Ensaio
A sociedade do espetáculo e a origem do Big Brother
O Grande Irmão da ficção de Orwell, na vida real é o telespectador, que assiste e analisa, e é assim que se pode ter um breve gostinho do que é ser um ditador.
Não é de hoje que o ser humano adora espiar seus semelhantes. Poucos séculos atrás, condenar um criminoso em praça pública ou em portas de igrejas, não era só um modo de exercer a justiça, mas também um espetáculo popular. Execuções públicas vultavam multidões para rirem e escracharem de criminosos. Os modos eram bastante diversos: empalhamento, garrote, gaiola de ratos, desmembramentos utilizando-se de cordas e cavalos, ou até mesmo modos mais rápidos como a abertura do ventre para que o condenado pudesse ver suas entranhas espalhadas no chão em seus segundos finais. Foi só por volta de 1790 que a guilhotina surgiu na França para dar mais facilidade ao trabalho dos carrascos e para o afrouxamento da severidade penal, no entanto, os aplausos e as aglomerações em locais públicos continuaram. É fato, sempre tivemos muito apresso por ver cabeças rolando.
Em Roma, por volta do ano 50d.C, o homem construiu o Coliseu, ali os prisioneiros tornavam-se gladiadores e faziam até “plano de carreira”, pois no caso de conseguirem muitas vitórias, tornavam-se verdadeiros heróis, e conquistavam muitos fãs que os ovacionavam e escreviam seus nomes em muros da cidade. Os gladiadores eram obrigados a lutar contra animais selvagens e claro, entre si. A regra era simples: manter-se vivo. Essas batalhas eram importantes economicamente, pois estimulavam apostas e movimentações turísticas, nos dias de lutas, não havia quem não se deslocasse para assisti-las.
Atualmente o Coliseu se reduziu em pequenos ringues 3x4 e as lutas não são mais até a morte, é o que poderia nos atestar qualquer fã de MMA. Outras mudanças visíveis são que os grandes anfiteatros e espaços de praças públicas passaram a ser as nossas próprias salas de estar, onde encontram-se pequenas caixas de luz o qual chamamos “televisão”. Um dos espetáculos que assistimos nessas caixas chama-se Big Brother, grandioso fenômeno cultural em muitos países, inclusive no nosso.
O Big Brother é uma analogia a obra “1984” de George Orwell. “1984” trata-se de um romance futurístico, lançado em 1949, que visava cutucar as feridas ainda abertas causadas pela Segunda Guerra Mundial que a pouco tempo havia terminado. No livro, o “Grande Irmão” é um ditador que controla as atitudes das pessoas, observando-as a partir de “teletelas” — uma espécie de televisão-filmadora espalhada por todo o mundo, tanto nas ruas como nos lares. “O Grande Irmão está de olho em você”, é o slogan utilizado pelo ditador da distopia de Orwell.
Enquanto na obra “1984” a vigilância extrema e o controle das atitudes das pessoas possuem tom de indignação e inadmissibilidade, no programa de TV da vida real, o Big Brother Brasil, a vigilância toma um tom de total entretenimento e espetáculo. O Grande Irmão da ficção de Orwell, na vida real é o telespectador, que assiste e analisa, e é assim que se pode ter um breve gostinho do que é ser um ditador, onde cada um tira suas conclusões de acordo com as atitudes dos participantes da “casa mais vigiada do Brasil”.
Em cada um dos lares brasileiros que assistem ao Big Brother, há uma pequena analogia a Orwell, porque, se na obra “1984” o menor desvio de conduta sobre o mais insignificante dos assuntos fosse filmado pelas “teletelas”, isso poderia se tornar absolutamente intolerável pelo partido do Grande Irmão, sendo esses desvios, motivos de perseguição e de punição de morte. Na vida real, uma atitude indesejável de um dos participantes do BBB é condenada de forma diferente em cada um dos lares dos brasileiros. Por exemplo, um arroto de um dos participantes, pode ser julgado com risos em um lar, mas com indignação em outro, o que continua concreto é que estamos e sempre estivemos todos confinados e fazendo política em um único lugar, o mundo.
Originalmente publicado no jornal Folha de Palotina.