente do que posso parecer e que todos esses ornamentos apenas me fazem menor do que eu poderia ser caso aprendesse a ser mais modesto, ocorre, porém, que isso é algo que eu não quero.

Deixando a galhofa de lado (embora o humor seja intrínseco a nossa razão nacional e tupiniquim), a verdade é que o ganho que se tem da sinceridade serve muito ao próprio prazer e mais ainda para a autocorreção do próprio conhecimento e ao aprimoramento intelectual, mesmo que, aos olhos dos outros, a sinceridade chegue ao que chamei de sincericídio (4): é o colocar-se ao jugo do outro, mesmo que soe desmoralizador, humilhante ou arrogante. Em resposta a isso, pode-se conceber como banal quem coloca suas fichas sobre sua própria honra e felicidade apenas na aprovação dos outros, mesmo dos leitores – e nisso reside o prazer de se dizer verdades muito ásperas e sinceras sobre si mesmo; em linhas gerais, ao menos facilitamos que os outros nos conheçam verdadeiramente, mesmo que isso seja impossível em totalidade, dado que cada um só pode pensar com a própria cabeça e ver o mundo com os próprios olhos.

Um livro publicado é sempre uma forca, um cadafalso. São tolos os leitores que leem para aprender e não para o prazer de se unir a um grande espírito. O que se aprende lendo livros é muito pequeno perto do tanto de prazer que eles fornecem e da boa companhia que eles representam, soando acalentadores nos momentos difíceis e inspiradores nos momentos de alegria: conhecendo nossos autores, melhoramos o conhecimento que temos de nós mesmos: na vida, não há nada mais importante do que conhecermo-nos. Os leitores mais aficionados e viciados admiram até mesmo o cheiro dos livros. Quanto mais velhos esses forem, mais enchem de prazer a imaginação do leitor, e ganham-nos não só pelos argumentos e pela sua determinação e cadência intelectual, mas pelo sentido do olfato. Há nesse ato estranho, uma peculiaridade implícita e bem sensível: podia se estar lendo as novidades, as folhas novas e sem cheiro, os sites e noticiais do momento, mas invés disso, escolheu-se justamente aquele livro cheio de pó e inhaca. Significa que ele resistiu ao tempo e ainda continua valendo a pena ser lido. Nos séculos passados, não foi incomum a prática da absurda bibliopegia antropodérmica – o ato de encadernar capas de livros com pele humana. O cheiro desses livros, realmente deveria exalar um odor visceral, mas ao mesmo tempo demonstram que seus autores não tinham nada a dizer, pois se empenharam tanto em criar uma capa diferente que seu banditismo e espírito maligno deve estar presente em cada uma de suas linhas. Essa gente aproveitava a pele dos escravos mortos e de corpos indigentes para fazer o uso que quisessem, inclusive para encapar suas ideias. Devemos louvar os céus com o máximo fervor na esperança de que as almas dos antigos defensores da escravidão sejam para sempre aniquiladas e jamais retornem ao mundo. Tragamos à memória, por exemplo, o massacre do navio negreiro de Zong, episódio em que 133 negros doentes foram lançados em alto mar para que os donos pudessem reclamar ao seguro sobre a propriedade perdida. É preciso, no entanto, narrar essa história de um modo mais detalhista, ainda que para tal precisemos recorrer a uma abstração fantasiosa, em outras palavras, é preciso nos colocarmos no lugar daqueles 133 negros: eram transportados como mercadoria, em condição de superlotação, sem nenhum saneamento básico ou respeito e, quando morriam, seus corpos viravam banquete para tubarões; em terra firme eram tratados com ainda mais agravo: os senhores de escravos, um bando de velhotes escrotos, praticavam concubinato e tratavam as negras como objetos sexuais; uma imensa prática de castigos dos mais variáveis foi inventada para fazer sofrer os transgressores que tentavam se libertar; filhos eram separados de suas mães e vendidos como animais; eram marcados a ferro em brasa, tal como ainda se fazem com bovinos e suínos (um absurdo ainda a ser superado). Pois bem, o quão capaz o leitor pode ser para se imaginar como sendo um entre aqueles 133 mencionados seres humanos que foram lançados em alto mar? Quão talentosa poderia ser a personalidade desses afogados que viveram no extremo sofrimento? Enquanto se afogavam, pensavam, talvez: “estamos finalmente nos livrando desse mundo insuportável, dessa gente má e estupida”; eis aí o poder de fantasiar do escritor, que aparece sempre para enfeitar de modo requintado aquilo que só pode ter acontecido de forma grosseira e, nesse caso, também agressiva e catastrófica. A verdade é que nenhum daqueles seres humanos deve ter pensado nada. Era apenas a indiferença e o sentimento de calamidade que vigorava, embora, não destituído de extremo desespero e medo da morte. Esses homens foram impossibilitados de serem seres humanos até na hora da morte. Nenhuma dignidade no transporte, nenhuma compaixão em terra firme. Empurrados em direção ao mar, como pedaços de carne, foram deixados para trás enquanto o navio seguia, agora livre da doença e seus “proprietários”, possibilitados de cobrar a perda para o seguro. O olhar dos negros, vendo o navio se distanciar, não tendo onde se agarrar a não ser uns nos outros, foi enfim tomado pela esperança: receberam abraços acalentados do bondoso Deus, que os amou de maneira paternal no fundo do mar e salvou suas almas, depositando-as num lugar muito confortável e cheio de amor. Mas eis de novo aí, a fantasia do escritor, que aparece sempre de maneira sorrateira na intenção de ludibriar e presentear o leitor com um pouco de prazer – é por isso que, tratar do sofrimento, faz sentido não apenas em nível objetivo, mas também serve ao prazer, dado que o bom escritor exporá a dor, e depois, a resolverá com fantasias (eis o método deste livro, pois o primeiro capítulo é recheado de sentimentos dolorosos, enquanto o segundo, recheado de muito prazer – e esse é um dos sentidos do porquê se trata de um livro que evolui). Os fatos verdadeiros e reais, porém, sempre são outros. O sofrimento impera e não dá tréguas; mas se a fantasia serve para amenizá-lo, façamos uso equilibrado dela.

Os escritores atuais ainda precisam encarar um outro problema incontornável: a inteligência artificial. Mas, ironicamente, talvez aquilo que a inteligência artificial mais faça bem, seja também uma das coisas que ela mais tenha dificuldade em nos superar e substituir. Refiro-me ao poder de escrita. Peça para a inteligência artificial qualquer coisa e ela te dará em alguns segundos. Peça para ela escrever um ensaio sobre a escrita e o dom dos escritores, então ela fará. Mas ela não tem caráter, a não ser um caráter artificial. Compare-se com isso, por exemplo, a luz de uma lanterna com a de uma fogueira. A lanterna é invariável e mantém sua luz sempre cadente, com uma mesma força e potência. A fogueira, tal como o escritor, vai variando em sua potência e força, pois sem alimentá-la com a lenha, ela vai se apagando, além disso, o fogo segue fazendo a luz se desdobrar e criar diversos desenhos e sombras. A fogueira tem cheiro, exala fumaça, pode causar incêndio, ao contrário, o máximo que uma luz artificial pode fazer é iluminar. A inteligência artificial nunca poderá escrever de forma visceral, pelo motivo óbvio de não possuir vísceras. Os escritores que realmente possuem algo importante a dizer não precisam se preocupar com a inteligência artificial, ainda que ela um dia seja capaz de escrever um romance cheio de floreios e bastante complexo, porque nunca soará dessa escrita, o cheiro necessário de humanidade que se sente nos livros. O verdadeiro escritor, que como já dito, comunga com a solidão, deu seu tempo para escrever, para produzir e pensar; a inteligência artificial não deu nada, apenas produziu ao efeito de um comando. Ler um texto produzido por IA é como comparar a luz de uma lanterna com a luz solar. Não há vitamina D na luz da lanterna, tal como não há nenhuma identificação visceral nos textos da IA; pode-se com estes, no máximo aprender e facilitar algumas técnicas e trabalhos do dia a dia (traduções, planos de aula, checagens rápidas em problemas específicos, etc.). A inteligência artificial só poderá escrever como uma mão humana se ela for capaz de morrer, porque, todo escritor, tem dentro de si a ideia secreta de que quer deixar alguma coisa registrada nesse mundo quando ele se for desta para uma melhor, mas uma inteligência artificial nunca se vai, ela apenas é um objeto material entre outros objetos materiais; uma máquina produzida pelo próprio homem: ela não escreve por anseio e desespero, mas por mero comando. Apenas pessoas vulgares poderão um dia preferir a leitura de um texto produzido por IA do que um texto produzido pela mão falha e oscilante de um ser humano visceral (ou seja, arrogante, prepotente, vaidoso, estúpido, vacilante… Não é mesmo, muito mais interessante?).

Escritores são conectores de conceitos e produtores de argumentos. Todo texto, por mais espontâneo e brilhante que seja, possui sempre uma estrutura argumentativa, uma índole ideológica e o mais importante e salutar: um sentimento moral que emana da pena do escritor. É este último que mais importa, pois é dele que mais prazer intelectual se pode extrair de uma sessão de leitura. Podemos até usar a expressão “o sentimento moral de um livro”. Do ser humano se pode sempre esperar o poder de dissimular. É por isso que a maioria esmagadora dos livros são sem nenhum sentimento moral. Já não é nada fácil compreender a verdadeira essência de um texto qualquer, e é mais difícil ainda quando se usa unicamente da terceira pessoa ou quando não se deixa fluir ideias, mas apenas se escreve aquelas que não são prejudiciais a si mesmo (por conseguinte, não prejudiciais a ninguém). Agem pela máxima: “escrevo para que aprendam comigo”, ao invés de “escrevo para meu próprio deleite e com sorte deleitarei outras pessoas”. Não há escrito que não seja amplamente ornado de vaidade. Em primeiro lugar, porque o que se fez da própria solidão – momento sagrado para qualquer pessoa sensata – foi destiná-la ao ato de escrever, em segundo, porque sempre se espera ser lido por alguém e que a avaliação deste alguém seja positiva e aprovativa. A vaidade aparece aí, pois o escritor se considera bem aprovado antes de ser julgado pelo leitor. Deste mal não há como fugir. É neste sentido que embora Mathias Aires tenha criticado amplamente a vaidade, ainda reserva algum espaço para ela: “A vaidade de adquirir nome é inseparável de todos os que seguem a ocupação das letras; e quanto maior é a vaidade de cada um, tanto é maior a sua aplicação: não estudam para saberem, mas para que saiba que eles sabem: buscam a ciência para a mostrarem; o seu objeto principal é a ostentação, e assim, não é a ciência que buscam, mas a reputação” (5); e também: “A vaidade das ciências, por ser uma vaidade pacifica, não deixa de ser altiva e arrogante” (6) – ironicamente, essa “vaidade de adquirir nome” e essa “arrogância” também recaem sobre o próprio Aires, pois enquanto escritor e homem de letras, buscava também honra e reputação. É assim que podemos dizer que todo livro na estante é uma tentativa de um ser humano em se tornar famoso ou, no mínimo, de aumentar sua honra e reputação entre os amigos próximos e familiares. Os melhores livros são aqueles que logo de início, numa introdução, prólogo ou prefácio, destinam-se honestamente aos leitores. Nesse grupo, encontram-se o mencionado Aires, Montaigne, Schopenhauer, Darwin, etc. Os autores que fazem isso, economizam nosso tempo e mostram logo de início que estão conscientes de que estão escrevendo e que se preocupam minimamente com o leitor. Os antigos pareciam não ter esse costume, pois os textos eram mais divulgados oralmente e para grupos de ouvidos atentos do que lidos em casa, isto é, destinado a leitores solitários, tal como ocorreu desde o renascimento, com a invenção da prensa. É nesse sentido que podemos perdoá-los. Outrossim, é realmente penoso ler livros que não se destinam a ninguém e nem deixam exalar o sentimento moral do autor: sua ânsia, inquietação, sofrimento e problema com o mundo que o cerca; algo que é deduzido, independente da objetividade do seu tema, mas sim pela potência de seu próprio caráter em tratá-lo, pelo seu estilo e pelo poder de sua prosa. Um bom autor será capaz de tornar interessante o mais difícil ou aparentemente tosco dos assuntos. Embora tudo isso seja importante, o maior fantasma a que um autor está sempre sujeito diz respeito a prolixidade, isto é, escrever muito, sem dizer nada. Por respeito ao tempo do leitor – que é sagrado para aqueles que já compreenderam a brevidade da vida –, espero que até aqui, eu não tenha caído neste mal e nem tampouco caia na sequência.

  • Escrito em algum dia de 2023

Notas

(1) “Defendendo Schopenhauer dos ataques de Nietzsche”, Revista Paranaense de Filosofia, 2022.

(2) “Ensaio sobre a sinceridade: minha desistência de seguir Olavo de Carvalho”, Revista Diaphonía, 2022.

(3) Mario de Andrade, em suas reminiscências escritas em uma carta enviada ao poeta Manuel Bandeira (sobre sua obra Pauliceia), disse: “Há exageros na minha obra (…) trata-se duma época toda especial da minha vida. Pauliceia é a cristalização de 20 meses de dúvidas, de sofrimentos, de cóleras. É uma bomba. Arrebentou (…) toda bomba arrebenta com estrépitos e excessos de liberdade. Meu mal, se mal houver nisso, foi não corrigir-lhe o que tinha de excessivo barulho e excessiva liberdade construtiva” (ver em Biografia de Mario de Andrade, escrita por Jason Tércio, 2019). Faço dessas palavras as minhas, no entanto, sem poder ainda sentir o “meu mal”.

(4) Veja mais sobre isso no artigo citado na nota anterior.

(5) Aires, M. Reflexões sobre a vaidade dos homens, s/d, p. 166.

(6) Idem, p. 177.