Ensaio
Juliette e a mitologia grega
Juliette conseguiu explicar e dar um pouco mais de sentido para nossa dura realidade nacional.
Hoje, 05/05/2021, assisti pela manhã ao programa da Ana Maria Braga onde a apresentadora entrevistou Juliette, a última vencedora do BBB. No programa a apresentadora revelou tudo que aconteceu enquanto a participante esteve confinada. Abaixo deixo algumas de minhas reflexões sobre o caráter de Juliette e sobre os positivos reflexos sociais causados pela sua imagem.
Pois bem, depois que a paraibana Juliette conquistou o coração dos brasileiros que assistem ao reality show algumas interessantes consequências sociais e inclusive econômicas aconteceram. Vejamos: a torcida da nordestina, amavelmente apelidada de “cactos da Juliette” fez com que a venda de cactos aumentasse mais do que nunca em todo o nordeste, o chapéu de cangaceiro o qual Juliette usava em algumas fotos de suas redes sociais, dizem ter mudado de nome, agora se chama “chapéu de Juliette”, e consequentemente, também fez com que a vendas do adereço aumentassem nas lojinhas de artesanato. E mais alguns coisas interessantes que justificam a paraibana ter sido classificada pelo apresentador Tiago Leifert como um “fenômeno” podem ser observados nos seguintes fatos: a vinícola Pericó lançou uma linha de vinhos nomeados “Juliette”, o que tornou a marca conhecidíssima e disparada nas vendas; o artista Rafael Silva desenvolveu uma boneca personalizada chamada Juliette; várias músicas foram feitas em homenagem à paraibana, dentre elas, uma de Carlinhos Brown chamada “Juliette, mon amour”; por fim, pesquisadores que estudavam a flora de Fernando de Noronha, ao descobrirem uma nova espécie, batizaram-na de “Juliette”.
Creio que há inúmeras maneiras de justificar o “fenômeno Juliette”, porém, aqui pretendo me ater a analisar brevemente o caráter da nordestina através do mito de Dionísio, o deus do entusiasmo, da alegria e do vinho. A tradição mitológica, conta que Dionísio, filho de Zeus, o deus dos deuses, foi o primeiro a plantar videiras em todo o mundo, depois trabalhou avidamente para ensinar aos homens a trabalhar nos vinhedos, a fazer vinho e a alegrar suas vidas com festas, banquetes, danças e canções. Dionísio, sem dúvida foi um fenômeno cultural para o imaginário dos gregos, afinal, não haveria como aquele que promove a alegria e desperta sensações prazerosas em todos os seres humanos não ter sido devidamente adorado.
No entanto, a maior diferença entre o mito de Dionísio, que andou pelo mundo espalhando vinho e alegria, com a história real de Juliette é que, se tomássemos Dionísio como um homem (ou um deus) que realmente viveu no mundo, então teríamos que Dionísio teve sucesso e reconhecimento enquanto sabia e via esse sucesso e reconhecimento acontecendo diante de seus olhos, por outro lado, Juliette foi reconhecida enquanto estava confinada e só pôde ter verdadeira dimensão do seu sucesso ao sair do BBB. De certo modo, isso confirma a ideia de que somos fissurados em surpreender aqueles que gostamos. Queremos vê-los bem, queremos fazê-los felizes, porém, o fato é que, quando essa adoração acontece conjuntamente, sentimos que não estamos apenas adorando um único adorado, mas que também somos e sentimos verdadeiro calor em estarmos todos juntos numa corrente de adoração. Numa analogia, pode-se pensar que quando as pessoas em geral frequentam igrejas e templos religiosos em geral, têm-se a sensação de estarem em comunhão com a adoração a x ou y Deus, etc., no entanto, se nas igrejas, chamam-se uns aos outros de ‘irmãos’, na adoração à Juliette, chamam-se ‘cactos’, como uma unidade de pessoas unidas para um mesmo fim: adorar à Juliette.
Assim, temos que a nordestina teve o poder de promover uma alegria geral, ajudando as pessoas mesmo que indiretamente, semelhante à como faz um deus ou uma crença qualquer. As pessoas em geral sentiram-se felizes e representadas pela sua personalidade, e inclusive, como demonstrei no começo do texto, algumas até se beneficiaram economicamente, o que é inegavelmente impressionante se pensarmos que apenas 100 dias atrás Juliette era uma mulher completamente anônima.
Por fim, cabe mais uma última breve reflexão: se nos tempos antigos os heróis eram retratados em desenhos feitos pelos muros das cidades (os romanos faziam isso com os Gladiadores), e os deuses eram retratados em estátuas ou em pequenos objetos artesanais, hoje o mesmo acontece com Juliette, e aí não me parece tão exagerado, que embora ela não seja onipotente e nem tenha chegado sozinha onde chegou, mereça ser chamada de ‘deusa’, ou talvez ‘semi-deusa’, porque inegavelmente fez um bem geral apenas usando seu senso de justiça e sinceridade. E embora muitas pessoas achem o BBB apenas mais um mero programa de televisão (assim como muitos acham a tradição da mitologia grega um monte de bobagens viajadas e irreais), é fato que, Juliette — assim como os mitos — conseguiu explicar e dar um pouco mais de sentido para nossa dura realidade nacional, realidade que, aliás, foi bem sintetizada em uma frase proferida pelo participante Gil do Vigor…: “O Brasil ta lascado!”