Ensaio
A dúvida como rebeldia
A coerência também é um tipo de dogmatismo
A dúvida é a presença de um incômodo diante de uma dualidade. A natureza do incômodo pode mudar a depender do objeto que se tem diante de si. Pode-se duvidar do valor da vida, da moral e da sociedade (dúvida axiológica); pode-se duvidar do Ser e de sua natureza, ou seja, do que ele é, de onde está, ou se, antes dele, o Nada seria uma resposta melhor (dúvida ontológica); pode-se também duvidar, em sentido moral, de quais as melhores escolhas a tomar diante da vida, isto é, com quais posturas se enfrentarão as dificuldades e benesses surgidas entre o nascimento e a morte, tal qual o modo que se enfrentará a própria morte (dúvidas práticas).
Todas essas três formas de proceder podem ser englobadas na rubrica de dúvidas filosóficas, ao passo que alguém pode estar tão profundamente absorvido pela filosofia que possua dúvidas tão amplas que seja capaz de englobar as três. Numa sentença, pode-se dizer que tenho dúvidas sobre o que faço (moral), sobre o que sou (ontológica) e também sobre o valor da vida (axiológica).
A dúvida também se faz como o aspecto inicial para a busca da autonomia e do colocar-se em contrariedade ao pensamento dogmático; é um ato desestabilizador da realidade e, por conseguinte, transformador. Quem duvida diz para a própria consciência, rebeldemente, tal qual Belchior: “Saia do meu caminho / Eu prefiro andar sozinho / Deixem que eu decida a minha vida / Não preciso que me digam, de que lado nasce o sol / Porque bate lá meu coração” (Comentário a respeito de John). Quem duvida, portanto, aponta para si mesmo que se sente vivamente incomodado e decididamente disposto a resolver dualismos, trialismos, quadrialismos… (lembrando sempre que é característica nata do pequeno filósofo criar neologismos).
Há, porém, um tipo de dúvida dogmática. Ela leva até o radicalismo cético. Essa postura é paralisante e faz brotar pessimismos e melancolias. Trata-se do estilo de procedimento elaborado por Górgias (a que eu prefiro evitar). Esse estilo dita o seguinte: 1) nada é; 2) se algo é, é incognoscível; 3) mesmo que algo seja cognoscível, ainda permanece o fato de nunca ser perfeitamente comunicável. Tal postura é imobilizante porque ela pode se conformar com a própria maneira de proceder diante de dificuldades insolúveis.
Isso parece-me pouco rebelde. Prefiro, pois, um estilo mais selvagem, nietzschiano e antropófago. Procedo assim: “Vamos responder as coisas, mesmo conscientes do paradoxalismo, das metonímias, das metáforas e dos antropomorfismos que colocamos nelas. Não há tempo de vida para perdermos com pensamentos paralisantes. Ora, somos latinos, portanto, especialistas em criarmos neologismos e devoradores de europeus… Górgias era um europeu, tal como Platão e toda corja de ladrões”.
Piadas à parte, creio ser preciso superar a chaga do radicalismo cético e adotar uma postura ativa. Admito, porém, que o referido modo de proceder seja uma ótima saída diante de argumentações intensas que não se resolvem (as chamadas aporias ou antinomias). Eis um exemplo clássico derivado de Kant. 1) Existe liberdade humana (uma causalidade livre por escolha); 2) Não há liberdade; tudo acontece por leis estritas da natureza (determinismo). Nós podemos ser toscos e rasos e optarmos acriticamente por uma das opções, crentes de que o problema é fácil de ser resolvido. Mas a mente filosófica não pode simplesmente responder acriticamente.
Isso significa dizer que não basta escolher por um lado, mas fundamentar a resposta. E é justamente quando se busca fundamentar uma resposta que se enxergam os problemas por tê-la escolhido, pois o ato de fundamentar exige exposição da própria consciência às argumentações contrárias. Por isso mesmo, acabar-se-á entendendo que se trata de uma antinomia irresoluta, ainda que existam outras posições possíveis, como, por exemplo, o compatibilismo. Este, procede assim: pode-se fundamentar que não existe liberdade no nascimento (ninguém escolhe nascer, mas todos são simplesmente nascidos); no entanto, após certa idade, com o advento de algum ganho de consciência, pode-se sentir plenamente responsável pelas próprias escolhas; então, embora não se tenha responsabilidade inicial pelo próprio nascimento, tê-la-á pelas próprias escolhas, agora tomadas de modo plenamente consciente.
A rigor, a dúvida é um ato de rebeldia, mais ainda quando se toma um dos lados de uma discussão e precisa-se defendê-lo, pois isso é uma postura levemente dogmática, embora não radical e não comparável ao radicalismo cético. Pode-se defender um lado entre os dualismos, mas ainda assim manter-se crítico a ele. Por exemplo, pode-se adotar uma postura politicamente de esquerda, mas saber fazer críticas pontuais à própria postura; pode-se optar pelo ateísmo, mas reconhecer o valor da espiritualidade teísta; pode-se condenar a responsabilidade moral de alguém que fez uma atitude reprovável, mas ainda assim buscar compreender a motivação de seu crime.
Tomar um lado, no sentido crítico, torna-se paulatino quando ele é tomado após uma longa e rigorosa autoanálise crítica e, mais importante, a postura crítica que vem depois da tomada de decisão exige revisão constante e autorreconhecimento de que se pretende distância de uma postura dogmática. Vai-se criando assim um tipo de tumor cerebral de contradições, verdades e estilos. Duvidar é um modo de frear a morte, portanto, um tipo de tratamento paliativo para se desdobrar no contraditório. Não se pode esperar coerência dos seres humanos. Aliás, a coerência também é um tipo de dogmatismo.