Ensaio
Não olhe para cima, mas olhe para você mesmo
Finja-se de morto.
Ganhamos da cultura, ou melhor, da Netflix, um belo de um tempero para apimentar ainda mais as discussões nas típicas hipócritas reuniões de fim de ano (que acontece em todos os países que seguem o calendário Gregoriano e comemoram o Natal e o Réveillon). E certamente, esse foi um dos motivos para o filme “Não olhe para cima [Don’t look up]”, que traz uma constelação de estrelas hollywoodianas, como Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Ariana Grande, Maryl Streep, Jonah Hill, etc., ser lançado justamente nessa época.
O roteiro do filme é extremamente inovador, porque além de abordar temas atuais sob uma ótica apocalíptica, ele mostra como ninguém estaria nem aí com o fato de o mundo estar prestes a ser abatido por um cometa. Eu, particularmente, sou da opinião de que se fossemos amanhã ou depois embotados pela notícia de que daqui 6 meses o planeta Terra acabaria, teríamos 6 meses de paz, união e festas porque o amor parece crescer ao estarmos diante da morte. Além disso, o fim do planeta seria talvez a melhor das notícias que poderíamos receber. Colocaria-nos de novo em unidade de igualdade e descortinaria nossas fraquezas, colocando-nos de vez de encontro com o incômodo constante que todo mundo sente, mas que fazemos de tudo para esconder (todo mundo está mal por algum motivo, essa é a nossa natureza, as aparências são meras cascas e camadas, no fundo somos dor e sofrimento).
Fato é que agora, temos um motivo a mais para alfinetar os parentes e amigos no final do ano. O filme “Não olhe para cima” é um prato cheio para colocar pai contra filho, mãe contra sogra, vó contra neto, etc., por isso, este meu singelo textinho, pouco se preocupa com tratar ou criticar o filme, mas discutir os efeitos que ele pode causar na reunião de fim de ano em edículas, bares e sombras de guarda-sóis; além disso, pretendo dar um conselho…
Se o filme divide aqueles que não olham para cima, porque não creem na chegada do meteoro, daqueles que olham, pois acreditam na descoberta da ciência e realmente estão preocupados com o futuro, aqui, no mundo real, estão cheios de paralelos do mesmo tipo: os antivax versus vacinados, os terraplanistas versus os que creem na terra esférica, os bolsonaristas versus os lulistas, enfim, basta olhar em algum setor qualquer da sociedade e se encontrará formas de se relacionar com o filme “Não olhe para cima”. Contudo, não se precipite na festa em família caso um inimigo político, ético ou eleitoral comece a tratar do filme. Os conselhos que dou são 1) finja-se de morto por ter exagerado na bebida; 2) faça de conta que não viu o filme e por isso, será sábio em não dar sua opinião; 3) não vá para reuniões de família só para cumprir com o tosco protocolo do calendário Gregoriano.
Sou adepto da terceira das dicas que dei acima. Para mim é a melhor. Garante a paz e até mesmo a integridade física, porque nunca se sabe o tipo de confusão que pode acontecer numa festa de família num país todo dividido quanto é o Brasil.
Compre uma pizza, assista mais um filme na Netflix, faça de conta que está com febre ou que testou positivo para o Covid. Invente qualquer coisa para não precisar sair de casa. Não tenha dúvidas que sua integridade psicológica para iniciar um ano sereno e em paz irá ser a melhor das coisas que poderá lhe acontecer, para começar o ano não só com o pé direito, mas também com cérebro saudável e livre de encrenca.
Por isso, é preciso destinar um NÃO bem grande para as reuniões de família, para os grupos de WhatsApp e para a falsidade dos encontros que só acontecem por conta de datas comemorativas. Pergunto-me: por que é que uma família que vive em desgraça e confusão o ano todo, no fim do ano tem que se abraçar e se perdoar? Não perdoe os infames, não amoleça diante daquilo que não aceita, escolha sempre a paz e fuja dos problemas evitáveis. Se for para ter pena de alguém, escolha ajudar os que precisam realmente. Compre uma cesta básica, faça uma caridade nem que seja para se sentir bem consigo mesmo e para se deixar revelar que o amor que quis sentir pelos outros não passa de ódio que sente por si mesmo; mas, acima de tudo isso, nunca perca de vista suas admissões sinceras sobre seus próprios atos, porque no fundo ninguém está nem aí para você, (tal como não está nem aí para si mesmo); aliás, é justamente isso o que explica o fato de que se um meteoro fosse cair na terra daqui a seis meses, estaríamos muito mais interessados nas últimas façanhas do cachorrinho famoso da Anitta, o simpaticíssimo Plínio.
Um grande abraço ao leitor – tanto o que concorda, quanto o que discorda de mim – e um viva a saúde mental!
Originalmente publicado pela Folha de Londrina.