Ensaio
As cavernas contemporâneas
Permanecer no engano é mais confortável que buscar a verdade.
Segundo Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), “ser racional significa que ao mesmo tempo em que emitimos juízos sobre o mundo externo, temos nós mesmos possuímos a capacidade de sermos o objeto julgado” (Sobre a Vontade na Natureza, 2013, L&PMpocket p. 147). Por outro lado, os animais, considerados irracionais, não carregam consigo nenhum conceito que possam torna-los independentes da impressão do momento presente. Em outras palavras, os animais não apresentam capacidade de reflexão ou de ação premeditada, limitando-se ao agir exclusivo sobre os “estímulos do agora”.
Utilizemos então nossa racionalidade e façamos uma reflexão. Quantos dos humanos, que são animais considerados racionais estão agindo como animais irracionais?
Talvez o que aja de mais pop em toda a filosofia seja a Alegoria da Caverna escrita por Platão em “A República” datada de 380 a.C. Para aqueles que não se lembram da alegoria, façamos um rápido resumo: a alegoria diz respeito de homens que viveram suas vidas inteiras, desde o nascimento, presos de costas para a entrada de uma caverna subterrânea. A única coisa que esses homens viam eram sombras nas paredes que eram projetadas por uma fogueira, e então, consideravam que aquelas sombras fossem a total e única realidade. Quando Platão, ao considerar que um desses homens se solte das amarras que o prende, e então, ao caminhar até a saída da caverna, tal homem é tomado por uma terrível dor nos olhos pois foi cegado pelo forte brilho do sol. Mas, tendo passado alguns instantes, ao acostumar-se com o novo ambiente, a dor nos olhos diminui e aos poucos ele entende a sua nova realidade, percebendo também o tamanho da miséria de sua condição anterior.
Agora perguntemo-nos, o que há no mundo contemporâneo que se faz análogo as sombras da caverna da alegoria platônica? Para que o leitor aja racionalmente, conforme a definição sobre o que significa ser racional para Schopenhauer expressa no início do texto, aqui vão alguns exemplos de “sombras contemporâneas”: as novelas e programas de televisão em geral, o uso exagerado da internet e as bestialidades nos grupos de WhatsApp, o vício em drogas sejam elas lícitas ou ilícitas, a tendência na participação da cultura da desmoralização, e isso significa a adesão de estilos da moda, onde não se faz uma escolha porque realmente se gosta, mas sim porque almeja “sentir-se aceito” ou “sentir-se parte do meio”.
Todas essas coisas causam a ilusão de que estamos pensando por nós mesmos, porem na verdade acontece justamente o contrário, pois acabamos sendo levados pelo pensamento dos outros, mas esses outros não existem, portanto, são pensamentos sem dono e sem fundamento, afinal quando pensamos juntos, mas de maneira desordenada, todos acabam perdendo a consciência. Desse modo, até mesmo os que parecem ser os “donos da moda” tornam-se parte dessa enorme ilusão causadas pelas sombras na parede. Ou seja, mesmo políticos, atores e cantores famosos não possuem nenhuma consciência do que fazem e não tem nenhuma noção do quanto influenciam o público. Temos então, o que Freud chamaria de Delírio Coletivo.
Sair da caverna não é nada fácil, afinal o que obviamente é considerado comum e normal é que participemos dela. O conselho que dou aqui é perguntarmo-nos sempre a nós mesmos: “o que tenho de ideias puramente minhas e o que tenho de ideias que são influência do mundo?” Fazer essa difícil separação é indispensável para quem deseja abandonar a caverna, e, garanto que pouquíssimas ideias são puramente e unicamente nossas, pois somos muito sensitivos ao mundo, portanto, deixemo-nos influenciarmo-nos apenas pelas melhores ideias e não pelas falsas, capitando do mundo apenas as melhores ideias e não as falsas sombras das paredes!
Platão ao considerar que o homem que saiu da caverna retornasse a ela para que tentasse libertar os outros que ainda estavam presos, acabou concluindo que aqueles homens duvidariam dele e sem acreditar nas suas palavras sobre o mundo real ou sobre o brilho do sol que cegou seus olhos, o julgariam como sendo um mentiroso e o acabariam por assassina-lo. De fato, é o que sempre aconteceu com os maiores heróis da história humana: morreram sem abrir mão da verdade. Quanto a isso, é possível considerar analogamente que os sensatos acabam por receber pouquíssima atenção, pois, como é sabido, permanecer no engano é mais confortável que buscar a verdade.
Originalmente publicado na Folha de Londrina.