Ensaio
Abster-se ou tornar-se dragão
O filósofo sugere que o homem não precisa sair da sua caverna, mas pode se tornar “um urso, um dragão, um caçador ou guardião de tesouro, para assim encontrar no labirinto de sua caverna, uma mina de ouro”
Segundo T. Adorno: “a indústria cultural continuamente priva seus consumidores do que continuamente lhes promete” (Indústria cultura e sociedade p. 21). Mas perguntemo-nos: o que a indústria cultural mais promete?
A promessa é sempre de felicidade escondida em forma de produto. Há promessa de felicidade em comprar o último celular lançado, em beber a nova cerveja do mercado, ou ainda em ouvir a música considerada o hit do momento. É comum vermos nas propagandas desses produtos, pessoas bonitas e felizes em locais maravilhosos, e por vezes, há ainda o apelo para a banalização da sexualidade, onde se expõe mulheres e homens seminus e os relacionam com o prazer de adquirir o produto da propaganda em questão.
Para superar essa decadência do mundo moderno, é preciso antes de qualquer coisa, refletir sobre sua própria condição de consumidor, no entanto, é compreensível que a grande maioria das pessoas não possua capacidade de pensar suas misérias por si mesmas, afinal, estar submerso ao consumo promovido pela indústria cultural e tecnológica é a mais comum forma de alienação dos nossos tempos. Para elucidar isso, Adorno escreve que: “para a dona de casa a obscuridade do cinema […] representa um refúgio em que se pode estar sentada por duas horas em paz” (Idem, p 20 e 21). Além disso, o autor aponta que a diversão “é procurada pelos que querem se subtrair aos processos de trabalho mecanizado, para que estejam de novo em condição de enfrentá-lo”. (Idem, p. 19). Desse modo, podemos entender que, muitas vezes as pessoas recorrem às futilidades promovidas pela indústria cultural como uma forma de escapar de suas rotinas mecanizadas.
A função da indústria, aparentemente é de ter um papel de integração social das massas, fazendo com que as pessoas se reúnam para juntas deleitarem-se das suas novas produções, mas na realidade, ela fornece um grande risco, pois está sujeita a exercer um hegemônico controle social. É através dos fetichismos[1] avassaladores contidos em suas propagandas que a indústria acaba por criar uma moral vigente e dita as regras do que é um bom produto, uma boa música, um bom filme, etc. Desse modo, podemos dizer que, quem possui mais dinheiro para se produzir e para se mostrar para o mundo, acaba sendo o melhor, preferível e superior, enquanto aquilo que não está em visibilidade na mídia, acaba sendo o pior e ruim, o que muitas vezes pode ser uma visão precipitada e demasiadamente exclusiva. Segundo Monteiro: “Adorno entende que a cultura hodierna (mídia, tecnologia, propaganda, etc.) é um meio de consolidar o modelo capitalista de sociedade, impedindo que os fracos tenham voz diante de sua exploração” (História da Filosofia Contemporânea, p. 171).
Para fugir disso, é preciso ter sagacidade para observar o mundo cultural e tecnológico através de uma perspectiva mais racional. Isso significa estar em situação de respeito diante de produções que não possuem capital para propaganda, mas que podem ser essencialmente excelentes, ou no caso da compra de um produto, perguntar a si mesmo se ele será realmente útil, além disso, é preciso atentar-se a forma como se usa esses produtos adquiridos, pois eles podem acabar por tornarem-se vícios, como uma espécie de gatilho auto alienante, ou uma caverna platônica contemporânea.
Numa perspectiva antagônica a que temos tomado até aqui, podemos abordar a visão de Friedrich Nietzsche para continuarmos a dialogar com Platão. Nietzsche, filósofo dionisíaco, antiplatônico assumido e que caracterizou a filosofia pela sua forma de pensar o mundo como ele é, ou seja, buscando superar suas dificuldades sempre com os pés no chão, dispensando tudo que diz respeito ao “além-mundo”, especificamente em sua obra Além do Bem e do Mal publicada em 1886, faz uma sagaz e genial crítica a caverna de Platão. O filósofo sugere que o homem não precisa sair da sua caverna, mas pode se tornar “um urso, um dragão, um caçador ou guardião de tesouro, para assim encontrar no labirinto de sua caverna, uma mina de ouro” (p. 275). Basicamente, o que diz Nietzsche é para que escavemos caverna à dentro. Entendo essa tese como sendo uma maneira de “jogar uma picareta” contra as sombras na parede, escavando assim nas suas profundezas. Noutras palavras, a solução seria: ao invés de sair da caverna, enfiar-se no fundo dela a fim de garimpar ouro. [Leia aqui o texto “O prisioneiro e sua chave”, onde concebi essa ideia da picareta escavando para dentro].
Pensando a tese de Nietzsche na prática, podemos entender que não é totalmente necessário abandonar as nossas cavernas contemporâneas (computadores, celulares, televisores, e praticidades tecnológicas em geral), mas sim buscarmos extrair boas reflexões delas e sabermos utilizá-las de modo correto. Dessa maneira, poderemos assistir uma novela e tecer críticas sobre ela, assim como poderemos participar de um grupo de WhatsApp que discuta boas ideias, fazendo assim um bom uso dele, buscando contribuir ativamente para que outras pessoas aprendam conosco, além de estarmos com aptidão para aprender com elas. Há várias formas de aprender com o mundo atual, mesmo ele estando demasiadamente banalizado.
[1] O fetichismo é um conceito clássico na filosofia marxiana, além de compor grande parte do escopo da filosofia de Theodor Adorno. No geral, podemos conceber o fetichismo como uma espécie de feitiço que a propaganda e a indústria cultural causam no indivíduo em relação ao seu produto. Segundo as correntes marxistas, esse fenômeno acontece por consequência da ascensão capitalista.