Ensaio
Subordinação à produção
Viver assim deve ser uma grande merda.
É difícil conversar sobre capitalismo com aqueles que estão subordinados à produção. É difícil fazer com que o empresário e direitista entenda que é preciso superar o capitalismo, que é preciso pensar nisso. Como é sabido, tudo tem seu oposto, mas creio que o oposto do capitalismo ainda não foi encontrado. Para encontra-lo, o homem precisará estar disposto a trocar a ganância (no caso dos capitalistas) por compreensão aos empecilho das outras classes e dinamismo em oposição à revolução (no caso dos proletários).
Moro na cidade de Palotina, sede nacional da C-vale, uma das maiores industrias alimentícias do Brasil. Tive alunos que trabalham lá.
Estamos sim, percorrendo um caminho bastante otimista em relação a melhor “qualidade de vida” dos trabalhadores, embora eu prefira o termo “vida de qualidade”. Hoje, em relação ao século XIX, temos férias, décimo terceiro, direitos trabalhistas de todos os tipos, vale compra, vale alimentação, vale transporte, etc. etc. Mas ainda há algumas coisa a serem superadas. A principal delas, e é a que me ocupo exclusivamente em denunciar aqui, é a ignorância e o automatismo. O trabalhador da fabrica continua sendo um alienado total e sem nenhuma autonomia intelectual para buscar superar a sua própria condição. Vender a sua força de trabalho é uma questão de sobrevivência, aceitar o preço que pagam por isso é uma questão de obediência (e falta de escolhas).
O trabalhador só vai aumentar suas escolhas (possibilidades) quando ele tiver consciência de que pode ser mais do que é. Não como uma armação de um conjunto revolucionário, não pela união de classes. Talvez o capitalismo seja superado apenas interiormente, apenas individualmente. Em teoria, um pode ajudar o outro a encontrar esses meios, mas na pratica é cada um por si.
Certa vez ouvi um morador de rua dizer que a “a violência é a arma do ignorante”. Ele tinha muita razão. Acrescento a isso, que há aqueles que possuem medo da violência, e sujeitam-se (necessariamente) a tornarem-se subordinados da produção, devem faze-lo e encararem tal coisa como uma fase passageira de suas vidas. Aqui entra o dinamismo, pois é fácil chegar à conclusão que ninguém quer cortar o pescoço de 10 frangos por minuto durante 12 horas por dia, cinco dias por semana, durante toda a vida.
O que torna essa forma de vida menos medíocre é a formação, a busca pelo conhecimento. Não para subir de nível, de cargo ou “melhorar o bolso”, mas para melhorar o próprio eu, e para aprender a pensar por si. Diria ainda, mesmo que um tanto quanto poeticamente, para “ver Sisífo feliz!”.
Ainda assim, me vejo nessa incógnita insuportável… Como deixar de ser um matador de frangos recebendo um salário miserável?
Ainda mais quando é desse salário que sai o sustento dos filhos e da casa toda… Viver assim deve ser uma grande merda. O homem que vive assim não tem direito de se deprimir, nem de ficar doente. Como superar isso? A vida não há de ser uma simples escada ou uma invariável pirâmide como querem aqueles idiotas dos coachings corporativistas. Alguns são tão alienados e ignorantes que nem conseguem ter noção da própria miséria, como dar jeito nessa gente?
Como não se preocupar com eles? Sem politização, sem aplicar “engajamento”, sem tomar um lado na guerra ideológica, sem ser um proletário ou sem ser um capitalista, sem ser um esquerdista ou um direitista… Eu, como professor, educador e “filósofo”, só possuo uma função no mundo: clarear ideias, buscar criar dinamismo no proletário e compreensão no dono do capital. Entendo a ingenuidade rousseauniana dessas colocações, mas se não buscarmos superar o capitalismo por uma via de paz o que continuaremos a fazer? “Jornada dos cinco dólares?” como fez Ford ao buscar amarrar o trabalho pelo bolso e extrapolando as paredes da fábrica buscando trabalhadores ideais, que não bebessem, não fumassem e destinassem seu dinheiro apenas à família? Ou então, uma revolução proletária armada em busca de mudar à força a infraestrutura? Nada disso deu certo e fez apenas os homens se tornarem menos homens e menos dignos. Superar o capitalismo, superar o cortador de frangos, deve ser uma tarefa de paz e feita em união dos ricos e dos pobres (otimismo ingênuo).
É preciso abandonar as mentiras cooperativistas, é preciso falar abertamente da miséria e da pobreza, assim como da luxuria e da riqueza. A compreensão e o dinamismo devem andar juntos buscando suprimir a ganância e o conformismo, assim estaremos na direção de superar o capitalismo e em descobrir o seu verdadeiro oposto.