Ensaio
Um assunto negligenciado: o tombo na velhice
Se você é a pessoa que diz que todo mundo tem ‘a hora certa’ para morrer, então sim, você crê em destino. Se for esse o caso, não há o que prevenir no tombo dos idosos.
Ontem passei por um episódio do qual vale o relato, pois creio que ele tem muito a ensinar. Primeiro, abordarei o ocorrido, depois uma avacalhação/reflexão em relação a ele.
Saí com minha família para o mercado que fica na esquina de nosso apartamento. Momento daqueles que todo pai de duas conhece: uma filha puxa um braço, a outra puxa o outro, uma falando sobre os duzentos personagens do Naruto (um desenho japonês que faz um sucesso tremendo); a outra sobre a nova Baby Alive (uma boneca cara que não tem nada diferente das bonecas baratas); eu, pensando na vida, no quanto vamos gastar no mercado, no que vamos cozinhar para o jantar; por fim, a minha esposa, tentando conter o desejo insaciável das crianças. Nada de anormal, até que… ouvimos gritos altos vindo de um prédio.
Estava evidente que se tratava de gritos de uma senhora. A voz era senil, porém, o discurso era incompreensível. A certeza era que algo terrível havia acontecido porque ela não parava de vociferar palavras em alto tom.
Paramos por ali e nos demos conta que era um pedido de socorro, algo estava errado. Logo depois, outros transeuntes também pararam. Finalmente, deu para entender algo do que ela dizia.
— Eu cai e bati a cabeça!
Imediatamente, saquei o celular do bolso, e fui discar para o serviço de emergência, mas então percebemos que alguém entrou no apartamento da senhora e conseguiu ajudá-la. Segui então para o mercado com a minha família. Na volta, vimo-la dentro da ambulância que já havia chegado por ali, provavelmente chamada pela pessoa que havia prestado os primeiros socorros.
Exposta então a história, vamos à reflexão.
De acordo com dados da OMS, cerca de 28% dos idosos com mais de 65 anos vivenciam algum episódio de queda por ano, e os índices se tornam ainda maiores quando falamos de idosos com mais de 70 anos. A questão importante é que a queda na velhice não deve ser naturalizada: trata-se de fenômeno evitável e passível de prevenção. Os fatores responsáveis por uma queda podem ser intrínsecos (relacionados ao indivíduo), ou extrínsecos (relacionados ao ambiente). Os primeiros são relativos ao histórico de quedas, a idade, o gênero, a utilização de medicamentos, a deficiência nutricional, problemas com audição ou visão, etc., já os segundos, são relativos ao piso escorregadio, tapetes soltos, escadas sem corrimão, móveis instáveis, degrau de ônibus, pouca iluminação, etc. (Fonte: Velho, eu?).
O que fazer para prevenir? Ora, basta o cuidado com o idoso que está próximo de nós. Seja nossa vovó, nosso vovô, a vizinha. Não importa quem seja, se você puder fazer o mínimo possível para ajudar, poderá estar prevenindo um possível desastre. Um exemplo é o seguinte: você tem uma vizinha de apartamento idosa, você vê que o tapete da porta de entrada dela está desarrumado: arrume-o. Outro exemplo: você mora em um prédio que sabe que há ali muitos idosos, percebe que a luz do hall de entrada está fraca, portanto, deve-se tomar a devida providência.
O fato é que muitas quedas de idosos podem ser evitadas por atitudes simples. Além disso, levando em conta essa questão, temos de cuidar do mundo hoje (caso você ainda seja jovem) porque, no futuro, a velhice chegará para você também e você precisará de cuidado. Outro fator importante, que deve ser considerado, é que cada um deve fazer o possível, ou ao menos se esforçar o máximo que puder, para chegar na velhice, o mais inteiro possível, para evitar que tombos: a saúde é a maior das virtudes, portanto, todo mundo sabe que fazer exercícios físicos regulares e comer direitinho é importante.
Mas, agora, para avacalhar a questão e dar aquele sabor filosófico para o tema (eu não pude me conter em não fazer isso), faço a seguinte questão para o leitor: você acredita em destino? Vou ajudar na sua resposta, lhe fazendo outra pergunta: já ouviu as pessoas dizerem que todo mundo tem “a hora certa” para morrer? Se você é a pessoa que diz isso, então sim, você crê em destino. Se for esse o caso, não há o que prevenir no tombo dos idosos; e não se trata de naturalizar a questão. O que acontece é que é indiferente se você troca uma luz, arruma um tapete ou foi para a academia todos os dias da sua vida… se você tiver que morrer porque caiu das escadas, morrerá.
Gostaria de terminar este singelo textinho, citando aquela canção pavorosa de Raul Seixas, chamada “Canto Para Minha Morte”, que diz: “qual será a forma da minha morte? […] um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio…”.