Ensaio
Reflexões sobre a mulher brasileira
Uma daquelas moças era toda tingida, tão bem-feita, e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha), tão graciosa, que muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, envergonharam-se por não terem a sua como a dela.
Na clássica carta do escrivão Pero Vaz de Caminha, datada de 01 de maio de 1500, encaminhada ao rei de Portugal, Dom Manuel I, e tida consensualmente como certidão de nascimento e primeiro documento histórico da terra que posteriormente viria a ser conhecida como Brasil, pretendia-se principalmente comunicar o sucesso da expedição de Pedro Álvares Cabral e o descobrimento das novas terras, mas além disso, na carta se pode identificar a primeira vez que a mulher indígena das Terras de Santa Cruz foi citada e registrada. O trecho chega à comicidade, Caminha escreveu assim: “Uma daquelas moças era toda tingida, tão bem-feita, e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha), tão graciosa, que muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, envergonharam-se por não terem a sua como a dela”.
Não nos resta dúvida que Vaz de Caminha, Cabral e toda sua tripulação, (inclusive as mulheres) fizeram olhos gordos para a beleza feminina da ameríndia. Fora isso, há incorporado na carta de Pero Vaz muitos outros motivos parar rir e se orgulhar, porém agora — já muito distante dos portugueses terem ancorado seus navios na costa tupiniquim — a mulher brasileira para muito além da graciosidade e das curvas de seu corpo demonstra também outros motivos para invejar o mundo e para orgulharmo-nos da formação da identidade nacional; basta que se atente as obras de Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, às músicas de Carmen Miranda, Marisa Monte, Elis Regina, e Paula Toller, aos livros de Cecilia Meireles e Clarice Lispector ou mesmo às excelentes atrizes Fernanda Montenegro, Laura Cardoso, Glória Menezes e para sermos ainda mais pontuais e fiéis ao cotidiano, podemos citar as duas cientistas brasileiras, Ester Cerdeira Sabino e Jaqueline Goes, que nos últimos dias sequenciaram o genoma do coronavírus em tempo no tempo recorde de 48h. Além de todas essas, cabe dizer que muitas outras ficaram de fora pois extrapolariam os limites de coluna.
Incontestavelmente, durante vários séculos, mulheres de todo o mundo foram relegadas à limitação do ambiente doméstico e ao subalternizo do poder do pai e do marido. Para radicalizarmos, podemos lembrar de períodos remotos onde haviam leis que puniam o celibato, obrigavam o casamento, permitiam ao homem o livre divórcio por simples justificativa de infertilidade da mulher e não raros casos onde elas jamais tiveram direito à herança, mesmo quando sendo irmãs mais velhas.
O dia internacional da mulher, instituído em 1975 (depois de muita luta e episódios trágicos), busca retificar e equilibrar essas diferenças, dando a elas, ao menos simbolicamente, os direitos políticos e sociais os quais nunca tiveram, mas também significa um complexo reflexo da modernidade e pós-modernidade, o qual tem o capital financeiro como objeto principal de evolução humana, desse modo, modernizar a mulher foi também um dos tantos movimentos involuntários do capitalismo.
É sabido que as principais correntes feministas nasceram no século XIX no bojo de movimentos anarquistas e socialistas. Elas foram importadas para o Brasil junto com os imigrantes e as revoluções industriais. A princípio a reivindicação era por melhores salários e condições de trabalho — nesse caso, não só das mulheres, mas também dos homens. Posteriormente, a luta também pelo simples direito ao sufrágio, que no Brasil só veio a ocorrer a partir de 1934, no entanto, obscurecido de 1937, com o golpe do Estado Novo redigido por Getúlio Vargas, até 1945, com o início da redemocratização e o fim da Era Vargas.
Por fim, é motivo de regozijo de qualquer pessoa sensata, orgulhar-se das transformações sociais que ano a ano retiram as mulheres das margens ligadas aos modelos retrógrados e patriarcais, que lhes dão maior autonomia para serem o que quiserem ser, decidindo-se por si seus sonhos e seus destinos, no entanto, ainda há muito caminho a ser percorrido, afinal não é preciso muito esforço e nem ir muito longe para deparar-se com declarações misóginas e racialistas que se disfarçam de “ordenamento natural” e de justificativas irracionalistas que não se sustentam historicamente.
Originalmente publicado pela Folha de Londrina.