Ensaio
A Estação Primeira de Mangueira e seu Jesus polissêmico (e polêmico)
Robyn J. Whitaker: “a representação tradicional de Cristo produz uma desconexão cognitiva, em que um indivíduo pode sentir grande afeto por Jesus, e ao mesmo tempo demonstrar pouca empatia por uma pessoa do Oriente Médio”.
No último domingo, dia 23, uma das escolas de samba mais tradicionais do Brasil, a Estação Primeira de Mangueira, do Rio de Janeiro, colocou sua rainha de bateria, a atriz Evelyn Bastos, para interpretar uma versão negra e feminina de Jesus. Na bíblia, como é sabido, não há nenhuma descrição física do messias, o que podemos inferir com lógica é que o homem executado pelo Império Romano no século I, era um judeu e proveniente do Oriente Médio, o que torna muito pouco provável que Ele tenha sido branco de olhos azuis — e que isso obviamente não têm importância alguma, ou não deveria ter.
Na maioria dos templos religiosos, Jesus normalmente é retratado ou simbolizado como homem branco, similar a um europeu, e nisso há uma clara incongruência representativa, é o que aponta a teóloga evangélica australiana, Robyn J. Whitaker: “a representação tradicional de Cristo produz uma desconexão cognitiva, em que um indivíduo pode sentir grande afeto por Jesus, e ao mesmo tempo demonstrar pouca empatia por uma pessoa do Oriente Médio”.
O ponto trágico da história é que grupos religiosos e políticos conservadores reagiram mal ao Jesus interpretado por Evelyn Bastos, no entanto, é muito provável que o próprio Jesus não a julgaria mal, primeiro porque nunca destratou mulher alguma e segundo porque não fazia segregações raciais. Qualquer um que já tenha lido os Evangelhos sabe muito bem disso.
A verdade é binária: há um grupo voltado ao festejo do carnaval e que é mais apto a exaltação da cultura brasileira de forma miscigenada, porém, nem sempre honesta, do outro lado, há grupos religiosos e ultraconservadores que tendem ao mantimento de uma suposta ordem cultural aristocrática embasada na ideia única, e antidemocrática, de que apenas o caminho em direção a Cristo pode ser correto e verdadeiro.
Eis então duas perguntas que precisam ser respondidas, a primeira é, “Cristo tornou-se uma arma política?” E a segunda, “Cristo precisa ser democratizado?”. Particularmente, eu diria sim para as duas. Porém, de um lado temos a ilegitimidade daqueles que tentam democratizar Cristo fazendo disso uma pura arma política, e do outro, aqueles que não compreendem a grande dimensão polissêmica pelo qual Cristo é e deveria ser interpretado… E como sempre, muito pouco respeito e muita guerra inútil.
Originalmente publicado no jornal Folha de Palotina.